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“A cidade não é o problema, é a solução.” Esta talvez seja a frase de Jaime Lerner de que mais gosto. Não conheço muitas, é verdade, mas esta é tão boa que as demais têm poucas chances de serem melhores, convenhamos.
É verdade também que é uma obviedade. Mas passamos tanto tempo magnetizados e paralisados pelo que acontece em Brasília – não a cidade –, que fica parecendo uma tirada de gênio. Não é, mas fazer da cidade uma solução, aí é. E Jaime fez.
Existe uma Curitiba antes e outra depois dele. Goste da atual ou não, prefira a antiga ou não, é um fato. A forma de Curitiba, da década de 1970 até os dias de hoje e muitos mais adiante, é lernística.
E não falo de cartões-postais, de lugares que se tornaram turísticos, essas coisas. Falo de dia a dia, de viver na cidade, de ser curitibano, nativo ou não. Poderia ser melhor? Certamente. Mas seria facilmente pior sem Jaime Lerner, muito pior.
Existe uma Curitiba antes e outra depois de Jaime Lerner. Goste da atual ou não, prefira a antiga ou não, é um fato
Ele também costumava dizer que planejar a cidade é cuidar das pessoas e que a maior atração deveria ser a qualidade de vida de seus moradores. Outras obviedades de serem ditas, mas nada fáceis nem simples de serem feitas. E Jaime fez.
Pergunte a qualquer brasileiro o que sabe ou acha de Curitiba e 9 em cada 10 responderão que acham uma cidade boa para morar, ainda que não a conheçam. Dificilmente curitibanos discordarão, pois, mesmo que tenham lá suas críticas, basta comparar com a maioria das cidades do país para dar o braço a torcer. Agradecemos a Jaime, ainda que com má vontade.
No próximo 29 de março, Curitiba faz 333 anos. De presente, ganhamos uma estátua de Jaime Lerner no famoso calçadão da Rua XV, que ele conseguiu implantar em 72 horas em 1972, sem dar tempo para reclamarem do fechamento da rua. Tornou-se um dos lugares mais icônicos da capital paranaense.
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Fui conferir a obra de perto. Havia uma fila de pessoas querendo sentar ao lado dele no banco toinoinoin (é esse o nome mesmo), uma das peças de mobiliário urbano criadas por Lerner. Fiquei surpreso, mas talvez o interesse seja mais pela novidade, que atrai como mosca quem vive pra postar fotos em rede social.
Fiquei à distância observando. Gostei da estátua. O sorriso bonachão, o estilo informal da “vestimenta”, é a imagem do Jaime que ficou na memória coletiva do curitibano. Uma moça, depois de tirar a foto protocolar, levantou-se e ficou a admirar de perto a estátua, como se conversasse ao pé do ouvido do Jaime. Fez-lhe um cafuné e se despediu. Como quem deixa um avô.
Fiquei a refletir: qual outro político contemporâneo de Jaime, ou mesmo atual, receberia carinho assim? Mirei o caderno sobre o colo da estátua e o lápis na mão direita completando a obra. Significa mais do que parece: Jaime Lerner entrou para a história menos pelo político que foi do que pelo artista que sempre será.
Jaime Lerner entrou para a história menos pelo político que foi do que pelo artista que sempre será
Nem seus adversários históricos ousaram se insurgir contra a homenagem. Que os políticos de hoje e de amanhã, então, aprendam ao menos uma lição: quando tratam as cidades como solução, deixam de ser um problema para todos.
Quantos de vocês, políticos profissionais, terão para apresentar como seu legado o que Jaime Lerner possui? Não, não me refiro às obras, ao urbanismo, à arquitetura, ao design.
Refiro-me a isso: “Tudo o que sou como escultor começou por causa dos espaços que Lerner abriu na cidade para oficinas”. Quem disse foi Elvo Benito Damo, autor da estátua em homenagem a Jaime Lerner.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos









