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Francisco Escorsim

Francisco Escorsim

A Quaresma e a política

A direita dolorida e suas quizumbas

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Quem dera poder passar 70 dias desligado de tudo, como fez Mário de Andrade em 1927, percorrendo os rios da Amazônia. (Foto: Imagem criada utilizando Whisk/Gazeta do Povo)

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Há tantos anos escrevendo por aqui... Imagino que o leitor companheiro saiba, até espere, que durante a Quaresma costumo considerar outras coisas que não as turbulências políticas cotidianas. E, mesmo quando isso é inevitável, ainda assim procuro que apareçam como ondas em mar quieto.

Quem me dera conseguir manter esta distância voluntária não apenas neste período, mas de forma perene. Viver em recuo contemplativo sem dar as costas ao que se passa. Não custa tentar, ainda que só consiga entre o carnaval e a Páscoa.

Deixe-me tentar exemplificar. Escuto ao longe o fuzuê interno da direita, as brigas dentro da família Bolsonaro, as divisões entre quem deveria estar unido, o gralhar de rede social, com todos sempre muito convictos, muito aparentemente corajosos, com quase nenhuma conversa real, pessoal, olho no olho, sem câmeras, sem fissura por likes...

Todo esse quiproquó atual, esse sururu, esse salseiro, esse fervedouro interno da direita, apenas modifica a aparência de infelicidade, a maneira dessa se manifestar

A direita não é mais nova e envelheceu com poucos amadurecendo. Entre barulhentos frustrados, ressentidos, impacientes, desconfiados, vingativos, aproveitadores, é difícil discernir os bem intencionados, quanto mais os dispostos a se sacrificar pelo bem comum, não o da sua turma apenas.

Volto à leitura do diário de viagem de Mário de Andrade pelos rios da Amazônia em 1927. Passou em torno de 70 dias longe de tudo, especialmente do noticiário político, da quizumba de sempre. Creio que por isso mesmo, longe do ruído, notou e anotou isto:

“As evoluções e mutações políticas não chegarão jamais a criar uma felicidade menos relativa. Elas apenas modificam a aparência de infelicidade humana, a maneira dessa se manifestar. Apenas. Isso aliás é quanto basta pra valorizá-las porque permite, no homem, a permanência da ilusão.”

As evoluções e mutações políticas... O olhar se desprende das páginas e a mente divaga em torno da direita dolorida. Vive numa quaresma política há tempos, sofrendo muita injustiça, perseguição e ostracismo. Seja qual for o resultado da mutação pela qual necessariamente está passando, chegará a criar uma felicidade menos relativa?

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Não tenho respostas, só perguntas e uma constatação: todo esse quiproquó atual, esse sururu, esse salseiro, esse fervedouro interno da direita, apenas modifica a aparência de infelicidade, a maneira dessa se manifestar. Apenas.

Mas Mário de Andrade concluiu seu insight de forma surpreendente, deixando-me mais pensativo. Tudo isso, no fim das contas, seria bom? Bom “porque permite, no homem, a permanência da ilusão”. Isso é bom?

De fato, toda ação política vive em boa medida da ilusão de certezas. Certezas que não são mais do que apostas mais ou menos prováveis. Esquerda, direita, centro, anarquistas, todos, todos acreditam que sua convicção criará uma felicidade menos relativa. É a condição humana da ação política. Compreensível. Necessária, até. Mas ilusão de certeza, pois ninguém tem garantia de que a sua é a realmente certa, a verdade, a iluminada.

A política, pensando bem, deveria ser a arte de fazer as ilusões passarem pelo teste do diálogo que as confronta, da razão que as examina, dos frutos que as desnudam. Mas quando se reduz à ilusão de que se está do lado certo da história, a ilusão de que canalhas são os outros, a ilusão de que se está enxergando perfeitamente bem o que está acontecendo e para onde as coisas caminharão, aí...

A Quaresma não deixa de ser uma época favorável para se dar conta do idiota contando a história, da inutilidade da sua fúria cheia de teclas e enter, sem nenhum som

Aí é Macbeth. Na peça de Shakespeare, depois de Macbeth ter assassinado o rei para se tornar o rei, mantendo seu reinado através do terror contra os oponentes, ele está exausto, desiludido, tendo de encarar as consequências reais de sua ambição. É quando vem a famosa passagem, em tradução livre:

“O amanhã, e amanhã, e ainda amanhã
se arrasta nesse ritmo mesquinho, dia após dia

até a última sílaba do registro dos tempos;

e todos os nossos ontens têm apenas iluminado para os tolos

o caminho do pó da morte. Apaga-te, apaga-te, breve vela!

A vida não passa de uma sombra ambulante, de um pobre ator

que se pavoneia e se agita ao dizer sua fala sobre o palco,

e depois é esquecido. É uma história

contada por um idiota, cheia de som e fúria,

significando nada.”

A Quaresma não deixa de ser uma época favorável para se dar conta do idiota contando a história, da inutilidade da sua fúria cheia de teclas e enter, sem nenhum som. Época boa de se perguntar: pra quê? De encontrar resposta também. De encontrar significado. Sim, significado. O único que, por dar medida às ilusões, justamente por isso as transfigura em humilde serviço ao bem comum. O resto é ruído.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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