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Flavio Quintela

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A dor indissociável da vida

  • Por Flavio Quintela
  • 09/10/2019 15:46
Caveiras em um memorial às vítimas do Khmer Vermelho nos campos de extermínio do Camboja.
Caveiras em um memorial às vítimas do Khmer Vermelho nos campos de extermínio do Camboja.| Foto: Adam Rapp/Free Images

O ser humano nasce sofrendo. Nosso primeiro contato com o mundo é literalmente de chorar. Depois de tantas semanas no aconchego do ventre materno, a entrada no mundo através das mãos do obstetra ou da parteira vem acompanhada de muito esforço, dor, fluidos, sangue, suor e lágrimas; e me perdoem pelo chavão. A dor da mãe, principalmente no caso de parto natural, pode se estender por horas e horas, e é suportável apenas porque existe algo maior, que muitos de nós consideram o maior bem da humanidade, a vida. Digo muitos, e não todos, porque a humanidade já assistiu à ação de lunáticos poderosos que ceifaram milhões de vidas durante sua existência. Mas, no geral, a vida é e continuará sendo o motor maior do ser humano, e a chegada de uma nova vida é um espetáculo que jamais se torna repetitivo.

Mas divaguei… Minha ideia central é a dor, o sofrimento. Ao contrário do que muitas pessoas acreditam, principalmente as mais jovens, a essência da vida não é ser feliz. Quem vive correndo atrás da felicidade, conceito aliás bastante subjetivo e de difícil medida, não se dá conta de uma verdade absoluta, que atinge todas as pessoas deste mundo: só existem duas certezas na vida de um ser humano, a de sofrer e a de morrer. A nossa natureza má garante a presença da dor em toda a nossa história de vida – por vezes nós a infligimos a nós mesmos, por vezes aos outros. E sobre a morte não há muito o que dizer: ela é implacável e invencível.

Está em nossas mãos o poder de lidar com nossos melhores e piores momentos, e usá-los para moldar o nosso caráter e desenvolver as partes altas da alma

É claro que eu não poderia continuar nesta direção sombria, sem mencionar as possibilidades de alegria que nos surgem. Não é porque vivemos com a certeza da dor e da morte que não podemos viver momentos de alegria. Nossa verdadeira humanidade está em agir ativamente para melhorar nossa vida e tornar os momentos de dor e sofrimento menos frequentes e menos intensos, ainda que enfrentemos o limite inexorável do acaso, ou do destino, como alguns acreditam. Ainda assim, está em nossas mãos o poder de lidar com nossos melhores e piores momentos, e usá-los para moldar o nosso caráter e desenvolver as partes altas da alma. Gosto muito de um texto do filósofo Louis Lavelle, que diz:

“Há na vida momentos privilegiados nos quais parece que o universo se ilumina, que nossa vida nos revela sua significação, que nós queremos o destino mesmo que nos coube, como se nós próprios o tivéssemos escolhido. Depois o universo volta a fechar-se: tornamo-nos novamente solitários e miseráveis, já não caminhamos senão tateando por um caminho obscuro onde tudo se torna obstáculo a nossos passos. A sabedoria consiste em conservar a lembrança desses momentos fugidios, em saber fazê-los reviver, em fazer deles a trama da nossa existência cotidiana e, por assim dizer, a morada habitual do nosso espírito.”

Eu adoro esse texto, adoro mesmo. Já o li centenas de vezes, e tento aplicá-lo no meu cotidiano, todos os dias. A consciência da falibilidade do ser humano e da necessidade de um aprimoramento pessoal é condição sine qua non para uma sociedade funcional – nenhum grupo de pessoas pode buscar justiça, paz, harmonia ou qualquer outro valor desejável sem que seus indivíduos realizem esta busca primeiramente por si mesmos, antes de qualquer tentativa de coletivização. E é neste ponto que colidimos com a ideologia de esquerda, sem nenhuma possibilidade de acordo ou nem sequer de respeito às suas ideias, que trouxeram as maiores desgraças à humanidade.

Tire de uma pessoa a certeza da dor, prometa-lhe felicidade, e ela não terá instrumentos para evoluir

Desde que Rousseau removeu a responsabilidade individual pelos males praticados, estabelecendo em sua insanidade que o homem nasce bom e culpando a sociedade pela degradação moral do indivíduo, os intelectuais de esquerda não fizeram nada além de aprofundar essa mentira e levá-la às piores consequências. Ao negar que o estado natural do homem é a miséria, e que a dor é indissociável da vida, eles propuseram soluções absurdas, baseadas em problemas que não existem. Assim, para explicar o sofrimento, propuseram a luta de classes, como se todo o sofrimento humano viesse somente da diferença de riqueza entre as pessoas. Fosse assim e os ricos seriam os mais felizes do mundo, e os milionários acumulariam rugas de tanto rir; e os pobres se matariam de desgosto, amargurados até os ossos por não possuírem uma casa mais bonita ou um relógio de ouro.

Para combater a dor e o sofrimento, propuseram sistemas de governo paternalistas, que tratam todos como crianças incapazes, prometendo algo que nenhuma pessoa na história da humanidade conseguiu prover a alguém: felicidade. Assumiram, assim, o monopólio da virtude, tão grande a ponto de serem os verdadeiros arautos da bondade, e enquanto o faziam assassinaram civilizações inteiras. Pagaram a fé dos incautos com a morte, e suas promessas de felicidade terminaram enterradas em valas comuns, junto aos corpos carregados de marcas de tortura e sofrimento. Essa é a história do comunismo, do socialismo e do nazismo, ideologias que assolaram o mundo e que continuam até hoje influenciando agentes políticos e formadores de opinião.

Tire de uma pessoa a certeza da dor, prometa-lhe felicidade, e ela não terá instrumentos para evoluir. Confronte uma pessoa com a inexorabilidade da dor, desafie-a à superação, convença-a de suas responsabilidades individuais, e pode ser que ela faça o mesmo com alguém. Quando a soma dessas pessoas for superior à das primeiras, poderemos pensar num mundo um pouco melhor.

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