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Francisco Escorsim

Francisco Escorsim

Sem saída

Para onde fugir, se até o Paraguai parece ter virado o Brasil?

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Protesto em Assunção contra o presidente paraguaio Santiago Peña, em meio à crise provocada pela quebra do Ueno Bank. (Foto: Juan Pablo Pino/EFE)

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Então você pensou em emigrar para o Paraguai para pagar menos imposto e ter alguma segurança jurídica. Se pudesse, já estaria até na fila esperando a vez para regularizar. Mas aí...

Aí veio a notícia de que um banco deles lá, em que 60% dos adultos do país tinham conta, foi liquidado, desencadeando uma crise assustadora que culminou na renúncia do presidente, rejeitada pelo Congresso. Agora parece que terá impeachment, e a coisa ficou tão confusa que até parece o Brasil.

Aí você é obrigado a lembrar que dinheiro é uma promessa e confiar no garantidor é essencial. Melhor pensar em países mais confiáveis, ora pois. Algum da Europa, talvez. Mas no que você começa a pesquisar...

A Comissão Europeia divulgou orientações para que a população tenha um kit emergencial capaz de garantir a sobrevivência por pelo menos 72 horas em caso de uma crise grave. Qual crise? Pode ser guerra, ataque cibernético, desastre natural, sabe-se lá. Deixemos a Europa para turismo, se ainda for possível.

Mudar de lugar, quando podemos, talvez não baste. Salvo se a rota de fuga for para dentro, para o exílio interior

Enfim, o que resta de realmente confiável? Os Estados Unidos? Mas não deixam nem entrar direito, quanto mais ficar. E se a vida de imigrantes não anda fácil por lá, imagine para patos novos! A essa altura, a suspeita desagradável vai se tornando uma constatação lamentável: talvez não exista um lugar no mundo suficientemente distante dos problemas do Brasil.

É quando percebemos que mudar de lugar, quando podemos, talvez não baste. Salvo se a rota de fuga for para dentro, para o exílio interior. Num primeiro momento, isso até pode parecer desértico e solitário. O poeta russo Joseph Brodsky, expulso de sua terra natal, conhecia bem essa experiência. Para ele, a libertação não se confunde com a liberdade. O exilado pode escapar do país, mas não de si mesmo.

Será preciso aprender a habitar a própria solidão, descobrindo nela uma fonte de vida que nenhuma mudança de endereço poderia oferecer. A poesia é excelente companhia neste exílio, música também. Já ouviu falar de Desert Blues, leitor despatriado?

Em 1979, um tuaregue chamado Ibrahim ag Alhabib ganhou uma guitarra e começou a tocar as músicas tradicionais de seu povo, exilado e disperso pelo deserto. Nos anos seguintes, passou por “campos de treinamento” na Líbia, entre homens sem país, sem casa, sem presente, esperando uma guerra acabar para descobrir o que seria do futuro.

Com outros músicos tuaregues, deu origem à banda Tinariwen, que significa “deserto”, recriando o deserto em forma de música. Escutar suas músicas é como montar um camelo e vagar pelo Saara naquele ritmo lento que, por mais que avance, parece nunca sair do lugar. Um ritmo circular que vai se tornando hipnótico, funcionando como um mantra. Uma música sem destino que aos poucos constrói o destino em si mesma. Como um oásis.

A banda permanece ativa desde então, mas em 2012 seu deserto foi dominado por um grupo jihadista que impôs a lei da sharia, proibindo cigarros, álcool e música. Um dos integrantes da banda chegou a ser sequestrado em 2013. Sem condição de permanecer, viajaram para outro deserto, o de Joshua Tree, nos EUA, onde gravaram novo disco.

Há coisas das quais podemos fugir e outras que nos acompanharão para onde formos

Foi também em consequência da violência que tomou o norte do Mali que surgiu outra banda de blues do deserto. Fugindo do norte do país e se refugiando mais ao sul, os rapazes decidiram criar a banda para “recriar aquela atmosfera perdida e fazer com que todos os refugiados revivam aquelas canções do norte”. 

A banda se chama Songhoy Blues e seu primeiro disco, lançado em 2015, chama-se Music in Exile. Música no exílio. Não poderia haver título melhor. A primeira música, a hipnotizante Soubour, tem um título que significa “paciência”. É uma convocação a seus irmãos e irmãs para manterem a paciência porque a paciência traz a paz. Paciência, repito. Não resignação, não conformismo, mas paciência: a virtude de suportar o tempo das coisas que não podemos apressar.

Quem tem ouvidos, ouça os músicos do deserto. Há coisas das quais podemos fugir e outras que nos acompanharão para onde formos. Por isso, ficando ou emigrando, convém examinar o deserto que levaremos na bagagem. E verificar se temos paciência suficiente para fazer dele um lugar habitável.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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