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Flávio Gordon

Flávio Gordon

Sua arma contra a corrupção da inteligência. Coluna atualizada às quartas-feiras

História e religião

Fernão Lara Mesquita ressuscita a lenda negra da “maldita herança jesuítica”

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O matemático, físico e astrônomo Christopher Clavius, um dos jesuítas que deram grandes contribuições à ciência nos séculos 16 e 17. (Foto: Wikimedia Commons/Domínio público)

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“O que foi que tornou possível à civilização ocidental desenvolver a ciência e as ciências sociais de um modo que nenhuma outra civilização havia conseguido até então? Estou convencido de que a resposta está no penetrante e arraigado espirito de pesquisa que teve início na Idade Média como consequência natural da ênfase posta na razão.” (Edward Grant, God and Reason in the Middle Ages)

“A Igreja Católica Romana deu mais apoio financeiro e social ao estudo da astronomia por mais de seis séculos – desde a recuperação do conhecimento antigo no final da Idade Média até o Iluminismo – do que qualquer outra instituição e, provavelmente, do que todas as outras juntas.” (J. L. Heilbron, The Sun in the Church)

Meus leitores já me conhecem bem, e sabem que os textos que me dão mais satisfação de escrever são aqueles dedicados à desconstrução paciente de um disparate histórico que se traveste de sabedoria emancipadora. No geral, os autores de tais disparates são intelectualmente indigentes, o que me leva a examiná-los com a meticulosidade fria do entomólogo no laboratório, cujo prazer advém, por óbvio, não de um sentimento de vingança pessoal contra o objeto, mas justo da meticulosidade distanciada no ato de o estripar e observar.

Esse, todavia, não é o caso do material de que trata o presente artigo – um disparate cujo autor é alguém que, de resto, admiro, e com quem compartilho boa parte das preocupações referentes ao nosso país. De modo que não extraio satisfação alguma da redação destas linhas, afora o de cumprir o dever de uma reparação factual e histórica. O autor a que me refiro é o jornalista veterano Fernão Lara Mesquita, que, tomando como gancho um comentário do também jornalista Pedro Dória (eis a certeza de que a coisa não tinha como terminar bem), decidiu gravar um vídeo para explicar por que os brasileiros preferem “ganhar discussões” a “buscar a verdade”. O culpado, garante Fernão, tem nome, data e identidade bem definida: trata-se do que ele chama de “maldita herança jesuítica”, nascida em 1534, com Santo Inácio de Loyola, e responsável – nada menos – por deformar fisicamente, via neuroplasticidade, o cérebro de um povo inteiro até os dias de hoje.

Dizer que a ciência moderna nasceu da Reforma Protestante e que a Contrarreforma jesuítica se define por “censura e guerra aberta à ciência” é um estereótipo que a historiografia especializada séria já demoliu

Eis uma audácia que não se vê todo dia. Não é qualquer um que consegue, em 15 minutos de vídeo, cometer um anacronismo de 250 anos, inverter de ponta-cabeça a historiografia da ciência moderna e, de quebra, escorregar sorrateiramente do tema anunciado (o “modo de pensar brasileiro”) para o seu verdadeiro alvo, que é a crítica ao sistema eleitoral proporcional e ao Supremo Tribunal Federal. Tudo isso costurado por uma tese que, irônica e deliciosamente, exemplifica com perfeição o próprio vício que denuncia: pega-se um fragmento de verdade (o viés de confirmação existe, sim, e todos o sofremos), isola-se do contexto, encadeia-se a uma sequência de afirmações históricas jamais verificadas, e produz-se uma conclusão de grande efeito emocional – precisamente o que o autor imagina ser o “método jesuítico”.

Comecemos pelo mais óbvio, que é também o mais esdrúxulo. A Companhia de Jesus foi expulsa do Brasil em 1759, por obra do Marquês de Pombal, e suprimida universalmente por Clemente XIV em 1773. Isto é: o sistema pedagógico jesuítico deixou de operar em solo brasileiro há 266 anos – mais tempo do que a distância que nos separa da Inconfidência Mineira. Que mecanismo de transmissão cultural, pergunto candidamente ao autor, teria conservado intacto, ao longo de nove ou dez gerações, sem instituição alguma para reproduzi-lo, um “padrão neural” específico, capaz de sobreviver ao Império, à República, a duas repúblicas positivistas, a uma ditadura militar, a uma redemocratização manca e à era da internet? Caso a resposta seja algo como “ficou na cultura”, pedir-se-lhe-ia ao menos que explique o mecanismo – passo a passo, já que é essa a exigência que o próprio vídeo, com toda a razão, recomenda fazermos a qualquer interlocutor antes de aceitar-lhe a tese. Mesquita não o faz. Ele apenas afirma, o que não se confunde com explicar.

Mas o problema não é só cronológico. É, sobretudo, factual – e aqui a coisa se torna realmente ridícula. A tese central do vídeo é que a ciência moderna nasceu da Reforma Protestante e que a Contrarreforma jesuítica se define, nas palavras do autor, “pela censura e pela guerra aberta à ciência”. Ora, isso não é uma leitura polêmica ou revisionista da história da ciência: é exatamente o estereótipo que a historiografia especializada mais séria das últimas décadas passou a demolir, tijolo por tijolo, com uma montanha de evidência documental. Não estou falando da opinião de apologeta nostálgico ou cruzado de rede social, mas de trabalhos acadêmicos publicados por editoras como MIT Press, Springer e Kluwer, assinados por historiadores da ciência sem nenhum interesse apologético, a exemplo de Mordechai Feingold, Ugo Baldini, Agustín Udías, Steven Harris, Florence Hsia, Marcus Hellyer e J. L. Heilbron, entre tantos outros.

O que esses estudos mostram, com fartura de documentação, é o oposto exato da fábula de Mesquita. Foram os matemáticos do Collegio Romano – Clavius, Grienberger, Maelcote, Lembo – que assinaram, já em 1611, a confirmação oficial das observações telescópicas do Sidereus Nuncius, dando a Galileu a legitimação científica mais valiosa que ele obteria em toda a sua carreira. O próprio Feingold, em ensaio dedicado exatamente à relação entre Galileu e os jesuítas, sustenta a tese – paradoxal apenas para quem não estudou o assunto – de que os matemáticos da Companhia foram, na verdade, as maiores vítimas da condenação de 1616 e do processo de 1633, e não seus arquitetos. Foi um jesuíta, Christoph Grienberger, quem organizou nos bastidores, em 1614, uma demonstração pública no Collegio Romano em defesa explícita da física hidrostática de Galileu contra os aristotélicos florentinos – o mesmo Collegio Romano que o vídeo de Mesquita apresenta como fábrica de dogmatismo antiempírico.

E a lista não para aí. No livro Jesuit Contribution to Science, Agustín Udías mostra que foi um jesuíta, Matteo Ricci, quem traduziu Euclides para o chinês em 1607 e abriu as portas da corte de Pequim à ciência europeia. Foram jesuítas que dirigiram o Observatório Astronômico Imperial da China por 150 anos ininterruptos. Foi um jesuíta, Roger Boscovich, quem formulou uma das teorias atômicas mais originais do século 18, antecipando conceitos de campo de força que só seriam plenamente desenvolvidos muito depois. Foi um jesuíta, Angelo Secchi, quem inaugurou a classificação espectral das estrelas, pedra fundamental da astrofísica moderna. E foram jesuítas franceses que, em 1685, acabaram formalmente incorporados – “por privilégio particular”, nas palavras de um deles – à Académie Royale des Sciences de Paris, trocando observações astronômicas regulares com Cassini como membros de pleno direito da mais prestigiosa instituição científica do Ancien Régime. Um levantamento quantitativo do historiador Steven Harris, a propósito, contabiliza cerca de 800 títulos científicos publicados por jesuítas antes da supressão da Ordem – sem contar a produção do século 18 alemão, que Marcus Hellyer mostrou crescer de forma quase exponencial justamente no período em que, segundo a lenda, a “ciência jesuítica” já estaria morta e enterrada desde Galileu.

Convém notar, aliás, que essa “lenda negra” antijesuítica não é invenção de Mesquita, que nesse assunto não passa de um papagueador. Ela já circulava, com a mesmíssima estrutura retórica, entre os philosophes do Iluminismo italiano do século 18 – e há um episódio particularmente saboroso a esse respeito, relatado pelo historiador Brendan Dooley: o matemático iluminista Paolo Frisi, biografando Bonaventura Cavalieri, chegou a acusar os jesuítas de terem operado, ao longo de séculos, uma “conspiração secreta” para sufocar todo avanço científico na Itália, incluindo os de Galileu, Cavalieri, Newton e Descartes. A mesma fantasia conspiratória, ipsis litteris, ressuscitada por Fernão Lara Mesquita em pleno século 21, como se fosse descoberta original e não reciclagem requentada de propaganda setecentista.

Mesquita, em sua ânsia anticlerical, despeja sobre padres mortos há quase três séculos a culpa por vícios institucionais fabricados por engenheiros sociais muitíssimo mais recentes, e muitíssimo mais seculares

Chegamos, então, ao ponto mais extravagante da confusão do autor: sua tentativa de associar o “método jesuítico” às perversões da nossa juristocracia contemporânea – o Supremo Tribunal Federal convertido em oráculo onipotente, e o presidente do Senado com poder de veto sobre quinhentos e tantos parlamentares eleitos. Aqui, Mesquita não apenas erra o alvo: ele mira exatamente na direção oposta àquela de onde vem o tiro. Porque foi precisamente o abandono do escolasticismo jesuítico – por obra da reforma pombalina, que Antonio Paim documenta com precisão em sua História das Ideias Filosóficas no Brasil – que abriu as portas, no Brasil, para o que o filósofo baiano chama de cientificismo: a crença, primeiro positivista, depois marxista, de que o poder político deriva não da representação, mas do saber.

Foi Pombal quem destruiu a universidade medieval e ergueu em seu lugar uma universidade fundada no culto às ciências naturais; foi na Real Academia Militar, herdeira direta dessa reforma iluminista-pombalina, que a intelectualidade brasileira leu Augusto Comte pela primeira vez; e foi dessa mesma matriz cientificista – como demonstra Paim, ao rastrear a linhagem que vai de Benjamin Constant e Júlio de Castilhos até os “marxistas acadêmicos” Leônidas de Rezende e Cruz Costa – que nasceu a convicção, tão brasileira, de que uma elite iluminada pelo conhecimento técnico tem o direito de substituir a vontade dos representados. Trata-se exatamente da mesma pretensão que hoje se traveste de “ativismo judicial”: não o poder que vem do voto, mas o poder que vem – supostamente – do saber superior de togados que se creem os Newtons da hermenêutica constitucional.

Ou seja: a árvore genealógica da nossa juristocracia não passa pelo Collegio Romano. Passa, ao contrário, por Pombal, pelos salões iluministas franceses, por Augusto Comte e por Marx – os mesmíssimos personagens que Fernão Lara Mesquita, em sua ânsia anticlerical, absolve com estranha delicadeza, preferindo despejar sobre padres mortos há quase três séculos a culpa por vícios institucionais fabricados por engenheiros sociais muitíssimo mais recentes, e muitíssimo mais seculares.

Fico pensando no que diria o pobre Grienberger, aquele humilíssimo matemático do Collegio Romano que passou a vida inteira, segundo nos conta a historiografia, apagando o próprio nome de suas invenções para que a glória recaísse sobre outros (inclusive Galileu), ao saber que a posteridade reservaria à sua Ordem o papel de vilã oficial da modernidade científica, num vídeo do YouTube possibilitado, ironicamente, pela mesma tecnologia digital que sua tradição matemática ajudou a tornar possível. Talvez ele apenas sorrisse, com aquela modéstia entranhada de sua ordem, e murmurasse que nunca tem a mesma liberdade dos que hoje falam sem conhecer os fatos.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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