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Renan Santos, candidato presidencial do partido Missão, foi o quarto colocado, com 2,24% dos votos, atrás até de um escritor de autoajuda. E o partido fez votação pífia no geral também: elegeu apenas duas pessoas entre os 521 candidatos que lançou e não passou da cláusula de barreira.
Logo depois da apuração, Renan abriu uma live no YouTube. O esperado seria a desforra amarga de um derrotado, pois a amargura já era a tônica na última semana da eleição. Não foi o que veio. Distante do sujeito raivoso que pareceu ser durante a campanha, apareceu sereno, maduro, lúcido, fazendo uma boa análise das razões da derrota e do resultado da eleição como um todo.
A tese dele tem nome: avatares digitais. E o lastro está em Guy Debord, o francês de esquerda que em 1967 escreveu A Sociedade do Espetáculo e definiu, na sua tese de número 4, que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens”. Debord falava de televisão e revista; mal sabia o que vinha.
Cada um de nós teria se tornado um personagem do algoritmo das redes sociais, e a vida concreta passou a ser determinada por esse avatar, e não o avatar pela vida
Renan atualizou a tese: hoje as relações sociais não são apenas mediadas por imagens, acontecem dentro delas. Cada um de nós teria se tornado um personagem do algoritmo das redes sociais, e a vida concreta passou a ser determinada por esse avatar, e não o avatar pela vida. Sua representação define quem você é, em resumo. Não espanta, então, que os mais votados na eleição sejam avatares digitais bem-sucedidos como tais.
É o que explicaria por que o morador do Capão Redondo, com a violência e o transporte que lhe faltam, e o morador dos Jardins, com angústias bem diferentes, votaram no mesmo candidato em São Paulo: Lucas Pavanato, um dos mais votados do país. Eleitores unidos não pela vida concreta, que é oposta, mas pelo sistema relacional das imagens, que é o mesmo para ambos.
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Renan apresentou um vídeo do político paulista Alexandre Leite, do Centrão, devastado nas urnas pelos candidatos-influencer. Nele, o representante da velha patrimonialidade diz, quase sem ironia, que quando o pneu da Kombi furar, quando a mãe precisar de vaga no hospital, o eleitor deve procurar o gabinete de Pavanato, de Erika Hilton, de Campopiano, outros eleitos que seriam avatares digitais e mais nada.
O presidente do partido Missão chamou o vídeo de “a análise política involuntária mais sofisticada do Brasil hoje”. Porque ela revelaria o maior problema de o mundo real ter sido engolido pelo mundo das imagens: o avatar não tem o que fazer quando a pessoa real sente dor de barriga.
Difícil discordar disso. Mas há uma contradição óbvia na análise. O sujeito que denuncia a política-espetáculo só existe por causa dela também. Construiu sua campanha assim, com fotos em poses heroicas, memes, lives, ativismo digital da militância etc. E Renan assume essa contradição: “eu também dependo disso, fomos vítimas”. Mas essa confissão, por mais sincera que seja, é também um novo espetáculo de um avatar que tenta mudar de skin. Fez da derrota um conteúdo, transformando-a em martírio de minoria lúcida. No espetáculo, ter razão e ser hipócrita deixam de ser contraditórios.
O sujeito que denuncia a política-espetáculo só existe por causa dela também. Construiu sua campanha assim, com memes e ativismo digital da militância
Não conquistou eleitores (ainda), mas sabe que precisa antes angariar mais seguidores, likes, engajamento. Não à toa, em vários momentos se interrompe em suas lives e pergunta a sua equipe técnica quantas pessoas estão assistindo, se está subindo o número de views, essas coisas. No fundo, é no que a pessoa por trás desse avatar realmente se interessa.
Termino com esta inquietude: se quem diagnostica o espetáculo não consegue escapar dele, que esperança resta para quem nem o percebe? A dor de barriga. O leitor pode dar um like nesta crônica, se quiser. Fará diferença para o algoritmo, para mim também. Mas para a sua dor de barriga, nenhuma.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Francisco Escorsim é formado em Direito e Filosofia. Atua como professor e escritor de filosofia e literatura. É coautor de várias obras, entre elas "A Formação do Imaginário", “Mapa da maturidade: do naufrágio ao resgate” e "Arrume seu Quarto: um Guia Para Entender Jordan Peterson". **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




