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“Inútil beleza
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.”
(Arthur Rimbaud, Canção da Mais Alta Torre)
Em um grupo de WhatsApp, deparei-me com um argumento revelador de um liberal, do tipo antibolsonarista inveterado:
“Começo a achar que a melhor alternativa para o Brasil é a derrota do Flávio Bolsonaro mesmo. Assim, acabamos com a era Bolsonaro e aceleramos a derrocada do Brasil. Aí, em 4 anos, talvez tenhamos um liberal para começar a colocar ordem nas coisas.”
Confesso que pagaria para ver um liberal tentando “botar ordem nas coisas” sob um regime de exceção irremediavelmente consolidado, com mais três militantes lulopetistas no STF. Seria decerto um espetáculo tragicômico: o prisioneiro do gulag deixando-o absolutamente limpo, impecável e racionalmente administrado.
Há um gênero de otimista que a fauna política brasileira produz com regularidade de safra: o direitista que, a cada biênio, redescobre a esperança eleitoral como quem descobre a roda. Ele compartilha pesquisas, celebra enquetes, decora mapas por estado e repete, com a fé de um catecúmeno, que “desta vez” o país virará à direita – como se o poder fosse uma partida de futebol e bastasse marcar mais gols que o adversário no dia marcado. Passada a eleição, vencida ou perdida, o mundo real o espera do lado de fora da urna, intacto: os tribunais são os mesmos, as universidades são as mesmas, as redações são as mesmas, a burocracia é a mesma. E ele, admirado, pergunta como é possível ter vencido o pleito e perdido o país.
Há um gênero de otimista que a fauna política brasileira produz com regularidade de safra: o direitista que, a cada biênio, redescobre a esperança eleitoral como quem descobre a roda
O enigma foi resolvido por Carl Schmitt. Antes que o leitor de má vontade acione o alarme – sim, Schmitt aderiu ao nazismo em 1933, e voltaremos a isso, porque a advertência faz parte do argumento. Mas antes de ser um homem que errou monstruosamente a resposta, Schmitt foi talvez aquele que melhor formulou a grande pergunta do século 20: o que é, afinal, o político?
Seu raciocínio é de uma sobriedade incontornável. Assim como a moral distingue o bem do mal e a estética distingue o belo do feio, a política distingue o amigo do inimigo. Não o inimigo privado, o desafeto, o sujeito antipático, mas o inimigo público, o agrupamento humano que, em caso extremo, pode negar a existência do meu modo de vida. A política não é a arte do consenso: é a esfera da vida em que os conflitos podem se intensificar até esse ponto-limite. Pode-se lamentar que assim seja; não se pode fingir que não é assim.
Pois bem. O liberalismo, dizia Schmitt, é precisamente a doutrina desse fingimento: um sistema engenhoso para negar o político, dissolvendo o inimigo em duas figuras inofensivas – o concorrente, com quem se negocia, e o interlocutor, com quem se debate. No lugar da decisão, a discussão eterna; no lugar do combate, o mercado; no lugar do soberano, o procedimento. O liberalismo, resumia ele, não é uma política: é uma crítica da política.
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Peço ao leitor para reler o parágrafo anterior e refletir se não acaba de topar com o retrato falado da direita brasileira de matriz liberal. Ela representa, talvez, o último liberalismo ingênuo do Ocidente. Acredita que a política é um grande seminário em que vence quem tem os melhores argumentos, os melhores gráficos, os melhores memes. Que as instituições são árbitros neutros, e não troféus em disputa. Que basta “conscientizar” – palavra, aliás, roubada do adversário – para que a maré vire. Ela trata como interlocutor quem a trata como inimigo. E aqui vale a lição do discípulo francês de Schmitt, Julien Freund, que a resumiu numa frase de fazer inveja aos moralistas clássicos: é o inimigo que nos designa. De nada adianta declarar-se amigo de todos e torcer pelo santo graal do consenso. Se o outro o classificou como inimigo, inimigo você é – e a única escolha que resta é entre saber disso ou ser destruído sem saber.
O esquerdista brasileiro sabe disso desde sempre. Jamais confundiu política com debate ou eleição. Enquanto a direita ganhava discussões na internet, ele ocupava, com paciência de cupim e método de engenheiro, as posições de onde não se sai por eleição: o gabinete, a cátedra, a redação, o tribunal, a fundação, o sindicato, a repartição. Ele entendeu que norma nenhuma se aplica sozinha; que entre a letra da lei e sua incidência no mundo há sempre um funcionário, um juiz, um burocrata que decide o que a letra significa. A direita venera a norma como forma; o adversário a opera como instrumento. Um lado escreve cartas de repúdio; o outro nomeia quem as arquiva.
Schmitt chamou-o de o “problema da exceção”. “Soberano é aquele que decide sobre a exceção”, lê-se na primeira e célebre frase de sua Teologia Política. Isso quer dizer que, nos momentos decisivos, quando a normalidade se rompe, não é a norma que decide: é alguém. Quem passou décadas conquistando os postos de decisão descobre, na hora da crise, que a soberania esteve o tempo todo com ele. Já a direita liberal descobre, na mesma hora, ter vencido o campeonato de argumentos apenas para ter perdido tudo o mais. Weimar morreu assim, lembrava Schmitt: uma ordem liberal tão devotamente neutra que se recusou a distinguir seus amigos de seus inimigos – e cometeu suicídio por legalidade.
Uma direita adulta pararia de tratar a eleição como o fim da política e passaria a tratá-la como um dos seus episódios
Antecipo a objeção: não estaria este colunista pregando que a direita abandone a legalidade e “vire o jogo” na marra? Não se trata disso – e a biografia do próprio Schmitt é o aviso na embalagem. O homem que diagnosticou como ninguém a fraqueza do liberalismo terminou fornecendo pareceres ao pior regime da história, prova de que o realismo político, desacompanhado de bússola moral, deságua no abismo com a mesma naturalidade com que o rio deságua no mar. Schmitt é um sismógrafo, não um mapa: ele serve para detectar onde a casa racha, não para desenhar a casa nova. A lição a extrair dele não é um desprezo absoluto pelas formas, mas o fim da ingenuidade sobre o que as sustenta.
Traduzo em termos práticos. Uma direita adulta pararia de tratar a eleição como o fim da política e passaria a tratá-la como um dos seus episódios. Investiria em formação de quadros com a mesma seriedade com que o adversário investiu – 50 anos de vantagem não se recuperam com um mandato. Construiria instituições próprias e duráveis: universidades, editoras, escritórios, carreiras, em vez de terceirizar sua existência a plataformas alheias e a salvadores biônicos. Entenderia que ocupar um cargo sem ocupar a máquina é reinar sem governar. E, sobretudo, abandonaria a fantasia de que será um dia aceita como interlocutora legítima por quem a define como inimiga existencial: o reconhecimento não virá do mérito argumentativo, virá (se vier) da força organizada, pacífica e paciente, que torna caro ignorá-la.
Enquanto isso não acontece, a cada dois anos o nosso otimista voltará à fila da urna com a alegria de quem vai ao oráculo, depositará ali sua procuração para a realidade e voltará para casa certo de que o debate, desta vez, foi vencido e de que, finalmente, um liberal “porá ordem nas coisas”. Já o político – criatura antipática que não pede licença, não liga para enquetes e fareja o inimigo a léguas de distância – seguirá fazendo o que sempre fez: decidindo, em silêncio, no lugar de quem preferiu ter razão, mas não poder.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Flávio Gordon é doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autor do best-seller “A Corrupção da Inteligência: intelectuais e poder no Brasil” (Record, 2017), que possui mais de 35 mil exemplares vendidos. É também autor das obras “Ideologias de Massa e suas Metamorfoses” e “O Mínimo sobre Gnosticismo (Cedet, 2024)”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



