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Flávio Gordon

Flávio Gordon

Sua arma contra a corrupção da inteligência. Coluna atualizada às quartas-feiras

São José

Na oficina de Nazaré

são josé
Detalhe de “Sagrada Família com passarinho”, de Bartolomé Esteban Murillo. (Foto: Wikimedia Commons/Domínio público)

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“José passou despercebido... e essa é precisamente a sua grandeza.” (São Josemaría Escrivá)

Num tempo em que a figura masculina e paterna é ora caricaturada, ora dissolvida, ora tratada como um resquício incômodo de uma ordem moral ultrapassada, convém voltar os olhos para aquele que, silenciosamente, sustenta a própria possibilidade de uma civilização: São José. Neste seu dia de celebração, e a despeito de um Zeitgeist que renega o seu exemplo, convém lembrar o homem justo, trabalhador, chefe de família, guardião do mistério mais alto já confiado a um mortal.

Quando se apaixonou por Maria, José teve de tomar uma difícil decisão. Ele notara desde os primeiros momentos que havia algo de extraordinário naquela jovem, um cultivo raro da vida interior, um anseio por Deus incomum para a idade e uma densidade de caráter aparentemente incompatível com a inexperiência dos anos. Não havia ainda ocorrido a Anunciação, e Maria já conservava no seu íntimo o desejo de fazer o dom total de si mesma exclusivamente a Deus. José se encantou.

De acordo com o costume hebraico, o matrimônio constava de duas fases: primeiro, era celebrado o casamento legal (a promessa de união entre os noivos); depois, apenas passado um certo período, o homem trazia a esposa para a própria casa. Portanto, José já era o esposo de Maria antes mesmo de coabitar com ela. Sendo assim, alguma licença poética nos permite imaginar que é precisamente neste momento – em que, já casados, José e Maria ainda não coabitam – que se dá a Anunciação. E é quando se revela a grandeza de José.

A postura de José soa quase incompreensível nos atuais tempos de cinismo e relativismo moral

Como não deve ter sido profunda e difícil a conversa entre os dois jovens nazarenos naqueles dias... A partir dali, o carpinteiro precisou decidir se levaria adiante o casamento com uma mulher casta, o que implicava, por consequência, a sua própria castidade. Quando a divina gravidez começa a se fazer visível, a situação torna-se mais socialmente desafiadora, e José se aflige. Não por orgulho próprio, nem por duvidar da fidelidade de Maria – pois jamais o fez –, mas justamente por temer a má fama que poderia recair sobre a esposa.

O fato é que José não sabia como agir perante a surpreendente maternidade de Maria. Tateando no escuro por uma saída honrosa para aquela situação, e preocupado em não expor Maria à infâmia, cogitou desvincular-se dela secretamente, como se lê no Evangelho (Mt 1, 19). Eis que, justo nesse momento de inquietação, apareceu-lhe o anjo do Senhor dizendo: “José, filho de Davi, não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o Seu povo dos seus pecados” (Mt 1, 20-21).

José não faz perguntas inúteis. Não hesita. Como sempre faria dali em diante, acata imediatamente o comando celestial e assume a paternidade legal de Jesus. Ali, naquele momento, era-lhe confiada a missão colossal de chefiar a família formada por ele, um homem simples e trabalhador, pela Virgem de Nazaré e pelo Filho de Deus – o núcleo da Igreja nascente. José aceitou a missão com fé e confiança.

A postura de José soa quase incompreensível nos atuais tempos de cinismo e relativismo moral. Tão incompreensível que se torna matéria fácil para o humor anticlerical sardônico. Um esquete do grupo humorístico Porta dos Fundos, por exemplo, retrata-o de entrada num bar, embriagado e amparado por um amigo, enquanto se debate contra a pecha de “corno” que lhe cochicham pelas costas. Imaginando-se altamente iconoclastas, os autores do esquete não perceberam que acabaram sendo, involuntariamente, realistas quanto ao contexto.

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Não foram poucas, decerto, as maledicências sussurradas com que José teve de lidar. Mas o que subverte a lógica – e o que, nas mãos de artistas talentosos, teria sido o tema em destaque – é justamente a sua postura em relação a elas. Ao contemplar a gravidez da esposa, não reage com ira, nem com suspeita vulgar, nem com ressentimento. Quanto a isso, o Evangelho é lapidar: sendo justo, não queria expô-la à infâmia. Pensou em afastar-se em silêncio. A delicadeza de sua consciência é tão impressionante quanto sua prudência. Ele sofre – mas sofre em silêncio, procurando uma solução que preserve a dignidade de Maria.

Há, na modernidade tardia, uma obsessão por experiências extraordinárias. O santo, para a imaginação contemporânea, parece ter de ser um místico arrebatado, um milagreiro espetacular ou um rebelde carismático. José não foi nada disso. Não há um milagre seu registrado nos Evangelhos. Não há discursos nem êxtases naquele homem de poucas palavras e gestos precisos. Não há feitos épicos – ao menos no sentido que o mundo entende.

E, no entanto, depois de Maria, a Igreja o reconhece como o maior dos santos. Por quê? Porque José realizou a forma mais difícil de santidade: a fidelidade a Deus na seara do ordinário.

José não viveu no deserto como os anacoretas. Não fundou ordens religiosas. Não escreveu tratados teológicos. Viveu o tempo todo no mundo – e santificou-o a partir de dentro. Trabalhou, sustentou a família, protegeu esposa e filho, enfrentou perigos concretos (como a fuga para o Egito), tomou decisões difíceis – tudo isso sem jamais perder a fé na Providência divina.

Depois de Maria, a Igreja reconhece São José como o maior dos santos, porque ele realizou a forma mais difícil de santidade: a fidelidade a Deus na seara do ordinário

É exatamente isso que, em sua famosa homilia “Na oficina de José”, São Josemaría Escrivá explicou com clareza: José é o modelo do homem que santifica o trabalho, a rotina, a vida comum. Não há nele separação entre o sagrado e o profano. Em São José, o banco de carpinteiro torna-se altar. A casa, uma igreja doméstica. A autoridade paterna, um serviço.

Num mundo que confunde autoridade com autoritarismo e responsabilidade com opressão, José aparece como o arquétipo da verdadeira masculinidade: firme, silenciosa, protetora, orientada para o bem do outro. José é o exemplo máximo da capacidade de autotranscedência e doação.

Eis por que a tradição cristã sempre viu nele o guardião do Redentor. Santo Agostinho já ensinava que sua paternidade era real, embora não biológica – fundada no vínculo matrimonial com Maria e na missão recebida de Deus. José é pai porque ama, porque cuida, porque responde. Porque diz “sim” quando seria mais fácil desaparecer. Deus quis que a Revelação se desse no seio de uma família, sob a vigília de um pai justo e amoroso.

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É difícil imaginar contraste mais agudo com o espírito do nosso tempo, em que o homem é incentivado a desaparecer ou fugir – do compromisso, da paternidade, do sacrifício, da responsabilidade. A figura paterna é hoje ridicularizada, esvaziada, quando não abertamente demonizada. Em seu lugar, promove-se um ideal antropológico líquido, instável, incapaz de sustentar qualquer ordem duradoura.

José foi a negação viva dessa debilidade. Ele não foge, não terceiriza responsabilidades, não se esconde atrás de justificativas psicológicas ou sociológicas. Ele assume e age, sem esperar por aplausos ou reconhecimento. Eis aí o ponto central: a santidade de José não está em feitos extraordinários, mas na constância de um amor que se traduz em dever cumprido. Ele não precisou de milagres porque sua vida inteira foi um milagre moral: o milagre da fidelidade.

A tradição da Igreja, aliás, reconheceu isso progressivamente. Padres como São Jerônimo e Santo Agostinho defenderam sua dignidade; medievais como São Tomás de Aquino aprofundaram sua teologia; místicos como Santa Teresa de Ávila difundiram sua devoção. Ao longo dos séculos, a Igreja foi “descobrindo” José – não porque ele estivesse ausente, mas porque sua grandeza exige um olhar capaz de perceber o essencial. E o essencial, quase sempre, é silencioso.

A santidade de José não está em feitos extraordinários, mas na constância de um amor que se traduz em dever cumprido

Como bem lembrou o amigo Paulo Briguet em sua mais recente e belíssima crônica, José é o santo do silêncio – não o silêncio da omissão, mas o da interioridade. Seu silêncio não é vazio, mas plenitude. É o silêncio de quem escuta a Deus e age sem hesitar. De quem não precisa falar porque sua vida já diz tudo. Num mundo saturado de palavras, opiniões, narrativas e autoexposição, talvez seja esse o testemunho mais subversivo de todos.

Por isso, celebrar São José hoje não é apenas um ato de devoção. É um gesto de resistência cultural. É afirmar que ainda existe um modelo de homem que não se mede pelo aplauso, ou pelo espetáculo, muito menos pela autocastração moral pretensamente virtuosa. Um modelo de homem que se mede por seu senso responsabilidade e disposição ao serviço.

Celebrar São José é também lembrar que a família – essa instituição tão vilipendiada – não se sustenta por slogans, mas por homens concretos que, como José, aceitam carregar o peso do dever com humildade e amor. José não escreveu livros, mas educou o Verbo encarnado. Não realizou milagres públicos, mas protegeu o Autor de todos os milagres. Não fundou escolas, mas formou o próprio Cristo na vida humana, ensinando-lhe o seu ofício e inspirando-o como homem a partir de sua humilde oficina em Nazaré. Se isso não é grandeza, nada mais o será.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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