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Ex-integrante da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação do Tribunal Superior Eleitoral, Eduardo Tagliaferro ganhou notoriedade ao denunciar práticas que, segundo afirma, ocorreram dentro do gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.
Agora vivendo na Itália e enfrentando um processo de extradição solicitado pelo Brasil, Tagliaferro acompanha à distância a repercussão de novos episódios do escândalo do Banco Master. Em entrevista à coluna Entrelinhas e ao programa Sem Rodeios, ele comenta desde relatos de encontros informais entre autoridades até o papel de delegados da Polícia Federal, o funcionamento do gabinete de Moraes e os desdobramentos jurídicos do seu próprio caso.
Entrelinhas: Em relação a uma festa privada em Londres envolvendo autoridades como Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, o procurador-geral da República e o diretor-geral da Polícia Federal, em 2024. Para o senhor, o que esse episódio revela sobre as relações e o funcionamento do poder em Brasília?
Tagliaferro: Isso mostra para todo o país que, na prática, não existe separação real entre Judiciário, Legislativo, Executivo ou Polícia. Eles acabam todos unidos com um único propósito: atender seus próprios interesses e manter um estilo de vida de luxo ao qual estão acostumados. Os salários não são altos a ponto de deixar alguém rico no Brasil, mas todos os benefícios, privilégios e relações de poder acabam transformando essas pessoas em verdadeiros imperadores, vivendo como reis. Infelizmente, essa é a fotografia atual de Brasília.
Entrelinhas: O senhor denunciou práticas dentro do gabinete de Alexandre de Moraes ainda em 2022 e foi alvo de críticas na época. Somente agora parte da imprensa começa a discutir os mesmos temas. Como avalia essa mudança?
Tagliaferro: Era meu dever, como servidor e como brasileiro, falar a verdade sobre o que acontece dentro das instituições. Não fiz nada além disso. O tempo está mostrando que aquilo que eu disse não era invenção. Fico satisfeito que agora o debate esteja acontecendo, porque quanto mais pessoas entenderem o que ocorre dentro das instituições, melhor para o país.
Entrelinhas: Como o senhor vê a ida do delegado da Polícia Federal Fábio Schor para trabalhar diretamente no gabinete de Alexandre de Moraes no Supremo?
Tagliaferro: Eu trabalhei em parceria com ele no passado. O que posso dizer é que sempre foi um delegado que cumpriu tudo o que Moraes determinava. Os relatórios e procedimentos eram montados dentro do tribunal e depois encaminhados para que ele executasse o trabalho da forma que Moraes queria. Então, quando ele volta ao gabinete do ministro no Supremo, a impressão que fica é de uma extensão do gabinete dentro da própria Polícia Federal. É alguém que executa as vontades do ministro.
Entrelinhas: Alguns críticos afirmam que o modus operandi revelado em mensagens de Daniel Vorcaro mostra uma estratégia de intimidação. O senhor vê semelhança com o que presenciou enquanto trabalhava no TSE?
Tagliaferro: É exatamente o mesmo modus operandi. Eles atuam com base no medo e na intimidação. Escolhem alvos — podem ser políticos, jornalistas ou pessoas envolvidas em investigações — e passam a pressionar. É algo muito parecido com o que se vê em regimes autoritários: o poder concentrado nas mãos de uma autoridade que age como imperador.
Entrelinhas: O senhor também comentou que houve mudanças na forma de comunicação usada por integrantes desses grupos. O que mudou?
Tagliaferro: No período em que trabalhei no Tribunal Superior Eleitoral, não se usava o recurso de mensagens de visualização única. As conversas eram feitas normalmente pelo WhatsApp. Quem usa visualização única geralmente quer esconder alguma coisa. Depois que meu caso veio a público, acredito que passaram a buscar métodos mais difíceis de rastrear, como enviar imagens com texto e visualização única.
Entrelinhas: O ministro Alexandre de Moraes afirmou em nota que determinadas mensagens atribuídas a ele seriam falsas ou fora de contexto. Como perito criminal, qual é sua avaliação?
Tagliaferro: Para mim, é uma nota ridícula. Quando se faz uma perícia técnica, com extração de dados e análise de material, os registros não aparecem do nada. Se o nome está ali, é porque existia naquela comunicação. Tentar negar algo que está tecnicamente comprovado é uma estratégia que já vimos em outros episódios da política brasileira.
Entrelinhas: Há sinais de que parte do sistema político e institucional possa se afastar de Alexandre de Moraes diante das pressões atuais?
Tagliaferro: Aparentemente, existe essa sensação, de que alguns começaram a soltar a mão dele porque também estão correndo riscos. Mas ao mesmo tempo muita gente tem receio, porque dentro do gabinete existem muitos processos, investigações e informações sensíveis. Isso cria um ambiente de medo. Por isso acredito que essa situação ainda pode durar algum tempo, até que as pessoas se sintam seguras para romper definitivamente.
Entrelinhas: Como está hoje o processo de extradição que o senhor enfrenta na Itália?
Tagliaferro: Está caminhando com tranquilidade. No começo houve um impacto emocional, claro, mas hoje já estou acostumado com a situação. Acredito que aqui a justiça será feita, porque existem provas claras de perseguição política. No Brasil haverá audiência, mas sabemos que o resultado ali já estaria praticamente definido.
Entrelinhas: O senhor pretende apresentar aos tribunais italianos informações sobre essas relações e investigações envolvendo Alexandre de Moraes?
Tagliaferro: Sim, isso faz parte da minha defesa. Quero mostrar que muitas decisões tomadas contra mim têm caráter político e não seguem os parâmetros legais. O próprio processo mostra irregularidades. Meu objetivo é demonstrar isso de forma clara para a Justiça italiana.
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