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Há um boteco no meio do caminho. No meio do caminho há sempre um boteco. Sitiado de “Compro Cabelo” por todos os lados. Pequeno, fica numa faixa estreita da quadra irregular, com portas para duas ruas quase paralelas. Passaria despercebido em meio a tantos cabelos se não fosse a dança.
Seis e tantos da tarde, noite acordando. Não durou mais do que dois, três segundos o tempo que levei para passar pelo boteco que não sei o nome (talvez nem tenha mesmo). Mas foi o que bastou. Do canto do olho avistei uma meia dúzia daquela gente humilde cantada por Chico Buarque dançando.
Não a música do Chico, que é indançável, mas alguma outra que não discerni e devia ser animada. Apenas percebi que vinha de uma telinha pendurada na parede contendo a letra pulante de um karaokê que ninguém cantava. Era uma segunda-feira.
Do canto do olho avistei uma meia dúzia daquela gente humilde cantada por Chico Buarque dançando. Não a música do Chico, que é indançável, mas alguma outra que não discerni e devia ser animada
Alguns dias passaram e ainda estou aqui a matutar: que música era? Não parecia ser um samba, pagode. Arriscaria Bee Gees. Arriscaria porque a animação era de festa de casamento às 3h48. Não dançavam em casal, mas cada um consigo, rodeando a si mesmos, alguns segurando cigarros nos dedos, outros copos típicos de boteco com cerveja sem colarinho.
Voltando àqueles poucos segundos, segui meu caminho e o som desapareceu por entre os chiados de freio, buzinas de ônibus e agitação muda dos caminhantes. A cena me fez lembrar de uma música de Sixto Rodriguez, cuja história da carreira, aliás, é das mais fascinantes da música mundial.
Foi um operário da construção civil de Detroit que lançou dois álbuns de folk rock no início dos anos 70. Sem obter sucesso algum, retornou ao trabalho braçal no anonimato. Sem saber, porém, suas canções cruzaram o oceano e se tornaram hinos de resistência contra o Apartheid na África do Sul. Lá, tornou-se maior que os Beatles.
Como ninguém sabia onde estava, circulavam boatos de que havia morrido. Somente na década de 1990 é que dois fãs iniciaram uma busca obstinada e o encontraram vivendo humildemente nos Estados Unidos. Em 1998, foi à África do Sul e realizou uma turnê triunfal por estádios lotados. Sua história está registrada no documentário vencedor do Oscar de 2013, Searching for Sugar Man.
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A música de que lembrei foi A Most Disgusting Song, um folk blues narrativo em que conta que tocou em todo tipo de lugar de segunda classe, encontrando neles as pessoas sobre quem cantava. Eram um pouco ele também. Sixto tocaria naquele boteco. E as pessoas dançariam.
Na manhã seguinte, li a notícia do Trump avisando que uma civilização inteira morreria naquela noite. Lembrei do boteco, dos dançarinos, da alegria, de outra parte da música de Sixto dizendo que aquelas pessoas não sabiam onde deixaram seus sonhos.
Voltei a passar por lá ontem, no mesmo horário. Uns fiapos de sol descansavam no piso do boteco, iluminando a pista de dança. Havia apenas três dançarinas e ganidos de Staying Alive que continuaram a ecoar mesmo eu já estando longe. Sorri. Se a civilização for acabar, que seja assim.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos









