Publicidade
Flávio Gordon

Flávio Gordon

Sua arma contra a corrupção da inteligência. Coluna atualizada às quartas-feiras

Comunistas na América Latina

Os cartuchos de Jango: uma historieta da Guerra Fria

joão goulart estados unidos tchecoslováquia
O presidente brasileiro João Goulart durante visita aos Estados Unidos, em 1962. (Foto: Dick DeMarsico/Library of Congress/New York World-Telegram & Sun Collection/Domínio público)

Ouça este conteúdo

No dia 20 de julho, o Departamento de Estado americano divulgou um relatório de cem páginas com o título Cuba: The Capital of 21st Century Communism. O documento, assinado pelo secretário Marco Rubio, sustenta que Havana conduz, há quase sete décadas, uma campanha ininterrupta de espionagem, infiltração e subversão contra os Estados Unidos – dos tempos da Guerra Fria clássica até o ativismo de rua contemporâneo, passando pela cooptação de quadros em universidades de elite e pela velha rede de agentes formados sob tutela soviética. Trata-se da confirmação, com fontes oficiais, de uma arquitetura de inteligência que a esquerda ocidental insiste em tratar como capítulo encerrado, quando na verdade nunca deixou de operar – apenas trocou de nome, de sigla e, ocasionalmente, de aliado principal. A Guerra Fria, ao que tudo indica, esfriou bem menos do que gostaríamos de crer.

Foi pensando nessa arquitetura que voltei a um dossiê pessoal, obviamente modesto perto do relatório americano, mas esclarecedor, e pela mesmíssima razão. Ele mostra em escala reduzida, e também com data, assinatura e carimbo, como esse tipo de operação funcionava décadas atrás em outras paragens da América Latina. No caso, o Brasil.

Em 2016, solicitei ao Arquivo dos Órgãos de Segurança da República Tcheca – a instituição que administra hoje os documentos das polícias políticas nazista e comunista que operaram no país entre 1945 e 1990 – uma busca sobre a presença da inteligência tchecoslovaca no Brasil durante a Guerra Fria. A resposta do arquivo foi burocraticamente desanimadora: eles podiam, sim, separar os documentos digitalizados pedidos; não podiam, porém, enviá-los ao Brasil. Restou-me recorrer a uma amiga que morava em Praga na época e que, em sua viagem seguinte de volta ao país, trouxe o material consigo – gravado, ainda, num CD, como convinha à arqueologia digital de um arquivo que passara décadas trancado em pastas de papel.

Os dez anos seguintes foram de luta lenta contra um obstáculo prosaico, mas intransponível para um leigo: o tcheco. E não apenas o tcheco genérico da vida cotidiana, mas o jargão fechado, quase críptico, de um aparato de inteligência comunista que cultivava a obscuridade como método de trabalho – abreviações internas, codinomes, terminologia burocrática do Ministério do Interior que nenhum dicionário comum decifra. Entre dicionários, favores de tradutores ocasionais e paciência de arquivista amador, consegui verter para o português talvez 5% do que havia naquele CD.

Centenas de documentos da antiga Tchecoslováquia esboçam o retrato da proximidade entre a inteligência do bloco soviético e o círculo mais próximo de João Goulart

Foi só neste ano, transcorrida exatamente uma década, que, com o auxílio da inteligência artificial, pude finalmente traduzir a totalidade do material – centenas de documentos que, tomados em conjunto, esboçam um retrato bastante mais preciso do que a historiografia costuma admitir sobre a proximidade entre a inteligência do bloco soviético e o círculo mais próximo de João Goulart. A coluna de hoje trata de apenas um desses documentos. Os demais talvez venham, aos poucos, em textos futuros.

Há um fato que resume melhor que qualquer manual de inteligência a mecânica íntima da subversão soviética na América Latina, e ela não envolve mísseis, dinheiro vivo em maletas ou reuniões clandestinas em florestas tropicais. Envolve, isso sim, 150 cartuchos de caça.

Em fevereiro de 1963, um coronel da polícia política de Praga – a StB, o braço tchecoslovaco da máquina de inteligência soviética – escreveu ao ministro do Interior comunicando que o presidente do Brasil precisava de munição para a espingarda que comprara em visita a Praga, ainda vice-presidente, três anos antes. O coronel aproveitou a oportunidade para sugerir também a compra de balas para uma segunda arma, um presente que a própria Tchecoslováquia oferecera a João Goulart. E observou, com o cuidado contábil de quem sabe que está prestando contas a um regime obcecado por papel timbrado, que o gesto vinha “reforçando ainda mais a relação de amizade” entre o presidente brasileiro e o agente tcheco infiltrado no Rio de Janeiro sob o codinome MOLDÁN. O documento foi arquivado, carimbado como “altamente secreto” (Přísně tajné), e ali ficou por quatro décadas e meia, até que a queda do comunismo e a lei tcheca de acesso aos arquivos da polícia política o devolvessem à luz.

Por que uma arapuca dessas – um pedido de munição, quase doméstico em sua trivialidade – merecia o envolvimento pessoal do chefe da inteligência externa tchecoslovaca e a assinatura de um ministro? A resposta está, em boa parte, no trabalho do historiador britânico Christopher Andrew, que teve acesso exclusivo ao arquivo contrabandeado por Vasili Mitrokhin, o arquivista da KGB que passou uma década copiando à mão os segredos mais bem guardados de Moscou antes de fugir para o Ocidente. Em The World Was Going Our Way: The KGB and the Battle for the Third World, Andrew reconstrói algo que a historiografia complacente sobre a Guerra Fria preferiu, por décadas, tratar como delírio de anticomunista raivoso: a extensão real da penetração soviética no Terceiro Mundo, e o papel que os serviços de inteligência dos satélites europeus – a StB tchecoslovaca à frente – desempenhavam como longa manus da KGB na América Latina.

Nada disso exigia, aliás, que Goulart fosse comunista – e ele nunca foi. Para os objetivos da Internacional Comunista, pouco importava o que Jango era, ou seja, quais eram suas convicções político-ideológicas pessoais. Era preferível, aliás, que os líderes das nações-alvo do projeto expansionista soviético não fossem membros formais dos partidos comunistas locais. É o que consta expressamente, por exemplo, num dos documentos dos arquivos da StB que citei em meu livro A Corrupção da Inteligência, no qual se descrevem alguns dos objetivos da espionagem comunista no Terceiro Mundo:

“Ambos os serviços de inteligência [i.e., KGB e StB] efetuarão medidas ativas com o objetivo de garantir ativistas progressistas (fora dos partidos comunistas) nos países da África, América Latina e Ásia, que possuam condições para, no momento determinado, assumir o controle de movimentos de liberação nacional.”

Goulart, é claro, já não era um “ativista” a ser descoberto – era o presidente da República. Mas o princípio operacional é exatamente o mesmo, e explica por que 150 cartuchos de caça valiam, aos olhos de Praga, mais do que qualquer panfleto ideológico: não se tratava de convertê-lo, mas de mantê-lo por perto.

A lógica era simples e, dito com franqueza, bastante inteligente. Um oficial soviético desembarcando em Havana, no Rio ou em Montevidéu chamava atenção; um diplomata tchecoslovaco, húngaro ou polaco, nem tanto. Moscou delegava, terceirizava, diluía sua impressão digital – e a StB, que (hoje sabemos) manteve residências ativas e permanentes em pelo menos quatro países latino-americanos ao longo dos anos 50 e 60, cumpria com aplicação de bom aluno a tarefa que lhe cabia na divisão socialista do trabalho: cultivar, paciente e metodicamente, o acesso pessoal aos homens que decidiam. Não por acaso a pesquisa acadêmica sobre esses arquivos já identificou, no círculo do próprio Goulart, um contato remunerado da StB conhecido internamente pelo codinome REFLEJO – o intermediário brasileiro por meio do qual a inteligência tchecoslovaca soube, depois do golpe de 1964, que o próprio ex-presidente considerara “de grande valor” uma campanha de desinformação publicada a seu favor na imprensa uruguaia. Ou seja: os cartuchos não eram o fim, eram o começo. Ou, mais precisamente, eram a ferramenta mais barata e mais eficaz de um ofício que não tem pressa.

A Guerra Fria na América Latina não foi uma metáfora, nem um exagero de coronel aposentado contando causos: foi uma disputa concreta, travada com instrumentos concretos

É aqui que vale parar e observar o que a nossa historiografia oficial, tantas vezes redigida por quem viu no golpe de 64 apenas a intervenção grosseira de Washington – e nunca a contrapartida, igualmente real, do outro lado do tabuleiro –, insiste em varrer para baixo do tapete. Não se trata de reescrever a história do Brasil como se ela fosse uma simples marionete manuseada de Praga, pois isso não seria menos tolo que a versão oposta de uma CIA todo-poderosa, que por décadas serviu de álibi confortável para dispensar qualquer reflexão sobre penetração comunista real, documentada, arquivada com carimbo e assinatura. Trata-se, isso sim, de reconhecer que a Guerra Fria na América Latina não foi uma metáfora, nem um exagero de coronel aposentado contando causos: foi uma disputa concreta, travada com instrumentos concretos – dinheiro, armas, munição de caça, artigos plantados em jornais uruguaios – por homens que sabiam exatamente o que estavam comprando quando ofereciam um rifle de caça a um chefe de Estado.

Não foi a ideologia, portanto, que abriu a porta da residência presidencial ao oficial tchecoslovaco; foi a vaidade de caçador, o gosto por uma boa espingarda, a mesma vulnerabilidade humana, pequena e universal, que qualquer serviço de inteligência de qualquer época sabe reconhecer e explorar. A StB não precisou convencer Goulart de nada sobre o materialismo dialético – precisou apenas ser prestativa. E o foi, pois, como mostra a prestação de contas da agência nos arquivos, os cartuchos foram efetivamente entregues. Os arquivos de Mitrokhin, cruzados com os papéis do Arquivo dos Serviços de Segurança tcheco, mostram a mesma receita, repetida da Cidade do México a Santiago, do Uruguai ao Brasil: encontrar o homem certo, descobrir do que ele gosta, e estar sempre à mão para fornecer.

Setenta e tantos anos depois de Orwell escrever que quem controla o passado controla o futuro, talvez valha lembrar que quem controla os arquivos controla, pelo menos, a possibilidade de não repetir os erros do passado – inclusive o erro de fingir, por comodidade ideológica, que eles nunca aconteceram. Por óbvio, o dossiê de Praga sobre a munição de Goulart não vai reescrever os livros didáticos brasileiros. Mas deveria, no mínimo, incomodar quem ainda insiste em contar a história da Guerra Fria latino-americana como se um dos dois impérios tivesse jogado sozinho.

Leia a tradução na íntegra dos documentos

joão goulart tchecoslováquiaUm dos documentos da antiga Tchecoslováquia sobre o envio de cartuchos de munição para o presidente brasileiro João Goulart. (Foto: Arquivo pessoal Flavio Gordon)

“Praga, 28 de fevereiro de 1963
SEGREDO MÁXIMO
Ao Ministro do Interior camarada Lubomír Štrougal

Assunto:
Pedido do presidente brasileiro de munição de caça.
Nº de folhas: 1.

Prezado camarada Ministro,

Conforme já foi anteriormente informado, intensificaram-se os contatos entre o presidente brasileiro João Goulart e nosso oficial de inteligência destacado no Brasil, capitão Moldán.

Recebi hoje novo informe do Rio de Janeiro segundo o qual o presidente Goulart dirigiu-se ao camarada Moldán com um pedido para que lhe fossem obtidos 150 cartuchos para caça de javalis, dos quais recebeu um exemplar durante sua visita a Praga, em dezembro de 1960.

O presidente Goulart é conhecido como um grande apreciador da caça e entregou à nova liderança tchecoslovaca essa manifestação de amizade ainda mais estreita do que anteriormente. A amizade entre Goulart e o camarada Moldán continua fortalecendo-se e, por isso, solicito autorização para adquirir, no total, munições no valor de 1.250 coroas tchecoslovacas, consistindo em:

300 cartuchos modelo SFB, calibre 6,5 × 52 R, carga 25–35 (destinados a Goulart);
200 cartuchos para espingarda ZH–101, com projéteis de expansão (para a arma de caça de Goulart).

As munições serão enviadas ao Brasil por via aérea. Aproveitando sua entrega, será igualmente criada oportunidade para uma conversa mais demorada com o camarada Moldán, já na próxima semana.

Chefe da I Administração do Ministério do Interior
Coronel Josef Houška”

tchecoslováquia joão goulartUm dos documentos da antiga Tchecoslováquia sobre o envio de cartuchos de munição para o presidente brasileiro João Goulart. (Foto: Arquivo pessoal Flavio Gordon)

“Processo 0803
Prestação de contas das despesas relativas à compra de munição para a residência do Rio de Janeiro

Em 1º de março de 1963 foi efetuada a compra das seguintes munições:

800 cartuchos calibre 12/10–6 ........................................ 1.000 coroas
200 cartuchos calibre 7 × 57 R ......................................... 250 coroas
Total: 1.000 cartuchos de munição para caça, no valor de 1.250 coroas tchecoslovacas.
Comprovante: ver anexo.”

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.