
Ouça este conteúdo
Queria estar à toa na vida como aquele outro Chico, mas o dever me chamou pra ver ministro do STF passar escondendo coisas com pavor.
Preguiça de escrever. Culpo a política, o Brasil, o Dias Toffoli em particular. Passei a semana falando dessas tristezas no Última Análise, programa desta Gazeta do Povo no YouTube. Estive cobrindo a folga de colegas comentaristas.
Mudou minha rotina. Chegava o fim da tarde, lá ia eu caminhando pela cidade em direção ao estúdio. Trabalhadores saindo de seus empregos, filas nos pontos de ônibus, um enxame de mendigos em pontos específicos do Centro (tem solução?), algumas biroscas abertas com senhores sentados, bebendo, esperando a banda – que não virá – passar.
Medo de usar travessões no texto. Vão achar que é coisa do ChatGPT, que se duvidar substituirá até quem estiver vendo a banda passar. Aliás, será que se a banda viesse mesmo, as inteligências artificiais parariam de trabalhar pra vê-la passar? Mais fácil ela tomar o lugar da banda também, fazendo com que o que era doce pareça nunca acabar, apenas ficando enjoativamente a mesma coisa para sempre.
Já chegamos ao tempo em que será preciso identificar os escritores como fazemos com as verduras sem agrotóxicos?
Já chegamos ao tempo em que será preciso identificar os escritores como fazemos com as verduras sem agrotóxicos? Talvez, talvez. Mas, dizia eu, preguiça de escrever. Aumentou, na verdade. Para equilibrar um pouco, andei relendo crônicas de Rubem Braga. Em uma de abril de 1977, intitulada Ela Tem Alma de Pomba, escreveu sobre a televisão, como ela mudava muito da vida tal como era vivida antes.
Acabavam-se os bate-papos preguiçosos depois do trabalho, seja na calçada com os vizinhos, seja nas antigas “salas de estar”. Será que restou alguém que se deixe estar numa sala sem alguma tela ligada? Aliás, ainda existem “salas de estar”?
Enfim, Braga achava que a tevê prejudicava também a leitura de livros, até o futebol, pois quem preferiria ir ao estádio ver o Estrela do Norte F.C. jogar quando tem um Fla-Flu na tevê? Mas Braga enxergava uma coisa boa na televisão: “Só não acredito que televisão seja máquina de fazer doido. Até acho que é o contrário, ou quase o contrário: é máquina de amansar doido, distrair doido, acalmar, fazer doido dormir”.
VEJA TAMBÉM:
A inteligência artificial tem trocentas coisas boas, eu sei, mas nesse quesito aí da loucura, é uma máquina de confirmar doido, alegrar doido, alimentar, fazer doido postar.
Não sei bem aonde quero chegar com esta crônica. Na verdade, está na hora de eu sair do meu canto de novo para ir comentar sobre o canto sigiloso de Dias Toffoli, o canto torturante onde prenderam Jair Bolsonaro, o canto conflagrado do Irã, o canto para onde estão escanteando a María Corina Machado.
Nessas condições, não é possível cantar coisas de amor, convenhamos. E, como também não é possível cantar sobre política o que todo brasileiro minimamente sensato gostaria sem correr o risco de ser preso ou censurado, acho que não dá nem para mandar – você sabe quem – pra tonga da mironga do kabuletê.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos





