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PROTESTOS MINNEAPOLIS
Um grupo de manifestantes com mensagens contra a polícia se reúne do lado de fora da casa do procurador do condado de Hennepin, Mike Freeman.| Foto: Stephen Maturen/Getty Images/AFP

A câmera de vigilância da estação de metrô ao lado captou a terrível cena. Um homem caminha em direção a uma viatura de polícia e, de repente, começa a atirar nos dois policiais que estão dentro. Após efetuar vários disparos, sai correndo. Os policiais – ela com 31 anos de idade; ele, com 24 – foram gravemente feridos e passaram por cirurgia no último sábado à noite. Continuavam em estado crítico até o momento em que este texto foi escrito.

No domingo de manhã, o presidente Donald Trump tuitou: “Se eles morrerem, pena capital com julgamento rápido para o assassino. É a única maneira de parar com isso!”

Embora esteja certo quanto à pena merecida pelo atirador caso os policiais venham a falecer, Trump está errado quanto à maneira de “parar com isso”. “Isso” é muito mais complicado. O que se vê, hoje, nas grandes metrópoles americanas e em seus entornos, é o resultado das políticas falidas do Partido Democrata, cujos prefeitos administram 18 das 20 cidades mais violentas do país (as outras duas são administradas por políticos atualmente sem partido). Duas das maiores joias americanas perecem pelo mesmo motivo: em Nova York, que nas mãos de Rudy Giuliani viu os índices de criminalidade despencarem, abundam assaltos à mão armada, espancamentos, tumultos e violência de rua; em São Francisco, uma das cidades mais bonitas do mundo, mendigos defecam e drogados espalham hepatite em algumas das quadras mais valorizadas dos Estados Unidos. Outras metrópoles famosas, como Los Angeles, Seattle e Minneapolis, enfrentam um momento delicadíssimo de convulsão social. E o que dizer de Chicago, em que 18 pessoas foram mortas de forma violenta nas 24 horas do dia 7 de junho passado? Esse foi o dia mais violento dos últimos 60 anos na cidade que costuma contar o número de assassinados por fim de semana sempre com dois dígitos.

O que se vê, hoje, nas grandes metrópoles americanas e em seus entornos, é o resultado das políticas falidas do Partido Democrata, cujos prefeitos administram 18 das 20 cidades mais violentas do país

A única coisa em comum em todos esses lugares é o partido que os governa. Os democratas de algumas décadas atrás, que defendiam os trabalhadores e se assemelhavam ao que os trabalhistas são no Reino Unido, não existem mais. Quer dizer, alguns ainda existem, mas são ignorados pela direção do partido. Nas últimas duas décadas, as alas mais radicais têm dado as cartas e ditado a agenda democrata. E, justamente, por isso, movimentos como Black Lives Matter e Antifa têm florescido e ganhado robustez, mesmo operando sobre princípios revolucionários, racistas e totalmente opostos ao espírito de liberdade e justiça que norteou os fundadores da nação na confecção da Constituição e da Carta de Direitos. A verdade é que temos hoje, agindo de dentro do país, duas organizações terroristas.

Desde quando Hillary Clinton referiu-se aos eleitores de Trump como “um bando de deploráveis”, o “nós contra eles” vem se acirrando dia após dia nas manifestações políticas da sociedade americana. Ainda que a grande imprensa faça parecer que o país está praticamente em guerra civil, convém grifar a frase anterior, que é chave para se entender o que ocorre hoje na América: há uma polarização dura e extremada na imprensa, nas redes sociais, nos movimentos políticos, no engajamento dos influenciadores e na condução dos dois partidos que dividem o comando do país. Essa polarização, no entanto, não está presente no dia a dia das pessoas, pelo menos na grande maioria das cidades americanas. Em outras palavras, as pessoas não deixam de interagir umas com as outras de maneira positiva apenas porque uma gosta do Trump e a outra não, ou porque uma é democrata e a outra é republicana. Nunca é demais lembrar, no entanto, que é sempre a minoria barulhenta que movimenta as notícias e os acontecimentos, deixando um rastro de ódio e ressentimento por onde passa. E essa minoria é manobrada pelos movimentos como os citados acima.

Mas voltemos ao início deste texto. Os policiais. Se existe uma classe respeitada pelo americano médio, é a dos policiais. Uma pesquisa bastante recente do Gallup, feita com 36 mil pessoas, mostrou que menos de 15% dos americanos não gosta da polícia. Os resultados por etnia e por orientação política são também interessantes: apenas 22% dos negros acham que a polícia deveria ter seu financiamento cortado (eufemismo para “acabar com a polícia”) e, mesmo entre eleitores registrados como democratas, esse número não passa de 27%. Pesquisas como essa apontam para uma realidade que parece não ser perceptível às esquerdas da atualidade: no geral, a população não apoia a maioria de suas políticas e propostas, pois elas têm pouca ou nenhuma conexão com os problemas reais das pessoas reais – as cidades citadas no terceiro parágrafo são a confirmação empírica dessa última afirmação. No linguajar político moderno, estamos falando do “efeito bolha”.

Se os democratas insistirem no radicalismo identitário e na defesa de uma agenda que só encontra reverberação nos núcleos mais “progressistas” de seus bunkers eleitorais – e não me parece que eles tenham a menor das intenções em mudar o rumo de suas campanhas –, o resultado das eleições de novembro apontará para a reeleição de Donald Trump. O atual presidente tem ganhado apoio até mesmo de fatias inesperadas da população. No sul da Flórida, por exemplo, a insistência dos prefeitos de condados majoritariamente democratas em manter as crianças fora da escola mostrou-se um tremendo tiro no pé, e a proporção de latinos com intenção de voto republicano tem crescido substancialmente. O recado é simples: as pessoas precisam trabalhar e para isso precisam que seus filhos estejam na escola. Novamente, fica claro que os democratas perderam a conexão com a classe trabalhadora.

Aliás, acho muito pertinente fazer uma rápida reflexão sobre o voto latino antes de encerrar essa análise. Muito se fala sobre os imigrantes latinos virem para os Estados Unidos para buscar sustento do governo e viver de programas de renda mínima. Nada poderia ser menos verdadeiro. A grande maioria deles trabalha duro e tem exemplos abundantes de amigos ou conhecidos que conseguiram atingir patamares de renda e bem-estar inimagináveis em seus países de origem. Quando um imigrante atinge o tempo de residência necessário para se naturalizar, é bem provável que tenha vivido e trabalhado pelo menos cinco anos sob o jeito americano de ser e de crescer economicamente. São esses os imigrantes que votam. E o jeito como essas pessoas vivem tem muito mais a ver com o que os republicanos defendem. Esse fato, aliás, é a base da minha crítica à política imigratória deste governo, que tem sido incompreensivelmente dura com os imigrantes que buscam sua permanência dentro da legalidade e respeitando todo o longo processo ao qual são submetidos hoje. O Partido Republicano deveria pensar nessas pessoas como futuras cidadãs, e não como gente que está vindo de fora para piorar o país.

Enfim, é nesse ambiente que teremos mais uma eleição para o cargo de homem mais poderoso do mundo. É muita coisa acontecendo, mas tudo parece convergir para um mesmo fenômeno. Análises que não forem feitas levando em consideração o que acontece fora da bolha progressista têm grandes chances de valerem menos que um título do governo venezuelano em muito breve.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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