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“Entre nós, não há uma diferença de opinião, como você pretende fingir, mas assassinato, roubo, pilhagem.” (Eric Voegelin, em carta à irmã Klara Hartl, de 16 de agosto de 1939)
“Supõe-se que os vencedores políticos sejam benevolentes com os vencidos, mas no Brasil, eles processam os perdedores.” A frase não saiu de nenhum canal brasileiro de direita. Ela abre o editorial do Wall Street Journal de 28 de outubro, cujo restante do texto é ainda menos diplomático.
Ainda está bem fresco na memória o desenrolar de acontecimentos do fatídico dia 25 de outubro de 2026, o dia da venezuelização definitiva do Brasil. Mal se fechou a apuração, o tirano Alexandre de Moraes, atendendo à Polícia Federal, mandou recolher os passaportes de Flávio Bolsonaro, o candidato derrotado. Na noite de terça-feira, Flávio cruzou a fronteira argentina por Puerto Iguazú com a mulher e as duas filhas. Um jato particular, com escala em Guayaquil, levou a família a Miami, onde desembarcou na quarta. Investigado, ele não foi acusado de crime algum. Há apenas, lembra o jornal norte-americano de maior circulação impressa no país, a promessa que Lula lhe fez num debate da Band, uma semana antes do segundo turno, de que, perdida a imunidade parlamentar, enfrentaria todo tipo de investigação. “Lula escolheu o homem e prometeu descobrir o crime” – sentencia o jornal americano.
Eis o acontecimento central da assim chamada eleição brasileira. Não o placar, mas o exílio.
O exílio de Flávio é a forma visível de uma exclusão que atinge, de modo invisível, os cerca de 60 milhões de brasileiros que votaram nele
Os atenienses inventaram uma instituição curiosa para afastar da cidade quem parecesse perigoso demais. Uma vez por ano, a assembleia podia votar o ostracismo de um cidadão, que deixava Atenas por dez anos sem perder bens nem honra. Era a demos deliberando sobre um indivíduo. O Brasil inverteu a fórmula. Aqui é o poder que delibera sobre a demos, e o que se expulsa já não é um homem, mas metade dela. O exílio de Flávio é a forma visível de uma exclusão que atinge, de modo invisível, os cerca de 60 milhões de brasileiros que votaram nele, cidadãos a quem a cidadania política vem sendo recusada. Sua participação passou a ser tratada como crime desde o 8 de janeiro. Seu voto, agora se sabe, não muda nada. E nem é preciso discutir as urnas, porque a fraude é impossível de provar num sistema que, por natureza, não se deixa auditar. Basta o que todos viram à luz do dia: a máquina do Estado inteira posta a serviço de um candidato, e um candidato vencido posto em fuga horas depois.
A analista política e professora de Filosofia Bruna Torlay deu a esse estado de coisas um nome exato. Vivemos, disse ela, uma “guerra civil psicológica”. Como estamos todos desarmados (exceto, por óbvio, os criminosos que integram os grupos narcoterroristas locais, aliás protegidos pelo regime), a guerra não se trava com fuzis, mas “no campo da destruição do valor do outro enquanto cidadão”. É o vizinho que já não cumprimenta, o grupo de família emudecido por prudência, o colega convertido em delator em potencial. A situação é trágica no sentido grego e original do termo, porque não oferece saída indolor. Num regime de força, lembra Bruna, quem perdeu a condição de membro da cidade só pode escolher entre o exílio, o silêncio e a revolta, e todos cobram um preço.
A Europa dos anos 1930 conheceu essa exclusão em seus pormenores mais domésticos. Em 1938, depois da anexação da Áustria, o filósofo Eric Voegelin foi demitido da Universidade de Viena e escapou por pouco da polícia política, rumo à Suíça e depois aos Estados Unidos. Já na América, recebeu uma carta da irmã, Klara. A resposta do filósofo deve ser lida e meditada pelos brasileiros de hoje:
“Querida Klara, é muito gentil de sua parte ter querido me escrever, mas poupe-me de seus truques nazistas. Deveria saber que não sou estúpido para cair neles. Entre nós, não há uma diferença de opinião, como você pretende fingir, mas assassinato, roubo, pilhagem. Não aja como se fosse decente demais para mencionar essas coisas. Eis um truque nazista manjado. Evitam-se assuntos desagradáveis, mas roubam-se das pessoas até a sua última peça de roupa, e se as espancam até a morte caso não cedam de bom grado (…)”
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Mais adiante, depois de enumerar a demissão sem salário, a pensão negada e a fuga a duras penas, Voegelin pergunta:
“Você nega que essa desgraça de pai exiba uma foto do bando de delinquentes-em-marrom [referência aos membros das SA nazistas] sobre a sua mesa, e que tenha ficado tolamente satisfeito ao ver o seu filho ser roubado por eles?”
O pai que, cego de ideologia e com o cérebro lavado por propaganda, não se perturba ao ver o filho espoliado é a imagem acabada da guerra civil psicológica. O inimigo não está do outro lado da fronteira, mas na sala de jantar. Klara queria tratar o exílio do irmão como divergência entre pessoas razoáveis, assunto a evitar no almoço de domingo. Voegelin recusou o disfarce. Quando um lado prende, cala e expulsa o outro, não há diferença de opinião. Há vítimas e há cúmplices. É nesse ponto que se encontram hoje incontáveis famílias brasileiras, divididas não por uma discordância sobre impostos ou programas de governo, mas pela dúvida de saber se o amigo, o vizinho ou mesmo o parente do outro lado da mesa ainda as reconhece como concidadãs.
Diante de uma ruptura dessa ordem, não há posição neutra. A quem não integra o regime restam dois caminhos, a resistência ou o colaboracionismo. Parte da direita partidária brasileira parece não ter percebido sequer que a escolha está posta. Donald Trump chamou a eleição de “uma vergonha” e de “um grande constrangimento para o povo do Brasil”. Já o medíocre cacique partidário Valdemar Costa Neto, que reconheceu o resultado de pronto e com ele oficialmente o PL, reservou a sua indignação para outro alvo. Quando Flávio, já no exílio, publicou uma carta denunciando a perseguição, o presidente do partido pelo qual ele concorreu disse “Não gostei” e garantiu que “ninguém aprovou”. Quanto a Tarcísio de Freitas, governador recém-reeleito em São Paulo, seu discurso é de “pacificação” (com os algozes de seu eleitorado) e de pré-campanha, anunciando a sua predisposição a concorrer à Presidência em 2030.
Os líderes da dita oposição agem como o filho que discute a herança no velório do pai. O corpo nem esfriou, e já se fala no espólio
Em suma, os líderes da dita oposição vestiram o figurino de campanha para o próximo ciclo, como se vivêssemos em plena normalidade democrática e o candidato que acabaram de apoiar não estivesse em Miami fugindo da cadeia. Agem como o filho que discute a herança no velório do pai. O corpo nem esfriou, e já se fala no espólio. Enquanto isso, 60 milhões de brasileiros ficam órfãos de representação. Diga-se, por justiça, que o Novo parece ser o único partido a firmar posição na contestação do resultado eleitoral.
A cena ganha contornos ainda mais estranhos quando se considera de onde veio o socorro a Flávio. Segundo o New York Times, foi Trump quem determinou pessoalmente a autorização especial de entrada de Flávio, e um assessor da Casa Branca providenciou o jato. “Demos a ele um passe para entrar no país, então veremos”, confirmou o presidente americano. Um candidato presidencial brasileiro só conseguiu escapar do cerco com o amparo de Washington, o que faz dele um exilado político sob proteção americana. Poucos fatos poderiam lançar suspeita mais grave sobre a eleição e sobre o estatuto internacional do Descondenado-em-chefe, que vai assumindo, aos olhos do mundo, os traços de um novo Nicolás Maduro.
O consultor francês Jacob Safar, ouvido por esta Gazeta, resumiu a semelhança com precisão: “O Brasil não é a Venezuela, mas o mecanismo de captura das instituições é comparável”. Pois diante disso há à direita quem se escandalize com a “interferência estrangeira”. Seria como um judeu que, no Dia D, atirasse pedras nos soldados aliados nas praias da Normandia, a pretexto de que os europeus é que deveriam cuidar da própria vida e os yankees não tinham nada que se meter em assuntos da Europa ocupada pelo nazismo. Valdemar e Tarcísio parecem agir como esse judeu imaginário, com a diferença de que não arriscam prioritariamente as próprias vidas e liberdades, mas sobretudo a dos 60 milhões de cidadãos que lhes caberia representar.
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“Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino, raciocinava como menino. Quando cheguei a ser homem, deixei as coisas de menino.” A lição de São Paulo (Coríntios 13,11) parece não ter chegado à direita partidária brasileira, que segue raciocinando como menino diante de um drama de gente grande. Benjamin Constant, o liberal suíço e não o positivista brasileiro, explicou o motivo há dois séculos, no seu Curso de Política Constitucional: “Os homens de partido, por mais puras que sejam suas intenções, sempre se recusam a limitar a soberania. Consideram-se seus herdeiros e tratam de cuidar, mesmo na mão dos inimigos, de sua propriedade futura”.
Eis o infantilismo de quem, confundindo política com eleição, aguarda a sua vez de operar a máquina do adversário, sem perceber que ela foi construída para excluir da cidade metade dos seus concidadãos. Bertrand de Jouvenel chamou a isso de “cumplicidade geral na expansão do Poder”. O editorial do Journal chamou pelo nome mais simples. Países que passam da liberdade à autocracia seguem um caminho conhecido: “um demagogo vence nas urnas, toma o controle do Judiciário e prende seus inimigos”.
A direita partidária se prepara para 2030 como quem aguarda a vez numa fila. Esquece que é o regime quem organiza a fila, e que 60 milhões de brasileiros já foram retirados dela.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Flávio Gordon é doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autor do best-seller “A Corrupção da Inteligência: intelectuais e poder no Brasil” (Record, 2017), que possui mais de 35 mil exemplares vendidos. É também autor das obras “Ideologias de Massa e suas Metamorfoses” e “O Mínimo sobre Gnosticismo (Cedet, 2024)”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



