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Homem em um cemitério em Omdurman, cidade vizinha à Cartum, capital do Sudão, 13 de junho
Homem em um cemitério em Omdurman, cidade vizinha à Cartum, capital do Sudão, 13 de junho| Foto: Yasuyoshi CHIBA / AFP

O banho de sangue que está acontecendo no Sudão possui conexões mais profundas do que pode parecer no primeiro olhar. Semanas após a derrubada do ditador Omar al-Bashir, a junta militar “provisória” que governa o Sudão ordenou a repressão generalizada dos manifestantes que exigem a realização imediata de eleições e transição para um poder civil. Mais de cem pessoas foram mortas, incluindo casos em que os corpos foram jogados no rio Nilo, privando seus familiares e entes queridos de um sepultamento digno.

O antigo ditador chegou ao poder trinta anos atrás, em uma perigosa aliança de militares, na época com fartura de equipamentos e investimentos dos EUA durante o governo Reagan, com os islamistas, contrários a uma ideia de governo secular e da paz com os rebeldes cristãos do sul; o atual Sudão do Sul. Os dois grupos, militares e islamistas, continuaram influentes nos rumos sudaneses durante a ditadura Bashir e, hoje, a junta militar alega que pretende evitar que o país “mergulhe no caos” para se manter no poder.

Essa justificativa possui uma relação de mão-dupla com a península arábica. Hoje, a Arábia Saudita é a terceira maior parceira econômica do Sudão, e a primeira posição é ocupada pelos Emirados Árabes Unidos, principal destino do ouro sudanês e principal investidor na infraestrutura do país. Além dos dois países, o Egito é outra potência regional com razoável influência política e econômica no Sudão; sudaneses e egípcios partilham um vasto passado em comum, desde os tempos dos faraós até o domínio anglo-egípcio no Sudão.

Sudaneses e o Golfo Pérsico

A mão-dupla ocorre pois são esses países que possibilitam, economicamente, que os militares sudaneses se mantenham no poder, ao menos momentaneamente. Sem esses laços econômicos, possivelmente o Sudão passaria por outra crise de víveres, estopim da revolta que derrubou Bashir; outro ator importante é a China, interessante aos sudaneses como destino de seu petróleo, mas sem tanta presença política. Os militares sudaneses possuem em seus vizinhos árabes os seus principais aliados.

Isso justifica a importância dos árabes para os sudaneses, mas o que explica a importância sudanesa aos árabes? No caso atual, evitar um precedente. Manter um governo central e autoritário para impedir que uma revolução popular derrube um governo e instaure eleições democráticas. Algo do tipo seria o pior cenário para as famílias mandatárias, virtuais donas, dos reinos da península arábica, Estados rentistas onde os cidadãos não pagam impostos em troca de bons serviços públicos mantidos pelo petróleo. E em troca do silêncio.

O herdeiro do trono dos EAU, Mohammed bin Zayed, alega que qualquer eleição seria vencida por “islamistas”, e que isso se repetiria em qualquer país da região. Embora o amadurecimento democrático de sociedades seja uma questão interessante de debate em outro momento, é importante apontar que integrantes da família Zayed, da família Saud ou da família al-Thani, dentre outros, são extremamente suspeitos em suas críticas às democracias. Afinal, estamos falando dos virtuais donos de seus países.

E também se tratam de governos longe de serem seculares ou sem relações suspeitas com grupos islamistas. No caso saudita, então, a hipocrisia é gritante. A religião é um dos pilares da monarquia absolutista, tanto internamente quanto em sua política externa, usando a posição de guardiões das cidades sagradas do Islã. Integrantes da nobiliarquia saudita foram importantes financiadores de grupos terroristas e a monarquia exportou a ideologia wahabita radical que orienta grupos como Daesh e al-Qaeda.

Lembra-se ainda o fato de que, como afirmado anteriormente, os militares sudaneses não são rivais dos islamistas de seu país, mas aliados. Colaboraram na tentativa de genocídio ao sul do país. O discurso de evitar uma ascensão islamista, de controlar as “massas populares incontroláveis” e da necessidade de manter uma ordem é bastante conveniente para tais governos autoritários. Para manter esse status quo, torna-se de interesse desses países impedir que o ocorrido no Sudão ganhe proporções maiores.

Apoio ao autoritarismo

A precocemente chamada Primavera Árabe de 2011 levou, na maioria dos casos, ao endurecimento dos governos. A exceção segue sendo a Tunísia, que continua em suas reformas liberalizantes na sua política. E serve tanto de alerta como de legitimadora para as ações dos governos autoritários da região. O apoio saudita aos militares sudaneses é tal que, em raro comunicado público, o Departamento de Estado dos EUA, no último dia Cinco, pediu que os sauditas parem seu apoio de inteligência e informação aos sudaneses.

Recentemente, Mohamed Hamdan "Hemeti" Dagolo, principal líder militar sudanês e envolvido nos crimes em Darfur, esteve nos EAU. Muito provavelmente não se tratou de uma conversa sobre trivialidades, mas para acertar um rumo de ações em conjunto; possivelmente com a opção de repressão violenta já na mesa. Finalmente, existe um terceiro fator que importa aos países do Golfo Pérsico nessa relação com os militares sudaneses e que é usado para justificar o autoritarismo.

Os árabes desejam ter no Sudão um aliado contra o Irã. Militar, econômico e logístico. Especialmente no que concerne ao conflito iemenita, entre duas facções, uma sunita apoiada por sauditas e outra xiita, apoiada pelo Irã. No final de Maio, o rei saudita recebeu uma cúpula da Liga Árabe em Meca; exemplo explícito do uso da religião como ferramenta de política externa do reino. Na cúpula foi acordado que o Irã é a “maior ameaça à segurança regional” e os países se comprometeram em cooperar.

A ideia de que o Irã é um inimigo em comum é o que tem levado a uma relação mútua entre Israel e sauditas; fria, mas ainda assim uma relação. O imortal conceito de “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”; entretanto, nesse caso, faz sentido alguma restrição nesse raciocínio. Por exemplo, os sauditas estão usando ferramentas de ciberguerra cedidas por Israel para espionar e perseguir dissidentes no exterior, como alertado pelo governo norueguês. Originalmente, tais programas eram para uso contra o Irã.

Possivelmente as mesmas ferramentas são usadas contra a oposição sudanesa, já que um governo civil e democrático em um Sudão ainda marcado por conflitos e crises de abastecimento dificilmente teria interesse em um conflito, seja contra o Irã, seja contra outro ator. Já em outro âmbito de relações, a União Africana, o Sudão foi suspenso da organização, como consequência da violência contra os manifestantes. A posição geográfica do Sudão transforma o país em uma ponte entre dois mundos.

Os manifestantes convocaram uma greve no início da semana que possivelmente mobilizou milhões de pessoas, paralisando toda a economia do país. Como reação, os militares sequestraram e expulsaram do país alguns dos principais líderes da oposição do país, como Yasir Arman, um dos autores do acordo de paz de 2005. A junta, sob a liderança de Hemeti, dificilmente vai ceder aos manifestantes e vai tentar manter o poder em suas mãos. Para isso, contra o povo sudanês, estão as monarquias do Golfo Pérsico.

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