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Francisco Escorsim

Francisco Escorsim

Escapemos da realidade

Dua Lipa para presidente da Comissão da Mulher

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A cantora e compositora Dua Lipa durante o Festival de Berlim, em fevereiro de 2026. (Foto: Fabian Sommer/EFE/EPA)

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Mas como, se nem brasileira ela é? Oras, que importa? Basta dizer que é brasileira. E deputada também, dane-se se não foi eleita. A realidade, hoje, é o que desejamos que seja. Logo, venho por meio desta anunciar a campanha para que Dua Lipa seja presidente da Comissão da Mulher na Câmara dos Deputados.

Aliás, por que não para presidente do STF também? Isso, em conjunto. Acrescentemos a Presidência da República, sem prejuízo dos demais cargos, inclusive o de rainha da bateria da Mangueira, certamente o mais relevante.

Se há um bem que se tira do nonsense da atualidade, é este: prova o valor e a necessidade do evasionismo. É preciso escapar de vez em quando, quase sempre. Sigam-me os bons, portanto, lendo de maneira desmedida os livros de Alexandre Soares Silva. Fosse o Brasil um país sério, Soares Silva seria facilmente badalado como um dos melhores escritores contemporâneos.

Fosse o Brasil um país sério, Alexandre Soares Silva seria facilmente badalado como um dos melhores escritores contemporâneos

A literatura evasionista tem lá sua tradição, com Dom Quixote como obra maior, os românticos do século 19, e também o realismo mágico do século 20. Mas levemos a sério isso de se evadir e deixemos isso de lado, até P. G. Wodehouse, o escritor favorito e a maior influência de Soares Silva.

Sigamos direto para Quaresmeiras Roxas, a mais agradável cidade do Paraíso, através dos romances A Coisa Não-Deus, Morte e Vida Celestina e A Vida é uma Festa, lançados entre 2004 e 2013. É de lá que nascem outras narrativas, como a onírica do quarto romance, Totolino (2022), e personagens como Lilico, de Feérico Luar no Copacabana Palace (2024), que retornará em futuras histórias do autor.

Mas é nos contos que me parece estar o melhor de Soares Silva. O Homem que Lia os Seus Próprios Pensamentos, que também dá título à coletânea lançada em 2021, seria daqueles para figurar em qualquer antologia de grandes contos da língua portuguesa. Seria, se antologias costumassem aceitar mais de um de cada autor e Alexandre não tivesse escrito um melhor ainda no seu mais recente livro de contos, Arcanos Menores, publicado pela editora Danúbio.

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Refiro-me a O Vigilante Rodoviário Contra o Cerrado. Certamente o leitor aproveitará mais e melhor se reconhecer (e entender) as referências a Borges, ao minotauro, a Ary Barroso, ao próprio vigilante rodoviário. Mas, ainda que o leitor tenha ido longe demais nessa coisa de escapar e seja um especialista em fuga da cultura ocidental (algo usual no país), conseguirá se divertir, talvez até estremecer um tantinho com nosso infinito vazio, simbolizado pelo cerrado.

E é neste ponto, neste momento, em que a diversão do escapismo encontra a fronteira da realidade melancólica, quando não trágica, que está o melhor de Os Arcanos Menores, que não é apenas uma coletânea de contos, mas tem uma unidade que se revela no fim do seu último conto, Dua Lipa, quando, de forma magistral e proposital, o autor nos despede da leitura, devolvendo à tristeza da nossa realidade diária, o que dá maior sentido e valor aos absurdos, “maluquices” e humor de tudo que se leu até ali.

Ainda bem que Alexandre Soares Silva não é cruel, nem maldoso. Se o fosse, teria atendido ao último pedido de seu Rogério de forma diferente. A pessoa teria chegado em tempo. Mas, em vez de Dua Lipa, seria a presidente da Comissão da Mulher da Câmara dos Deputados.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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