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O enviado especial do governo dos EUA para o clima, John Kerry, visitou Shanghai na semana passada, antes de cúpula mundial sobre o clima. China e EUA concordaram em cooperar para combater as mudanças climáticas com urgência
O enviado especial do governo dos EUA para o clima, John Kerry, visitou Shanghai na semana passada, antes de cúpula mundial sobre o clima. China e EUA concordaram em cooperar para combater as mudanças climáticas com urgência| Foto: AFP

As peças estão se posicionando no tabuleiro da vindoura Cúpula de Líderes sobre o Clima, marcada pelo governo dos EUA para os dias 22 e 23 de abril. O evento vai ocupar grande espaço nas mídias sobre política internacional, como esse espaço, e alguns recados já foram dados. Três deles são, talvez, os mais importantes para leitores brasileiros ficarem por dentro antes da realização da cúpula, até por envolverem diretamente o Brasil.

Primeiro, esse é o governo dos EUA proporcionalmente mais engajado em temas ambientais desde Jimmy Carter, do final da década de 1970. O governo Carter contribuiu para colocar a pauta em evidência. Claro que, depois dele, outros presidentes tomaram mais ações, como Bill Clinton na década de 1990, mas, como presença nas propostas e princípios de governo, Biden está disparado.

Nomeou um peso pesado da política do país para ser um enviado sobre questões climáticas, John Kerry. Afirmou que mudanças climáticas são um tema de segurança nacional, tipificação que não pode ser subestimada na política dos EUA. É cobrado pelo seu partido para tomar a dianteira na pauta, assim como por classes profissionais e empresários dos EUA, preocupados com a competição internacional.

Biden vai colocar muitas fichas em pautas ambientais, isso está muito claro. Permite também ao seu governo retomar para os EUA um protagonismo que começava a ser perdido para a Europa, já que Trump deixou um vácuo explorado, principalmente, pelo francês Macron. Não que Trump não tivesse seus motivos, como agradar aos setores carvoeiros dos EUA, seus eleitores.

O fato é que não se pode menosprezar essa atual abordagem do governo dos EUA, um país com enorme capacidade de retaliação econômica, financeira ou política. Isso é uma constatação, não um julgamento de valor. Além disso, ao contrário das Conferência sobre as Mudanças Climáticas da ONU, como a realizada em Paris, essa cúpula “de líderes” terá um caráter mais executivo, dispensando parte do cerimonial ou documentos universalistas.

Disputa com a China

Outro aspecto importante da cúpula, que não pode ser menosprezado, é o diálogo direto entre EUA e China. Por um lado, o governo Biden seguirá as políticas de contenção iniciadas com Trump. Tanto o secretário de Estado Blinken quando o secretário de Defesa Austin realizaram visitas aos países aliados dos EUA na cercania chinesa, como o Japão. Além disso, tivemos a cúpula bilateral realizada no Alasca com certo clima de hostilidade.

Ainda assim, o processo de “desacoplar” as duas economias não será rápido e nem pode ser traumático, sob risco de grave crise econômica. Apenas antagonizar a China seria um erro de Washington, é necessário manter alguns canais de comunicação e de negociação. Questões climáticas, diretamente relacionadas ao desenvolvimento econômico e tecnológico das próximas décadas, são uma ótima pauta para esses canais.

É uma maneira de EUA e China fiscalizar um ao outro e manter as “regras do jogo” em comum, ao menos parcialmente. Essa abordagem, de dialogar em pontos específicos enquanto mantém a disputa em outros, não é nova e remonta à aproximação entre EUA e URSS na década de 1970, sob os auspícios de Henry Kissinger. No caso de mudanças climáticas, mais do que interessante, esse diálogo é necessário.

A pandemia mostrou de maneira inequívoca a necessidade de cooperação global em diversas pautas. O discurso de denunciar um “globalismo” esbarra no fato de que vírus e bactérias não respeitam fronteiras. Muito menos poluentes e gases estufa. A água contaminada de Fukushima chega nas praias do Chile, os ventos de Chernobyl destruíram plantações nos Países Baixos e por aí vai.

EUA e China são os maiores poluentes do planeta, o primeiro em números per capita e o segundo em números absolutos. Falar de combater mudanças climáticas sem os dois gigantes é quase inócuo, mesmo com o peso de outros atores, como Brasil e Índia, e a série histórica europeia. A pauta ambiciosa de Biden não iria muito longe sem sentar com a China e determinar metas e regras comuns.

Atrasos brasileiros

Algumas palavras do secretário de Estado Blinken resumem a pauta do governo Biden e sua preocupação com a China. Primeiro, na competição. “Neste momento, estamos ficando para trás. A China é o maior produtor e exportador de painéis solares, turbinas eólicas, baterias e veículos elétricos. Detém quase um terço das patentes mundiais de energia renovável.”

Segundo, a pauta de longo prazo do governo dos EUA. “Se não alcançarmos (a China), os Estados Unidos perderão a chance de moldar o futuro climático do mundo de uma forma que reflita nossos interesses e valores, e perderemos incontáveis ​​empregos para o povo americano”. Ou seja, a questão climática não é apenas “ideologia”, coisa de “abraçador de árvore”, mas tecnologia, postos de trabalho e desenvolvimento.

Infelizmente, integrantes do atual governo brasileiro e parte da sociedade parecem presos na mentalidade da Segunda Revolução Industrial, de 150 anos atrás. Queimadas, derrubadas indiscriminadas de árvores, ferrovias cruzando regiões de preservação ambiental para escoar minério de ferro sem valor agregado, um desenvolvimentismo industrial já obsoleto.

E essa ideologia é vendida como se a alternativa fosse o subdesenvolvimento, uma vida plácida de abraçar árvores e viver no mato. Não, o contrário. Parte do agronegócio brasileiro, mesmo muitas vezes alvo de críticas justas, já mostrou que inovações tecnológicas podem juntar meio ambiente e desenvolvimento econômico. E esse é só o exemplo mais visível.

Instituições universitárias públicas brasileiras e a Embrapa já mostraram, em diversos estudos e projetos piloto, que a floresta amazônica vale muito mais em pé do que derrubada de forma indiscriminada como é hoje, pela madeira. Turismo, serviços e exploração econômica dos recursos nativos da floresta são muito mais lucrativos. Borracha e açaí valem muito mais do que soja, cuja oferta internacional é muito mais abundante.

Exploração de espécies endêmicas em habitats preservados rendem mais do que a exploração de animais alienígenas implantados pelo homem. É trágico que o governo brasileiro, e parte de sua sociedade, continuem focados em práticas antiquadas de exploração do patrimônio natural brasileiro, enquanto o mundo avança. A prática antiquada é mais fácil, mais barata, só que também mais pobre e sem futuro.

Riscos e oportunidades para o Brasil

Isso significa duas coisas. Primeiro, que o governo Bolsonaro sofrerá pressão por parte do governo Biden, por todas as razões citadas anteriormente. O governo brasileiro repetiu o compromisso assumido pelo governo Dilma em Paris, de zerar o desmatamento “ilegal” até 2030. O problema está na palavra ilegal, já que, embora com uma ótima legislação ambiental motivo de orgulho, o atual antiministro do meio ambiente trabalha contra ela.

Antiministro justamente pois Ricardo Salles faz tudo ao contrário do que se esperaria do cargo. Enquanto o ministério se gaba em notas para a imprensa do Sistema Nacional do Meio Ambiente e do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, por trás dos panos, a situação é outra. Pergunte ao ex-superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Alexandre Saraiva.

Contribui para a pressão que o Brasil sofre o fato de o país ser um saco de pancadas fácil no atual cenário internacional, sem grandes defensores ou parceiros. Um pária, que faz apresentações vexatórias em powerpoints de um cachorro olhando os frangos assando na padaria enquanto pede um resgate pelo sequestro do patrimônio natural nacional. Imperativo lembrar que esse mecanismo já existia, o desprezado Fundo Amazônia.

E todo esse atraso é disfarçado pela narrativa de inveja do patrimônio ambiental brasileiro ou que os EUA querem tomar a Amazônia para si. Como se, hoje, os recursos naturais brasileiros estivessem rendendo os frutos possíveis para o Brasil. Não estão. Madeira irregular não paga imposto, garimpo com mercúrio polui e não é registrado. No fim, entretanto, pode significar uma oportunidade.

Quase impossível, mas, se o governo brasileiro for inteligente e se antecipar, ou notar que a pressão trará muitos prejuízos, pode ocorrer um tímido princípio de modernização da abordagem ambiental brasileira do atual governo, saindo das paranoias da Guerra Fria ou do lucro fácil e rápido do lobby de madeireiros. Retomar um protagonismo ambiental passado, conquistado nos anos 1990 e primeira década dos anos 2000.

O Brasil ainda é, por exemplo, um dos países que mais usa energia renovável. Independente de protagonismo, entretanto, é importante o Brasil aprender com essa cúpula. Aprender que, em 2021, desenvolvimento econômico e tecnológico não são o contrário de preservação ambiental. Pelo contrário. Andam juntos. O desenvolvimento pátrio pode vir da exploração inteligente e científica da Amazônia, e certamente não virá de sua derrubada.

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