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Homossexualismo e musica. Historias de sofrimento e de coragem

BBC
Ao fundo Peter Pears e o Príncipe Philip.À frente Benjamin Britten e a Rainha da Inglaterra.Aceitação e respeito.

Na semana passada um articulista escreveu um artigo homofóbico que causou comoção em Curitiba. Abaixos assinados estão correndo por aí, e na realidade as melhores respostas que vi a tanto espirito retrogrado foram dois blogs deste site, um bem sério ( de Rogerio Galindo) e outro bem satírico (Aldrin Cordeiro). Aproveitando a deixa resolvi colocar aqui uma reflexão quanto aos efeitos da não aceitação da homossexualidade na história da musica. Como disse no título, histórias de sofrimento e de coragem.

Pelo fato da sociedade como um todo rejeitar o homossexualismo há séculos, existe pouca documentação a respeito da vida de compositores de um passado relativamente remoto a respeito deste assunto. Sabe-se por algumas suspeitas de Lully, Schubert e Ravel, que os mesmos tiveram uma vida amorosa secreta. Mas como disse anteriormente, as provas documentais são insuficientes. Pretendo por isso discorrer a respeito de exemplos com provas documentais suficientes para que compreendamos o quanto a perseguição e o preconceito arrasaram e modificaram as existências de alguns grandes compositores, e influenciaram a sua produção.

O primeiro exemplo que cito é o grande compositor russo Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840 – 1893). Um dos compositores favoritos do grande publico, Tchaikovsky sempre sofreu de forma contundente por causa de sua sexualidade. Foi até levado a um fracassado casamento, que ao que parece nunca se consumou. Este casamento, que durou alguns meses, levou o compositor a tal desgaste emocional, que o mesmo se sentiu incapaz de continuar a viver e compor. Sua última Sinfonia, a de numero 6 em si menor Op. 74, conhecida como “Patética”, é a típica partitura “autobiográfica” de um criador musical fustigado pelo preconceito e pela intolerância. Sua estreia acontece uma semana antas da morte do compositor. Esta morte é até hoje cercada de mistérios. Dados médicos contraditórios, desmentem a versão oficial de morte por cólera. Durante o período soviético houve uma grande manipulação e censura a respeito do assunto, mesmo nos textos escritos pelo grande compositor Rimsky-Korsakow, que esteve no velório e no sepultamento de Tchaikovsky. Uma musicóloga russa, chamada Alexandra Orlova, ao fugir de seu país em 1979, foi a primeira a apresentar documentos que levam a concluirmos uma hipótese de que Tchaikovsky foi condenado por um “tribunal” de nobres, que estavam profundamente irritados com o relacionamento do compositor com um jovem parente do Duque Stenbok-Fermor, e que o forçaram a se suicidar. A angústia e o sofrimento do compositor são facilmente identificáveis na partitura de sua última sinfonia. Uma introdução completamente lúgubre dá lugar a um tema completamente apaixonado. Ao terminar este tema, em pianíssimo, há um impacto de toda a orquestra, e num fortíssimo dos instrumentos surgem cantos da igreja ortodoxa russa relacionados à morte. A Sinfonia “Patética” é a primeira da historia da musica a terminar com um andamento lento. Neste último movimento, a intervenção de um gongo nos compassos finais deixa clara a intenção do autor de falar da morte. Morte esta que estava para acontecer. Para quem tem um mínimo de sensibilidade musical, esta obra, é a representação máxima de uma alma penalizada e perseguida por seus semelhantes. A Sinfonia Patética pode ser enxergada como a concretização musical da intolerância.

Diferente de Tchaikovsky o compositor Benjamin Britten (1913-1976) enfrentou de forma vitoriosa este preconceito Ele, que foi o maior compositor inglês do século XX, nunca se deixou intimidar. De 1937 até sua morte, Britten viveu junto com o tenor Peter Pears. Isto muitos anos antes da descriminalização da homossexualidade no Reino Unido. Todos sabiam de seu relacionamento, mesmo sua família e mesmo a família real. Em 1953, na coroação de Elisabeth II, Britten e Pears foram convidados para a celebração na Abadia de Westminster, e o musicólogo Alex Ross em seu livro “O resto é ruído”, narra como a Rainha da Inglaterra mandou um telegrama de Condolências a Peter Pears quando da morte do compositor. Ignorar o homossexualismo em Britten seria o mesmo que ignorar que Bach era luterano. Em sua obra Britten escreveu muita música vocal, a maior parte para voz de tenor obviamente, e diversas óperas. Dois traços ficam bem evidentes na escolha dos textos: o pacifismo (Britten e Pears se recusaram a lutar na segunda guerra mundial) e a tolerância com a homossexualidade. A escolha de textos de Michelangelo, Rimbaud, Auden e Wilfred Owen (todos bi ou homossexuais)não são mero acaso. E nem os argumentos de suas óperas , que mostram muitas vezes personagens marginalizados pela sua sexualidade, são mera coincidência: Peter Grimes, Billy Bud, Morte em Veneza, todas obras estreadas por Peter Pears, possuem libretos que claramente se referem, de maneira muito elegante, a esta problemática.

Nos dias de hoje em países como Uganda e Irã, pessoas são executadas simplesmente por serem homossexuais. Se isto não se passa em diversos países, inclusive o nosso (por enquanto…) isto não significa que a música não possa ser uma discreta testemunha do que se passa no inconsciente do artista segregado e perseguido. Neste duplo idealismo de Britten – pacifismo e tolerância sexual surgem algo essencial: paz e respeito. A paz que faltou a Tchaikovsky, e o respeito que Britten conquistou. Refletir a respeito disso poderá nos levar a uma sociedade mais harmônica.

A seguir um video muito lindo de Peter Pears cantando “Mein” do ciclo “A bela moleira” de Schubert. Ao piano Benjamin Britten

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