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“Ao futuro ou ao passado, a uma época em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros e que não vivam sós – a uma época em que a verdade exista e o que foi feito não possa ser desfeito”

 (George Orwell, 1984)

Em 7 de novembro de 2016, a Folha de S. Paulo publicou uma entrevista com o filósofo americano Jason Brennan, autor do livro Against Democracy (“Contra a Democracia”), na época recém lançado. Nela, tanto o entrevistado quanto o entrevistador, em perfeita sintonia, caracterizavam eventos tais como a ascensão de Donald Trump (que, dali a dois dias, seria eleito o 45º presidente dos EUA), a vitória do Brexit no Reino Unido e a rejeição do povo colombiano ao acordo de paz com as FARC como sinais inequívocos de uma “crise da democracia global e dos sistemas de representação política”. Não, o leitor não leu errado. Pelo fato de as respectivas decisões soberanas não os haver agradado, o jornalista brasileiro e o seu especialista particular decidiram tachá-las não apenas de “estúpidas” (sic), mas também de moralmente nocivas.

Em seu livro, Brennan é muito claro quanto ao sistema político que, em substituição à democracia, considera o ideal: a epistocracia, o governo dos “bem-informados” (casta superior na qual, evidentemente, ele se inclui). O autor justifica sua posição da seguinte maneira:

“Quando alguns cidadãos são moralmente irracionais, ignorantes ou incompetentes em relação à política, isso justifica que não se lhes permita exercer autoridade política sobre os outros. E que tenham seu acesso ao poder vetado ou, ao menos, reduzido, para que pessoas inocentes não sofram os efeitos de sua incapacidade”.

Para Brennan, é tudo muito simples: assim como motoristas inaptos não podem ter o direito de dirigir, eleitores politicamente incapazes, segundo o seu juízo, não devem ter direito a voto. A opinião do epistocrata americano é muito significativa porque diz às claras aquilo que o establishment midiático, intelectual e político no Ocidente pensa, mas não tem coragem de dizer em público, preferindo agir discretamente. Como confessou certa feita à revista alemã Der Spiegel o atual presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker:

“Nós primeiro decidimos algo, e então lançamos a ideia, aguardando um pouco para ver o que acontece. Se não houver grandes rebeliões e gritos de protesto, porque a maioria das pessoas sequer entendeu o que foi decidido, nós vamos em frente — passo a passo, até não haver mais volta”. 

No texto introdutório à entrevista de Brennan, seu alerta sobre o perigo do crescimento eleitoral de Donald Trump (um dos exemplos citados da tal “crise” da democracia) é corroborado pelo repórter, para quem o então candidato republicano conduzia uma campanha “com pouco apego a fatos reais”. Para sustentar a afirmação de que 71% das declarações de Trump durante a campanha foram mentirosas, o jornalista da Folha toma como fonte o site americano PolitiFact, que, segundo ele, “checa discursos políticos”. Chegamos aí ao cerne da questão.

No dia 17 de novembro daquele mesmo ano, dez dias após a publicação da entrevista de Brennan, e já em reação à vitória eleitoral de Trump, duas dezenas de agências de fact-checking (“checagem de fatos”) de vários países enviam uma carta aberta a Mark Zuckerberg, presidente-executivo do Facebook, propondo uma parceria para “encontrar e desmontar informações falsas” na internet – as assim chamadas fake news – e, sem qualquer legitimidade para tanto, apresentando-se como guardiões do “debate público sadio”. Dentre as agências signatárias da carta, constavam, além da já mencionada PolitiFact, as brasileiras Lupa, Aos Fatos e Agência Pública-Truco.

Todas essas agências integram a Rede Internacional de Fact-Checking (“The International Fact-Checking Network”), sediada no Poynter Institute, entidade sem fins lucrativos dedicada formalmente a aprimorar (e, informalmente, a homogeneizar) a prática jornalística ao redor do mundo. O Poynter Institute é financiado basicamente por duas grandes fundações “filantrópicas”: a Omidyar Network, de Pierre Omidyar, idealizador do eBay, e a Open Society, do megainvestidor George Soros. Em junho de 2017, as duas juntas doaram um total de 1,3 milhões de dólares ao Poynter, com o fim específico e declarado de incrementar as ações da Rede Internacional de Fact-Checking.

Portanto, ao tomar por fonte fidedigna a agência PolitiFact, descrevendo-a como entidade neutra de checagem de discursos políticos, o repórter da Folha omite do público uma informação jornalística crucial, a saber: que seus financiadores são, assumidamente, dois dos maiores inimigos políticos do presidente americano, que tudo fizeram para impedi-lo de se eleger, e agora fazem para impedi-lo de governar (ver aqui e aqui). Essa omissão jornalística poderia ser perfeitamente enquadrada na prática de fake news, que, em tese, deveria atrair a atenção dos “checadores” caso o seu interesse fosse realmente a qualidade do debate público e não, como é o caso, dispor de um pretexto para censurar desafetos políticos.

A essa altura já deve ter ficado claro para o leitor que essas agências de fact-checking, longe de instituições ideologicamente neutras, são, ao contrário, agentes políticos de destaque no cenário global contemporâneo. Junto aos conglomerados tradicionais de mídia, elas integram uma grande reação epistocrata à livre circulação de ideias em seus respectivos países, que, nos últimos anos, graças à internet, pôs em xeque o monopólio de informação exercido pela grande imprensa, cada vez menos diversa em termos de visão de mundo. Composta por portadores daquilo que o economista americano Thomas Sowell chamou de “a visão dos ungidos”, essa grande rede de organizações procura uma solução urgente para o seguinte problema: o que fazer quando, a despeito de todas as nossas estratégias de manipulação do debate público, o povo não nos obedece e vota contrariamente aos nossos interesses, como ocorreu no Brexit e na eleição de Trump?

No Brasil, todo o processo que vamos descrevendo culminou em duas das três signatárias da carta supracitada, Lupa e Aos Fatos, firmando oficialmente acordo com o Facebook, uma plataforma que, originalmente anunciada como neutra, revela-se cada vez mais engajada politicamente, como ficou claro na sabatina de Zuckerberg no Congresso Americano ocorrida no mês passado. No último dia 10, a rede social lançou o seu programa de “verificação de notícias”, que consiste em reduzir o alcance de notícias e postagens as quais, de maneira autocrática, as referidas agências de checagem – ou, dando nome aos bois, de censura – definam como falsas. Quanto à terceira signatária, a Agência Pública-Truco, também integrante da Rede Internacional de Fact-Checking, coube-lhe a missão de ministrar cursos de formação de censores, tendo como público-alvo jovens profissionais da imprensa, novos pretendentes a um cargo nesse Ministério da Verdade versão século 21.

Se o leitor tiver curiosidade de dar uma breve pesquisada no perfil das agências brasileiras de censura na internet (por exemplo, aqui, aqui e aqui), não tardará a perceber o óbvio: suas equipes são compostas exclusivamente por indivíduos de esquerda ou extrema-esquerda, eleitores ou simpatizantes de partidos como PSol, PC do B e PT, e cujo objetivo é intervir ostensivamente no processo eleitoral vindouro. É o caso, por exemplo, da Agência Pública-Truco, da qual fazem parte, além de jovens millenials e justiceiros sociais desconhecidos do público, notórios radicais de esquerda tais como Leonardo Sakamoto, Eliane Brum, Eugênio Bucci e Ricardo Kotscho (este último ex-assessor do corrupto preso Luís Inácio Lula da Silva).

Os efeitos dessa vasta articulação política em prol de uma internet policiada e partidarizada já se fazem sentir de maneira dramática. Páginas e perfis de indivíduos e grupos posicionados no campo não-esquerdista do espectro político têm tido o seu alcance reduzido, quando não são sumariamente banidos em processos verdadeiramente kafkianos, nos quais não se concede ao acusado direito de defesa, nem sequer informações claras sobre o crime de pensamento cometido. Postagens politicamente indesejáveis têm desaparecido misteriosamente, mediante aquilo que se convencionou chamar de ghost banning (“banimento fantasma”), o bloqueio do conteúdo postado por um usuário que, sem se dar conta de ter sido bloqueado, não entende por que, de um dia para o outro, as curtidas em seus posts despencam da casa dos milhares para a das dezenas.

Estamos diante de um verdadeiro ataque à democracia perpetrado justo por aqueles que, em recorrentes campanhas de autopromoção, mais professam defendê-la. Trata-se de uma gente arrogante, elitista e autoritária, investida de um senso auto-hipnótico de superioridade moral, pelo qual se arvoram o papel de polícia do debate público. Crendo-se imunes ao erro, e provincianamente instalados em seus safe spaces, querem porque querem refazer a sociedade à sua imagem e semelhança, sem a presença inconveniente, na rede e nas seções de comentários dos jornais, do “bando de deploráveis” que insiste em não os reverenciar. A guerra por uma internet livre está apenas começando, e dela deverá fazer parte todo aquele que, ademais de zelar pela própria, zela também pela liberdade de consciência alheia. É hora de somar forças contra o totalitarismo dos epistocratas.

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