Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Francisco Escorsim

Francisco Escorsim

Guerra Geracional

Fábio Jr. e os revolucionários Z-Trans

Fábio Jr. em show no litoral do Paraná: um cantor que atravessa gerações e, por algumas horas, suspende a “guerra geracional” em uma comunhão entre boomers, X, Z e Z-trans.
Fábio Jr. em show no litoral do Paraná: um cantor que atravessa gerações e, por algumas horas, suspende a “guerra geracional” em uma comunhão entre boomers, X, Z e Z-trans. (Foto: Rosanetur/Wikimedia Commons)

Ouça este conteúdo

Não sei se assim disse o Senhor dos Exércitos, mas profetizo: nos anos vindouros, começando neste, haverá uma guerra geracional. 

Se o leitor é das gerações X ou Baby Boomer, até tem noção de a qual pertence, mas nunca sabe discernir quando começam e terminam as seguintes. Basicamente: boomers (1946-1964), minha geração X (1965-1980, a "coca-cola"), depois Millennials (1981-1996), Z (1997-2010), Alpha (2011-2024) e Beta (2025-?). 

A guerra se dará, pelo que entendi, entre a Z e a Z-trans (Millennials que se acham Z) contra os boomers. Para efeitos desta guerra, a turma do Z trata todo X como boomer também. Os Alpha e Beta aguardam no banco de reservas, até que morram os boomers e X e eles possam brigar com os velhos do futuro.

Permita-me um breve apanhado de contextualização. William Strauss e Neil Howe criaram a Teoria Geracional, afirmando que a cada 20 anos ocorre uma "virada" geracional. Em 1997 publicaram sobre a "Quarta Virada"; em 2023, outro livro afirmando que ela está acontecendo e que se trata de uma crise.

Será engraçado se a geração Z vencer deixando-se liderar por homens de gerações mais velhas.

Por sua vez, a psicóloga Jean Twenge, autora de best sellers como IGen (2018) e Generations (2023), sustenta que a tecnologia criou um abismo comportamental sem precedentes entre a Geração Z e as anteriores. Seria a principal causa para a crise apontada por Strauss-Howe?

É provável, considerando que o ideólogo Curtis Yarvin é cientista da computação e o estrategista político Peter Thiel empresário bem sucedido na área de tecnologia (criou o PayPall, dentre outros). Ambos alegam que o sistema atual não funciona para as gerações mais novas e seria preciso um choque geracional. Ambos inspiram e orientam figuras como J. D. Vance, atual vice-presidente dos EUA.

No Brasil, quem comprou esta narrativa de necessidade de uma guerra geracional foi o MBL, agora fantasiado de Partido Missão. Renan Santos, pré-candidato a presidente pelo partido, quer ser o líder da revolução da geração Z no Brasil. Detalhe: ele não é da geração Z, assim como Thiel e Yarvin. Estes são da X, Renan é Millenial. São, portanto, Z-trans, aqueles que não são da geração, mas se identificam como tal.

Será engraçado se a geração Z vencer deixando-se liderar por homens de gerações mais velhas. Significa que não houve ruptura nenhuma, apenas troca de lideranças no “andar dos mais velhos que comandam”.

Mas quando vemos que na recente bem-sucedida caminhada conduzida por Nikolas Ferreira (esse sim, um Z legítimo) a Brasília, era nítido o sincretismo geracional, a pergunta é inevitável: será que partir do pressuposto da necessidade de uma ruptura geracional não é ela, em si, a causa da guerra?

VEJA TAMBÉM:

Pode ser que seja inevitável, mas não compro a tese de que seria necessária. Nada que proponha desprezo e divisão parece ser boa coisa. E honrar pai e mãe não é um mandamento divino à toa. Enfim, acho que o Fábio Jr. tem razão quando diz em seus shows que é preciso que os seres humanos sejam mais humanos. É clichê, é brega, mas é verdade.

Aliás, Fabião esteve fazendo show no fim de semana passado no litoral do Paraná. Estive lá. Plateia recheada de senhoras boomers que dariam tudo por uma noite com o homem, mesmo ele já na casa dos setenta, não parecendo muito disposto. A platéia também estava recheada de X's como eu, que cresceram escutando, por tabela, as canções de amor desse sujeito de voz doce e sedutora.

Havia também jovens das gerações posteriores, entre curiosos e zombeteiros. A certa altura, creio que a partir de quando ele tocou "Pai", no meio do show, aconteceu aquilo que no teatro costuma se chamar de "milagre cênico", um momento mágico e raro em que a fronteira entre palco e plateia desaparece, criando uma experiência coletiva emocional, unificadora e, às vezes, espiritual. Sem idades, sem gerações, apenas uma comunhão.

No fim, passeando o olhar pelas areias de Caiobá, contemplei grupos de amigos, famílias inteiras, com sorrisos no rosto, dançando uma música qualquer tocada na dispersão, felizes. A identificação temporária persistia, como se o tempo tivesse se alargado, como se não existisse antes nem depois. Como se as metades da laranja não fossem dois amantes, dois irmãos. Porque nunca foram separados ou divididos.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.