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Caminhava, como de costume, da minha casa até o estúdio da Gazeta do Povo. Tornou-se um ritual de observação através do qual muitas crônicas nascem. Num dos trajetos desta semana, decidi andar pelo terminal de ônibus do Guadalupe, abraçado pelo santuário de Nossa Senhora de Guadalupe.
Passava pelas costas da igreja, onde uma imagem monumental da Virgem de Guadalupe se estende pela parede, um mural que, confesso, nunca havia contemplado de verdade. Não dá pra bobear naquela região, é preciso ficar esperto e se movimentar com rapidez. Mas algo me fez parar desta vez.
Fiquei ali, por alguns segundos diante da Virgem de pele morena, com seu manto estrelado e o olhar compassivo. Lembrei de parte de sua história, da aparição a Juan Diego, um indígena pobre que pertencia à baixa casta do Império Asteca, quase na condição de escravo, e se dedicava a um árduo trabalho no campo e a fabricar esteiras.
O que não falta ali no entorno da igreja são pobres. Mais do que pobres, mendigos, viciados. Durante o dia se espalham pela cidade para, de noite, ali se concentrar, reinando. Que fariam se a Virgem lhes aparecesse?
Poucos passos adiante, meu olhar pousou sem querer no balcão refrigerado de um boteco qualquer. Ali, expostos sem pudor, diversas garrafinhas de corote e “cana boa”. E mais nada. As bebidas que alimentam a fuga e a miséria de tantos que perambulam por ali.
Olhei para o botequeiro, um homem de rosto cansado que limpava o balcão com um pano sujo. Poderia vê-lo como uma vítima resignada, um sobrevivente em meio à crise que assola o centro, todos os centros. Ele não criou a degradação, apenas se adaptou, oferecendo o que o desespero demanda.
E então, diante de todas essas dualidades, a pergunta se impôs, martelando em minha mente como um sino desafinado: Quais das interpretações correspondem à realidade?
Mas também posso enxergá-lo, com seu estoque farto de cachaça, como alguém que lucra com a degradação humana. Ele não é um mero espectador, é um agente ativo na perpetuação de um ciclo vicioso. Quem é o dono do boteco?
Continuei meu caminho, com tudo isso me lembrando das recentes medidas tomadas pela Prefeitura de Curitiba para tentar revitalizar o centro. Até a internação involuntária para tratamento de dependentes químicos passou a acontecer. A ambiguidade persistia, agora entre a intenção de salvar e o risco da exclusão, entre a promessa de dignidade e a realidade do esquecimento.
Chegando ao estúdio, passei em frente ao histórico prédio da Gazeta do Povo, que por ali funcionou entre 1950 e 2017, mais ou menos. Meus olhos caíram sobre as discretas, porém insistentes, plaquinhas de metal fixadas nas paredes pedindo “por favor”, para que as pessoas não apoiem os pés, não pichem, não estraguem o patrimônio que é histórico - de todos, portanto.
E lá veio a dualidade de novo… De um lado, a crença na civilidade, na educação, no respeito pelo bem comum. É um apelo à consciência, um voto de confiança na capacidade do indivíduo de se elevar acima da barbárie. Mas, de outro lado, uma ingenuidade sem cabimento diante da degradação geral impossível de ignorar. É um apelo inútil a quem não ouve, a quem não se importa, a quem talvez nunca tenha aprendido o valor do que está sendo pedido.
Entrei no estúdio meio macambúzio. Inteirei-me dos assuntos que trataremos na edição do dia do programa "Última Análise". Um deles foi a caminhada do deputado Nikolas Ferreira até Brasília em protesto contra os absurdos jurídicos que levaram à condenação dos réus do 08 de janeiro. Mais de 200 quilômetros percorridos a pé. E lá veio, de novo…
Seria um ato de fé genuíno, uma recusa à resignação, a personificação da crença de que a ação individual, por mais simbólica que seja, pode mover montanhas, ou ao menos, sacudir consciências? Ou uma performance orquestrada para gerar visibilidade, engajamento e, em última instância, proveito próprio?
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E então, diante de todas essas dualidades, a pergunta se impôs, martelando em minha mente como um sino desafinado: Quais das interpretações correspondem à realidade? Ou todas? O botequeiro é vítima ou explorador? A prefeitura cuida ou expulsa? As placas são esperança ou autoengano? Nikolas é crente ou calculista? É uma questão de escolha, então? De fé e esperança, que nos impulsionam a ver o lado bom, a acreditar na redenção, na civilidade, na boa intenção? Ou de realismo e pragmatismo, que nos forçam a encarar a crueza da exploração, do controle, da ingenuidade e do cálculo político?
Terminado o programa, era noite. No caminho para casa, passo novamente pela igreja de Guadalupe. Não vejo a imagem da Virgem, voltei pelo outro lado. Estará iluminada? Pensei no seu manto que, há 500 anos, permanece intacto, desafiando a lógica e a ciência. É um fato. Ele simplesmente é. A Virgem pediu a Juan que colhesse flores, guardasse em seu manto e levasse ao bispo, que pedia provas de sua aparição. Assim fez e quando o abriu diante do bispo, caíram flores que não eram daquela época e, no manto, a imagem apareceu para nunca mais desaparecer.
A partir dele, o milagre foi também social. Uma conversão massiva dos indígenas ocorreu, não pela força, mas pela identificação e pelo acolhimento. A fé humana deixou-se abraçar naquele manto, nascendo uma nova esperança, criando uma nova realidade, uma nova identidade.
No dia seguinte, voltei a passar pela igreja. Descobri que o templo foi inaugurado em 02 de julho de 1967, dia da visita de Nossa Senhora à sua prima Isabel. O dia da caminhada de Nossa Senhora… Séculos depois, ela visitou Juan Diego, que se tornaria santo, o primeiro dos indígenas americanos.
No boteco adiante, tudo como ontem, com alguns corotes a menos em exposição. Parei de pensar, decidi entrar. Pedi um pingado, puxei papo com o dono: “Como vai a vida?”





