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Francisco Escorsim

Francisco Escorsim

A Paixão e as paixões

A paixão por ter razão

paixão de cristo
Detalhe de “O que Nosso Senhor viu da cruz”, de James Tissot. (Foto: Wikimedia Commons/Domínio público)

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Todo mundo já se apaixonou nesta vida. Sabemos a delícia que é quando a paixão é correspondida, nos sentimos plenos, brilhando numa alegria espontânea que ilumina toda a existência. Parece nos dar um centro e um sentido, diria que até um “eu”.

Por tender à completude, a paixão também busca o domínio. Quem está apaixonado de fato já não se governa como antes: a atenção fica sob a guarda da paixão, que também ordena todo desejo. Tudo passa a girar em torno dela. A paixão absorve, desloca, arrasta.

Quando nos damos conta, estamos rendidos e a paixão é tirana. Não raro enlouquecedora, por vezes também trágica. Estão aí Romeu e Julieta para não me deixar mentir e os incontáveis crimes passionais cometidos no dia a dia.

Não é difícil reconhecer que outras paixões operam do mesmo modo. O medo, a inveja, a ira, todas capturam a atenção, ordenam o desejo e conduzem o homem para fora de si. Toda paixão carrega essa ambivalência de absorver e desordenar, concentrar e dispersar.

Diante da inveja, da ira, do medo, da covardia, do cinismo, Jesus não se defendeu com ressentimento, não acusou, não revidou

Onde se pode enxergar isso com clareza é nos relatos evangélicos sobre a Paixão de Cristo. Neles, lemos como o medo tornou os discípulos covardes; a inveja fez dos líderes espirituais os maiores infiéis ao Deus que diziam servir; a ira arrastou a multidão excitada pelos invejosos; a ambição pelo poder lavou as mãos de Pilatos nas águas da irresponsabilidade e da injustiça.

Tudo isso cercando aquele que, embora sentindo angústia, tristeza, desamparo, não se deixou conduzir por nenhuma paixão desordenada. A paixão de Cristo é de outra ordem, é um padecimento por livre escolha, sem ser dominado pelo afeto. Uma entrega de si por amor, que nada tem a ver com a redução romântica do senso comum.

Já leu os relatos da Paixão do ponto de vista de como Jesus observava e respondia ao arrastar das paixões alheias? Diante da inveja, da ira, do medo, da covardia, do cinismo, não se defendeu com ressentimento, não acusou, não revidou, não procurou desarmar pela ameaça ou a força.

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O que fez foi mais difícil: resignou-se, calou quase sempre, falou apenas quando necessário. Encheu-se de compaixão por todos, pedindo ao verdadeiro Juiz que os perdoasse porque não sabiam o que faziam. Sabia o estrago que as paixões causam quando nos dominam. Mas não as impediu. Deixou que seguissem seu curso, mantendo sua liberdade interior e dignidade exterior. No fim, transformou o padecimento em testemunho de amor. Aliás, sabia que na sua origem a palavra martírio significava “testemunho”?

Ando a refletir sobre isso, esta postura de Jesus diante das paixões humanas durante a sua Paixão. Pensando em como nos deixamos arrastar pelas paixões políticas de hoje em dia, que podem ser resumidas em uma só: a paixão por ter razão. Ter razão não é a mesma coisa que estar na verdade. São coisas diferentes, não raro muito distantes uma da outra.

Aliás, antes do famoso versículo de João sobre a verdade que liberta, tão citado em campanhas eleitorais recentes, há outro, no mesmo Evangelho, no capítulo 14, em que Jesus diz que, antes de ser a verdade, Ele é o caminho. Ninguém chega à verdade a não ser por Ele, portanto. É preciso seguir seus passos, imitá-Lo. O que me faz retornar à meditação sobre como Ele lidou com aqueles que o condenaram, tão cheios de razão e fúria. Quem deles você está sendo? 

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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