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Às vezes invejo os cronistas de antigamente. Não era tão fácil fabricar tantas novidades descartáveis assim no mundo. Para quem escrevia uma vez por semana, os assuntos e temas se demoravam por dias nos jornais. Hoje, não duram 24 horas.
Por causa disso, costumo escrever próximo da data de publicação aqui na Gazeta do Povo. Nem sempre me rendo ao descartável do momento, mas, mesmo quando cedo, tento olhar para além do relevante esquecível. Percebo que alguns leitores me acompanham. Alvíssaras!
Como estou em viagem no momento da publicação deste texto, escrevi antecipadamente. Estou na atualidade da terça-feira, 19 de maio de 2026. Um dia depois da convocação da seleção brasileira, que já deve parecer ter sido seis meses atrás para o leitor da atualidade do dia da leitura, prováveis dias 22 ou 23 do mesmo mês.
As pesquisas eleitorais apenas são termômetro do calor do momento, não previsão do tempo futuro
É também o dia em que saiu uma dessas pesquisas recorrentes sobre a corrida eleitoral. Quando me lê, o leitor já deve ter recebido umas duas a três a mais. Esta, da Atlas Intel, foi realizada no calor da divulgação das conversas de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro.
Analisando as métricas de internet, o assunto bombou durante uns dois a três dias, com o fim de semana seguinte mudando de assunto, para a separação de Vini Jr. e Virgínia. E a semana começou com a convocação da seleção soterrando todos os demais assuntos.
Na prática, o real efeito desses áudios só poderá ser verificado daqui a uma ou duas semanas. Por enquanto, as pesquisas apenas são termômetro do calor do momento, não previsão do tempo futuro. E, no que reviso o texto, saiu a notícia de que Flávio se encontrou com Vorcaro mesmo depois de este ter sido preso.
Pelo visto, o calor seguirá quente por mais um tempo. Também, com o próprio candidato dando lenha para a fogueira. Enquanto escrevo, o fogo reacende, parece grave. Enquanto você lê, talvez ainda se mantenha vivo, mas, daqui a duas semanas, o mais provável é que tudo se torne cinzas.
O que me devolveu à seleção brasileira. Ontem (segunda, 18), enquanto trabalhava preparando aulas (sou professor, caso o leitor eventual não saiba), deixei de fundo um canal qualquer do YouTube que passou o dia ao vivo direto de onde a convocação aconteceu, no centro do Rio, no entorno do tal Museu do Amanhã, uma excrescência arquitetônica na região.
Entrevistavam os passantes, os curiosos, os torcedores excêntricos que sempre surgem nesses momentos. Aos poucos, passaram a entrevistar a elite VIP que participaria do evento. Que diferença. Enquanto o povo nas ruas demonstrava uma alegria, uma excitação com a convocação, os VIPs pareciam apenas marcar presença.
A esperança no craque é o que sempre moveu o futebol, ainda mais a seleção. Ainda que o craque não pareça ser o mesmo
O show prévio à fala do técnico, revelando os jogadores, foi constrangedor. Muito pela plateia, absolutamente alheia, fria. Desconfio que, se fizessem na praça do lado de fora, a torcida vibraria junto com os atores encenando a alegria nos dias de nossas maiores conquistas. Talvez até os tornasse atores melhores, porque, olha…
Só em um momento a animação de fora pareceu ter adentrado o evento. Quando Ancelotti chamou o nome de Neymar. Mas havia uma diferença considerável. No lado de dentro, via-se celulares ao alto, o coração de todos na postagem. Lá fora, alegria genuína. A esperança no craque é o que sempre moveu o futebol, ainda mais a seleção. Ainda que o craque não pareça ser o mesmo.
Entre políticos que parecem os mesmos de sempre, craques que não são mais os mesmos de antes, pesquisas voláteis e notícias esquecíveis, como a de convocações bregas dentro de museus futuristas, o que ainda nos salva é essa teimosia do lado de fora. Essa esperança de quem ainda acredita no amanhã sem ter muito no hoje que a justifique.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos









