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“Com efeito, nossa religião, mostrando a verdade e o caminho único para a salvação, diminuiu o valor das honras deste mundo. Os pagãos, pelo contrário, que perseguiam a glória (considerada o bem supremo), empenhavam-se com dedicação em tudo que lhes permitisse alcançá-la. Vê-se indícios disto em muitas das antigas instituições, a começar pelos sacrifícios, esplendorosos em comparação com os nossos, bastante modestos, e cujo rito, mais piedoso do que brilhante, nada oferece de cruel capaz de excitar a coragem.” (Maquiavel, Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio)
Há algo de profundamente revelador no fato de que os rituais de coesão das elites modernas recorram quase sempre a uma simbologia pagã, pré-cristã ou abertamente ocultista. Essa escolha não é acidental nem meramente decorativa. Ela responde a uma necessidade estrutural do poder quando este busca sacralizar-se sem se submeter ao juízo moral comum — e, menos ainda, a uma moralidade objetiva e divinamente fundada.
O cristianismo introduziu no mundo algo intolerável para qualquer classe dirigente que aspire à autonomia absoluta: uma lei moral eterna, válida para todos, inclusive – e sobretudo – para os detentores do poder terreno. Um Deus que se encarna, morre como vítima inocente e promete julgar vivos e mortos dissolve qualquer pretensão iniciática. Não há, diante dele, homens perfeitos, castas espirituais ou permissões secretas. Tudo vem à luz. Tudo é revelado. “Nada ensinei em segredo”, diz Jesus Cristo nos Evangelhos (Jo 18,20). Por isso, quando o cristianismo recua da vida pública, ele não é substituído pela neutralidade espiritual imaginada pela mente secular, mas por formas alternativas de sacralidade.
O escândalo Jeffrey Epstein inscreve-se nesse horizonte. Mais do que crimes individuais cometidos por um sujeito pervertido, o que Epstein parece ter estruturado foi um verdadeiro ritual iniciático para uma seita de elite. Ali, a violação de vítimas inocentes – sexualmente abusadas – funcionava como prova de pertencimento, como pacto de silêncio, consagrando a ideia de que, quando o que está em jogo é a concupiscência dos homens mais poderosos do mundo, nada é sagrado o bastante para ser poupado. O sacrifício pagão retorna, não como culto explícito – como nas oferendas a Baal ou Moloch –, mas como prática subterrânea legitimada pela crença de que certos homens estão além do bem e do mal.
Quando Deus é rejeitado, o que surge em seu lugar não é o vazio, mas o oculto.
A estética pagã é particularmente atrativa às elites porque oferece ao poder exatamente aquilo de que ele necessita: uma pseudo-transcendência sem julgamento; um rito sem arrependimento; uma simulação de sacralidade sem qualquer resquício de verdade. Os deuses-fetiches da elite global não exigem conversão moral, mas apenas participação e teatralização do processo iniciático. O objeto último de culto da elite é a própria elite.
O cineasta Stanley Kubrick foi um dos que melhor captaram essa dinâmica e a expressaram em linguagem simbólica, daí a frequente associação entre seu filme De Olhos Bem Fechados e o caso Epstein. A elite retratada por Kubrick não é cristã, mas tampouco é ateia. Trata-se de uma elite dotada de uma liturgia profana para consumo interno. As máscaras, a música e os gestos – numa mistura típica de elementos New Age com estereótipos pagãos – compõem uma sacralidade sem Deus, uma religião esotérica do poder que se consagra a si mesma.
Duas décadas antes de Kubrick, porém, o sociólogo americano G. William Domhoff, conhecido por seus estudos sobre elites, poder e estrutura social nos Estados Unidos, publicava um estudo empírico pioneiro sobre a coesão das classes dominantes por meio de suas instituições – em particular o Bohemian Grove, retiro anual exclusivo situado num bosque de sequoias no norte da Califórnia, frequentado por figuras influentes da política, dos negócios e da cultura, incluindo diversos presidentes americanos.
Em The Bohemian Grove and Other Retreats (1974), Domhoff oferece uma análise sóbria dos mecanismos informais de sociabilidade das elites norte-americanas e mundiais. Seu grande mérito está em mostrar que o Grove não funciona primordialmente como um “centro de decisões”, mas como algo mais profundo e duradouro: um espaço de suspensão moral e psicológica no qual as elites reafirmam laços, hierarquias e identidades comuns. Anos depois registrado em vídeo pelo fundador da Infowars, Alex Jones, o ritual conhecido como The Cremation of Care, encenado diante de uma coruja gigantesca, não é folclore inofensivo. Para Domhoff, trata-se de um drama simbólico cujo objetivo é aliviar – ou melhor, dissolver – o peso moral da responsabilidade política. O care, a preocupação ética, é queimado ritualmente para que o exercício do poder prossiga sem remorso.
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Domhoff mostra ainda que tais retiros não são exclusivos do Bohemian Grove. Eles se repetem, com variações culturais, em clubes fechados, fundações privadas e encontros informais que cumprem a mesma função antropológica: produzir solidariedade de classe por meio de rituais compartilhados. O poder, sugere o autor, não se sustenta apenas por instituições formais, mas também por liturgias paralelas que moldam disposições psicológicas e morais. Ao descrevê-las com neutralidade acadêmica, Domhoff acaba revelando algo que a imaginação secular moderna prefere negar: o poder nunca é puramente racional. Ele necessita de mitos, símbolos e encenações, recorrendo não raro a imaginários arcaicos para legitimar a própria continuidade.
Lido hoje, The Bohemian Grove and Other Retreats ajuda a compreender por que, sob a superfície secularizada do Ocidente liberal, persistem formas ritualizadas de poder que parodiam antigos cultos das castas dominantes. Lido à luz do caso Epstein, contudo, o estudo de Domhoff soa quase ingênuo, pois não se aprofunda no caráter ocultista, sacrificial e perverso que tais rituais podem assumir nas elites globais contemporâneas, frequentemente organizadas em torno de transgressões compartilhadas e pactos de silêncio. Rituais tipicamente kubrickianos, como a Cremation of Care ou as orgias da ilha de Epstein, funcionam menos como teatro excêntrico e mais como pedagogia silenciosa do privilégio: ensinam, sem jamais o declarar, que dentro daquele círculo de iniciados as normas comuns estão suspensas — e que essa suspensão é precisamente o vínculo que une seus participantes.
Ocorre que, mesmo nas sociedades secularizadas, a consciência moderna permanece marcada por resíduos de moralidade cristã. A ritualística neopagã das elites funciona, então, como dramatização da absolvição sem arrependimento. “Queimar o cuidado”, como mostra Domhoff, não é simplesmente relaxar: é ensaiar simbolicamente a abolição da consciência moral. Eis o expediente que, há mais de 2.500 anos, o profeta Jeremias já denunciava nos sacerdotes de Baal: a transformação do sagrado em instrumento de imunidade moral. Quando Deus é rejeitado, o que surge em seu lugar não é o vazio, mas o oculto.




