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Flávio Gordon

Flávio Gordon

Sua arma contra a corrupção da inteligência. Coluna atualizada às quartas-feiras

Famílias em conserva

O carnaval 2026 e o curioso desfile dos putrefadores

Famílias em conserva carnaval conservadores
Alegoria de "famílias em lata de conserva" da Acadêmicos de Niterói gerou reações de conservadores. (Foto: Reprodução Redes Sociais - X)

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“Abolição da família! Até o mais radical inflama-se em frente desta proposta infame dos comunistas (...) Você nos incrimina de querer terminar com a exploração das crianças pelos pais? Deste crime, confessamo-nos culpados.” (Karl Marx e Friedrich Engels, O Manifesto do Partido Comunista)

De onde terá saído a brilhante ideia de que o objetivo de conservar uma bela família nuclear formada por um pai (homem), uma mãe (mulher) e um punhado de filhos se prestaria ao escárnio? Que tipo social poderia supor que a cena de uma família “em conserva” pudesse envergonhar ou constranger os alvos da tentativa de troça? Qual excelsa inteligência imaginou que zombar de uma tal configuração familiar tradicional, ademais apontando a sua religiosidade como digna de chacota, poderia render bons dividendos políticos, sobretudo em ano eleitoral?

A resposta é uma só: um idiota útil do lulopetismo – no caso, o carnavalesco e o presidente da Acadêmicos de Niterói, previsivelmente rebaixada no carnaval carioca. Eis aí um imbecil coletivo (sensu Olavo de Carvalho) que assimilou inconscientemente, como um peixe que não se dá conta da água em que nada, uma cultura política arcaica de ódio à família, cujas origens remotas o imbecil desconhece, mas que ingeriu como uma papinha gosmenta, em porções diluídas ao longo do tempo, da colher dos ideólogos do partido. Assim, acreditando estar apenas debochando daqueles que aprendeu a ver como obstáculos à sua utopia político-social (os “evangélicos”, os “reacionários”, os “homofóbicos”, os “bolsonaristas” etc.), o idiota útil do lulopetismo jamais suspeitou estar tomando partido do totalitarismo contra a liberdade, justo no momento em que pretendia celebrar a segunda.

Sim, o ressentimento disfarçado de irreverência que o pessoal da Acadêmicos de Niterói nutre pela família conservadora brasileira mimetiza o ódio lulopetista contra essa estrutura familiar, um ódio quintessencial que, por sua vez, se insere na longa tradição comunista de combate à família, estigmatizada publicamente como origem da propriedade privada e do Estado burguês, mas vista realmente, da perspectiva estratégica, como o último bastião contra o projeto de poder totalitário dos comunistas. Esse projeto, como a história cansou de demonstrar, implica a eliminação total da esfera privada da existência, a politização – e consequente controle estatal – de todos os aspectos da vida humana.

O imbecil coletivo da escola de samba rebaixada não percebe ter sido instrumentalizado como reles caixa de ressonância da guerra cultural movida pelo lulopetismo contra a sociedade

Hannah Arendt foi uma das teóricas mais importantes a ter denunciado o cerco totalitário à vida doméstica. Em obras como A Origem do Totalitarismo e A Condição Humana, ela mostra como o totalitarismo nasce menos de uma agenda ideológica propositiva que da dissolução silenciosa das esferas que protegem o indivíduo. Se a vida privada deixa de ser reconhecida como espaço legítimo e relativamente inviolável, o caminho para a totalização já está aberto. No artigo A Crise da Educação, de 1957, resumiu a filósofa:

“Porque a criança tem necessidade de ser protegida do mundo, seu lugar é no seio da família. É para lá que os adultos regressam a cada dia do mundo exterior e se unem na segurança da vida privada, ao abrigo de quatro muros. Esses quatro muros, ao abrigo dos quais se desenrola a vida íntima familiar, constituem uma proteção contra o mundo e, em particular, contra o aspecto público do mundo. Delimitam um lugar seguro sem o qual nenhuma vida pode prosperar. Isso é válido não somente para a vida da criança, mas também para a vida em geral – por todo lado em que esta é constantemente exposta ao mundo sem a proteção da intimidade e da segurança privadas, a sua qualidade vital é destruída.”

Portanto, o assalto totalitário à família – no qual se esmeraram, sobretudo, os comunistas – não é um mero adorno retórico ou discurso ideológico, estando no núcleo mesmo da cosmovisão revolucionária e de seus planos de reengenharia social. Todo partido ou movimento totalitário tem por objetivo desestruturar esse ambiente seguro e desfazer os laços sociais e naturais orgânicos mantidos pelo indivíduo, de modo que, sentindo-se vulnerável e despersonalizado como um caranguejo sem a carapaça, ele possa ser absorvido pela nova e artificial sociabilidade partidária, tornando-se uma peça perfeitamente substituível da engrenagem totalitária. Como conclui Arendt:

“A crença de que é necessário começar pelas crianças se se pretendem produzir novas condições tem sido monopólio principalmente dos movimentos revolucionários com tendências tirânicas, movimentos esses que, quando chegam ao poder, retiram os filhos aos pais e, muito simplesmente, tratam de os endoutrinar.”

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Por óbvio, o imbecil coletivo da escola de samba rebaixada não sabe de nada disso. Acredita estar apenas fazendo uma piadinha descolada, uma “crítica social foda”, como se costuma dizer nos bas-fonds do autoproclamado progressismo. Decerto imaginando ter produzido uma obra artística crítica e ousada, não percebe ter sido instrumentalizado como reles caixa de ressonância da guerra cultural movida pelo lulopetismo contra a sociedade.

Em Sussurros: A Vida Privada na Rússia de Stalin, o historiador britânico Orlando Figes resumiu com clareza a visão comunista sobre a família:

“A família era o primeiro campo de batalha dos bolcheviques. Nos anos 1920, eles tinham por artigo de fé que a ‘família burguesa’ era socialmente danosa: autocentrada e conservadora, era vista como um reduto de religião, superstição, ignorância e preconceito; estimularia o egoísmo e o consumismo, oprimindo mulheres e crianças. Os bolcheviques esperavam que a família desaparecesse à medida que a Rússia soviética se tornasse um sistema socialista pleno, no qual o Estado assumiria a responsabilidade por todas as funções domésticas básicas, fornecendo berçários, lavanderias e refeitórios em centros públicos e conjuntos habitacionais. Liberadas do trabalho doméstico, as mulheres estariam livres para integrar a força de trabalho em pé de igualdade com os homens. O casamento patriarcal, com sua moral sexual submissa, deveria morrer e ser substituído – assim acreditavam os radicais – por ‘uniões de amor livre’... O ABC do Comunismo (1919) vislumbrava uma sociedade futura na qual os pais já não usariam o pronome ‘meu/minha’ para se referir aos filhos, que seriam criados de maneira comunitária.”

Essa tese foi apresentada já como projeto político-pedagógico por Lilina Zinoviev, precursora do ensino soviético. Palestrando no Congresso de Ensino Público de 1918, Lilina proferiu as seguintes palavras:

“Devemos resgatar os infantes da influência nociva da vida familiar. Devemos racionalizá-los. Desde os primeiros dias de sua existência, os pequenos devem ser postos sob a ascendência de escolas comunistas para aprenderem o ABC do comunismo… Obrigar as mães a entregar seus filhos ao Estado soviético – eis nossa tarefa.”

Logicamente, os inimigos dos conservadores seriam os partidários da putrefação, da decomposição e da corrupção

É a essa tradição totalitária que, sem ter a mínima ideia disso, a escola de samba rebaixada, a Acadêmicos do Lulismo, se vinculou. Mas o tiro saiu pela culatra. A reação nas redes sociais, em que uma multidão de cidadãos passou a exibir orgulhosamente fotos de suas famílias dentro da lata de conserva, mostra que, conquanto possa causar uma boa dose de destruição durante o tempo em que regimes movidos por essa cosmovisão permanecem no poder, esse projeto de “abolição da família” estará sempre condenado ao fracasso.

Por fim, convém recordar que a palavra “conserva” deriva do verbo conservar, que vem do latim conservāre, formado pelo prefixo con- (junto, completamente) mais o radical servāre (guardar, preservar, manter). Em latim, portanto, conservare significava “guardar cuidadosamente”, “preservar intacto”, “manter em segurança”. Essa é a meta dos que, em política, identificam-se como “conservadores”, e que foram objeto do escárnio da propaganda eleitoral carnavalesca do lulopetismo.

Dentre os principais antônimos da palavra “conserva”, poderíamos pensar em “deterioração”, “putrefação”, “decomposição”, “corrupção”, “perecibilidade” etc. Levando a analogia para o campo da política, resta que, logicamente, os inimigos dos conservadores seriam os partidários da putrefação, da decomposição e da corrupção, os quais – a julgar pelos resultados sociais, econômicos e civilizacionais que historicamente têm obtido uma vez no poder – poderíamos glosar como putrefadores, ou decompositores, ou ainda corruptores...

O carnaval acabou. Mas, no desfile de outubro, teremos novamente a disputa entre essas duas forças políticas: de um lado, os conservadores; do outro, os putrefadores. Só Deus sabe quem o povo brasileiro escolherá. Isso, é claro, se os decompositores da toga – editores da sociedade, da soberania popular e do sistema financeiro – não decidirem, mais uma vez, escolher por ele...

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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