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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern

Patrulha ideológica

A esquerda está perdendo porque ela é indescritivelmente chata

A esquerda tem perdido eleições e apelo ao transformar a vida em patrulhamento ideológico. Ninguém aguenta viver sob vigilância permanente. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Dá para fazer uma piada perto de um esquerdista? Dá para dizer “graças a Deus” sem tomar uma surra de problematização? Dá para fechar o vidro do carro ao parar no semáforo com um colega esquerdista, sem ter de explicar que, olha, eu não tenho nenhum preconceito, é que não quero falar mal do seu governo, mas existe uma insegurança pública, não sei, talvez seja pela desigualdade social, mas entenda, meu carro não é blindado, e talvez seja melhor eu fechar o vidro do carro ao parar nesse semáforo?

A esquerda hoje é a arte da problematização elevada ao cubo. O esquerdista é a chatice feita carne. E não há como o esquerdista largar a chatice, porque a própria definição da esquerda é a constante administração da vida alheia – principalmente quando a vida alheia não lhe outorgou nenhum papel de consultoria, vigilância, tutelagem ou inquérito do STF.

É curioso como a esquerda tenta se associar a jovens rebeldes e está mais para uma velha coroca sem marido, vigiando a rua, filtrando a realidade por um moralismo artificial e fofocando tudo com lente de aumento. Toda jovem esquerdista é apenas uma futura velha coroca, já agindo como velha coroca.

Apenas em época eleitoral alguém se lembra de que a esquerda nasceu alegando uma preocupação econômica – ninguém quer prestar contas econômicas, ainda mais intelectuais de humanas, longe de eleições. Sua visão econômica ainda é apenas a marxista, resumida a aumentar pesadamente o imposto de renda progressivamente (a segunda medida do capítulo II do Manifesto Comunista). Apenas varia o grau.

O problema é que a conversa com esquerdista é basicamente a mesma: é um imposto sobre o prazer. Sobre a própria conversa. Sobre a existência. É a prestação de contas por cada opinião não abalizada

É a exigência de vigilância sobre toda a espontaneidade. Ou seja, é conversar com uma velha coroca sem vida própria a cuidar.

O esquerdista é aquele que não trabalha com as categorias “concordo” e “discordo”, e sim com “concordo” e “você é um porco nazista de extrema direita bolsonarista golpista antidemocrático homofóbico fascista obscurantista negacionista machista espalhador de fake news lobotomizado do gabinete do ódio”. Vale para discutir o golpe em Myanmar, vale para definir se quer pizza napolitana ou calabresa.

O esquerdista é o ser que, quando chega em determinado ambiente, faz com que todos já se preparem, se autocensurem; há avisos cochichados aos desconhecidos, a conversa é triangulada, pois tudo o ofende – como se hipersensibilidade artificial fosse virtude.

Tampouco há remédio contra tal hipersensibilidade: o esquerdista não quer não se ofender, como uma pessoa normal: seu centro de poder é a constante denúncia de que tudo é ofensivo. Ele precisa se forçar a se ofender o tempo todo, ou não tem mais razão de ser. E cada vez de maneira mais simbólica e abstrata: abrir a porta do carro é coisa de porco chauvinista que está tão imerso no patriarcado que não sabe que uma mulher pode abrir a porta sozinha.

Errar um pronome de um galalau de 1,90 m no banheiro feminino ofende muito mais do que descarregar um revólver contra um pai de família em troca de um celular na frente dos filhos – afinal, não há nem termo chique, como “transfobia”, para descrever assalto, e hiperinterpretar nóia, transformando nossas vidas num inferno (ou acabando com elas), não garante nenhum poder de fiscalização sobre a vida alheia.

Claro que todo mundo quer dizer para o esquerdista enfiar a microfísica do poder dele no espectro que ronda a Europa do Marx. Mas o esquerdista sempre pode contar com uma caridade cristã para sua luta contra o imperialismo até se tomamos um refrigerante.

O esquerdista é o ser que usa o verbo “problematizar”. Só o STF consegue ser pior do que seres humanos falando em “problematizar”. Nós vivemos no Brasil, pegamos trânsito para pegar fila, vamos presos se não declararmos para a Receita o que nem ela sabe, existe cartório, mosquito, contribuição sindical obrigatória, um Kwid custa 44 salários mínimos, e o esquerdista ainda quer problematizar a nossa vida.

Todo esquerdista jura que está lutando contra uma ditadura enquanto redige manuais de vocabulário aceitável, regulamenta até conversa de Zap com o avô, repete frases sem sentido como “fake news é crime” e defende Palestina, Irã, China, Cuba e Venezuela por serem “anticoloniais” – ah, e que querem “desconstruir” Shakespeare e supor que Helena de Tróia era negra, apenas porque… sim.

A depredação na Avenida Paulista querendo virar voto dos pobres que vão ter de limpar a sujeira depois, as fake news sobre Nossa Senhora Aparecida, voltar à paranoia da pandemia para arrancar voto – tudo isto é apenas um antepasto do que é o esquerdista com poder.

Toda a sua chatice é, na verdade, a própria fonte do poder totalitário: ele julga, nós temos de nos justificar

Ele determina o que pode, nós temos de comer pelas beiradas. Ele constrange, parecendo um mendigo bêbado numa mesa de bar na calçada; nós desistimos de continuar o assunto.

A esquerda não tem nada a oferecer para o jovem que saiu da faculdade hoje e não conseguiu parcelar um carro, enquanto seu pai comprou um carro com o ensino médio e seu avô, uma casa com o fundamental. E ainda quer falar em picanha e que tudo seria pior com a direita. A esquerda não tem nada a dizer sobre tomarmos tiro em troca de celular, 20 anos depois da campanha do desarmamento. Mas quer bater no peito que “estudou história” e tem opiniões violentíssimas (e defende violências extremas) sobre a Faixa de Gaza ou terras raras, mas não sabe o que é um curdo e ria de Bolsonaro falando em nióbio.

A esquerda tem perdido eleições – e apelo – justamente por ser intoleravelmente intolerante e indescritivelmente insuportável. Porque esquerda é inspeção, é patrulhamento, é controle e monitoramento. É uma velha coroca com inquérito antidemocrático e Polícia Federal nas mãos.

Há presença de alguém de esquerda quando o assunto é a vigilância ideológica paranoica, obsessiva e ressentida. Há presença de alguém de direita quando ninguém nos enche a porcaria do saco. Como alguém pode querer agora um “voto de confiança”, se a razão de ser desses sujeitos é nos encher o saco até o funeral?

Quando se quer convencer alguém de algo, não basta repetir “democracia cloroquina golpe farmácia popular vacina direitos trabalhistas” até que o atendente entregue seu cappuccino com pão de queijo antes dos outros. Convencer alguém com dedo acusador, depois de anos chamando de fascista até por rir da piada dos dois homoafetivos na Avenida Paulista, talvez seja um pouco tarde demais.

Depois de recuperar a segurança de andar de celular na rua e não precisar ganhar na Mega-Sena ou ter contatos com o Vorcaro para poder comprar uma casa e um carro, uma das urgências do mundo moderno é resgatar nosso sacrossanto direito ao entusiasmo (palavra que significa “ter o deus dentro de si”). Conseguir assistir a um filme sem ter uma aula sobre colonialismo, rir de uma piada absurda, ler um romance pelo conteúdo e não transformá-lo em peça de acusação política contra seu tio Juca, pelo crime de ser carnívoro, católico e não gostar de bandido.

Claro, a direita também pode aprender a ser insuportável, e facções já começam a praticar cancelamentos, linchamentos virtuais, difamações em massa e exigências de um comportamento de seita, como se alguém tivesse sido eleito nas redes sociais para obedecer ou ser cancelado. Mas esta é só a versão de cabelo azul e sovaco cabeludo de alguém falando em nome da direita.

Se queremos ganhar uma causa que envolva comportamentos coletivos, basta não sermos pentelhos e termos paciência. Infelizmente, os dois andam cada vez mais raros.

Mas, se a esquerda quer nos convencer de algo, precisa saber oferecer um mundo melhor do que o do crime, da corrupção, da inflação e dos velhos chatos da MPB jurando que são o progresso. Um mundo em que dê vontade de viver. Não uma eterna reunião de recursos humanos para saber se fomos feministas, pró-trans e anticoloniais o suficiente.

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