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"Ai de vós, escribas e fariseus", de James Tissot.
“Ai de vós, escribas e fariseus”, de James Tissot.| Foto:

Durante um tempo considerável de minha vida, frequentei uma denominação cristã protestante e trabalhei ativamente em uma de suas igrejas, chegando inclusive a integrar o conselho distrital de membros e clérigos. Em uma determinada ocasião, o pastor que chefiava um grande distrito brasileiro concorreu a uma vaga no conselho mundial. Até então, nenhum clérigo brasileiro havia nem sequer sido indicado a um cargo desses, mas o crescimento expressivo das igrejas sob a supervisão desse pastor tinha impressionado a direção mundial da denominação.

Pouco tempo depois, lá se foram o pastor indicado e outros pastores do distrito para o congresso geral da denominação, onde os delegados de todo o mundo elegeriam o novo conselho. O método de eleição é o das votações sucessivas, até que surja consenso sobre o ocupante de cada uma das vagas. Para não alongar demais a história, o pastor brasileiro não foi eleito. Muito pelo contrário, em nenhum momento chegou a receber uma votação que o permitisse evoluir em direção a uma votação definitiva. Em outras palavras, ele não chegou nem à fase do “mata-mata”.

Quando um desses “cristãos conservadores” solta o verbo e maltrata pessoas, a distância entre a descrição que faz de si mesmo e o exemplo de vida daquele que deveria ser seu Mestre só faz aumentar

Tempos depois, conversando com um pastor que lá esteve e que é muito amigo meu, descobri o motivo de o clérigo brasileiro não ter tido a menor chance de ser eleito. Por mais que as igrejas crescessem sob seu comando, ele não era um homem manso e não transparecia humildade. Os conselheiros eleitos eram, sem exceção, senhores que, nas palavras de meu amigo, “não conseguiriam gritar com alguém nem que quisessem muito”. Ele me disse que ficou impressionado com a humildade e a mansidão desses anciãos, e como o contraste com o pastor brasileiro era claro e forte.

Mas por que estou contando essa história? É simples: eu vejo um paralelo interessante com esse neoconservadorismo “cristão” que domina as fileiras do bolsonarismo. Nas redes sociais, principalmente Facebook e Twitter, não faltam perfis que se descrevem como “cristão, conservador e homem de família” ou variantes de mesmo teor, mas que destilam ira e atacam oponentes sem nenhum pudor, diuturnamente. Agem inspirados nos templários, mas se esquecem de uma verdade inexorável: Jesus Cristo não era um desses. Aliás, quase tudo o que fazem e pregam vai de encontro ao que Jesus viveu e ensinou.

Jesus amou os pecadores, incluindo as prostitutas, os corruptos e os ladrões.

Jesus foi manso, humilde e compassivo.

Jesus mandou que amássemos o próximo, mesmo que fosse nosso inimigo.

Por incrível que possa parecer, o único grupo de pessoas que Jesus tachou de “raça de víboras” foi o dos religiosos moralistas, os fariseus. Mesmo assim, aos poucos desse grupo que Lhe entregaram seus corações Jesus deu perdão e vida eterna. Suas palavras fortes contra eles, no entanto, evidenciam quão maligna Ele considerava a hipocrisia religiosa, uma forma de pensar e agir egoísta e ensoberbecida.

Quando um desses “cristãos conservadores” solta o verbo e maltrata pessoas – xingando, acusando, maldizendo, mentindo e atacando, entre outros atos –, a distância entre a descrição que faz de si mesmo (lembremos que cristão significa “pequeno Cristo”) e o exemplo de vida daquele que deveria ser seu Mestre só faz aumentar. A hipocrisia religiosa, mais especificamente a cristã, cria um abismo entre o moralista e Jesus Cristo, abismo esse que serve para afastar tanto a pessoa como os que estão à sua volta da verdadeira luz. É, por assim dizer, o inverso exato da pregação por testemunho de vida.

Nunca precisamos tanto de amor, bondade, mansidão, altruísmo, sabedoria, compaixão e domínio próprio

O mundo, especialmente o Brasil, nunca precisou tanto de homens e mulheres como Cristo. Nunca precisamos tanto de amor, bondade, mansidão, altruísmo, sabedoria, compaixão e domínio próprio. Nunca precisamos tanto de compreensão, de ouvidos abertos e boca fechada, de tempo a sós, de reflexão, de silêncio. Nossa política cava todos os dias um pouco além do que imaginávamos ser o fundo do poço, e nossos agentes eleitos e nomeados portam-se como adolescentes mal-educados de gangues opostas. Se antes tínhamos a corrupção e a desonestidade cobertas por um véu de polidez, agora as entranhas da podridão política brasileira se desnudam aos nossos olhos. Limites foram quebrados sob o argumento de que o importante era ter as pessoas certas – aquelas que seriam honestas, cristãs, equilibradas – comandando o país, mesmo que para isso fosse necessário abandonar o protocolo dos cargos. Afinal, melhor um governo honesto e sem protocolo que um governo corrupto educado como a realeza britânica. Infelizmente, o que nos sobrou foi o pior dos mundos. Desde o presidente até ministros, deputados e senadores, o que vemos é o total abandono do bom senso e do comedimento, um verdadeiro circo de horrores. E a plateia, infelizmente, continua aplaudindo.

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