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Revista Variety elegeu “Mad Max 2” como o melhor filme de ação de todos os tempos.
Revista Variety elegeu “Mad Max 2” como o melhor filme de ação de todos os tempos.| Foto: Divulgação

Talvez seja metafísica, aquela por consequência de estar mal disposto. Mas é mais provável que seja apenas consequência da leitura de A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Releitura, no caso, sei lá pela qual vez, mas que desde a primeira, e em todas depois dessa, me deixa doente durante. E se assim não foi, fica sendo, como o Esteves sem metafísica a meter o troco na algibeira das calças*.

A cada conferência no termômetro, a mesma oscilação vivida por Castorp*, pairando em torno dos 37,7º, por aí. Insuficiente para derrubar, mas propícia ao devanear sofredor de um Werther*, outra releitura do momento: “E você nem imagina como venho estimando cada vez mais a mim mesmo”. E morreu, morrendo-se. Nah, passei da idade desses romantismos desbragados, melhor comer chocolates recheados de uísque e caramelo. At Maida Vale é boa companhia, recomendo.

Novo seriado: Cangaço Novo. Burburinho no ex-Twitter; play; temerário, mas desculpável, vai. Os primeiros episódios são muito bons, surpreendentemente bons. Mas na segunda metade da temporada deixam de desenvolver os personagens, apressando demais as coisas, com saltos no roteiro que tornam a série mais parecida com um enlatado americano. Não precisávamos cuspir de volta o lixo em cima do mundo. Ainda assim, vale. E Alice Carvalho está soberba como Dinorah*.

Não faz o menor sentido considerar Mad Max 2 como o melhor filme de ação de todos os tempos. Não é nem mesmo o melhor da franquia

Retorno ao algoritmo, passa pela timeline uma lista dos melhores filmes de ação “de todos os tempos”, feita pela revista Variety. Clico. Em primeiro lugar, Mad Max 2. Hein? Não pode ser. Será? 38º. Play. Não, pera. Antes, rever o 1. Temerário mais uma vez, mas sem desculpas. Meses atrás quis rever Highlander* e parei com 15 minutos, não quis estragar minha infância. Certas coisas é melhor que fiquem apenas como memória afetiva. Era o caso de Mad Max... É claro que revi todos os filmes da série.

Não faz o menor sentido considerar o segundo como o melhor filme de ação de todos os tempos. Não é nem mesmo o melhor da franquia, que é o último, o Estrada da Fúria*, lançado anos atrás e é excelente. Mesmo. Gostaria que Cangaço Novo se espelhasse nele nas próximas temporadas, aliás. Não temos o deserto australiano, mas nosso sertão é muito mais rico em simbolismos e exemplos de perseverança, com Nossas Senhoras e Padins Ciços espalhados por todas as casinhas e carroças, ainda que Hilux.

Sabe que a cena da luta no thunderdome, em Mad Max 3, não foi estragada revendo hoje? Certamente é a que mais me marcou, uso de referência até hoje, toda vez que passo o verão em Matinhos* e uma tempestade se anuncia por trás do morro. E ainda tem a Tina Turner*, que nos deixou neste ano, indo bem no papel de dona da cidade. Quando os créditos começaram a subir, ao som de We Don’t Need Another Hero, quase me levantei e fui brincar de herói no jardim da casa da infância. Saudades. Preciso lembrar de escutar Tina nas areias da temporada deste ano. 37,2º.

Para onde o algoritmo do Spotify me levará? INXS*, Simple Minds*, e eis que vejo música nova lançada pelo Guns’N Roses: Perhaps. Gostei da forma como a biografia da banda começa no aplicativo: “Guns’N Roses é a ponte separando o hard rock dos anos 1980 e 1990”. Diria que não só do hard rock, mas de tudo, perhaps. Na minha vida, é certeza. A primeira vez que os escutei foi em fins de 1989, começo de 1990, pouco antes de se tornarem ainda mais conhecidos. E aí os amigos que me apresentaram a banda deixaram de gostar; afinal, era proibido gostar do que se tornava popular demais.

Lembro de me sentir como o atrasado para uma festa que, quando chega, descobre que mudou de lugar. Um Hemingway numa festa móvel em Paris*, mas sempre errando de endereço. Guardei minha obsessão com Patience* para as horas sozinho no meu quarto, onde devorei os Use Your Illusion* no segredo da minha vaidade covarde. Ah, Werther, Werther*… Chega? Não sem antes tomar a dose diária de The Office*. E virá, veio o dia seguinte, com os termômetros marcando 36,6, e o universo reconstruiu-se-me sem ideal e com esperança, e o Dono do Algoritmo sorriu*.

* Informe-se (como escrevia Hilda Hilst* nas suas notas de rodapé).

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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