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Francisco Escorsim

Francisco Escorsim

Tristeza

Você já sofreu em paz?

avenida tristeza solidão
O sertão urbano é diferente, cimenta a tristeza em indiferença. (Foto: Imagem criada utilizando Whisk/Gazeta do Povo)

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A tristeza não era minha, mas imperava. Caminhava procurando pelas sombras no centro de Curitiba. Fazia um calor imortal. Era Quarta de Cinzas, mas o tumulto urbano já estava por toda parte.

Pus os fones, abrigando-me na Bachiana n.º 4, de Villa-Lobos. O prelúdio surgiu como alguém entrando em um deserto. A luminosidade do sol não encantava, imolava. As sombras não ofereciam alívio. Havia em tudo uma gastura, um cansaço mortal. A tristeza ganhava forma.

Sem resistir, deixei-me conduzir pela música através do sertão que há dentro da gente. Mas o vazio interior nunca está despovoado de ruídos e distrações. Não lutei contra isso também. Apenas me calei, deixando tudo o mais falar, deixando o coração sofrer em paz. 

O sertão urbano é diferente, cimenta a tristeza em indiferença

A brutalidade do concreto cercava a alma por todos os lados na Avenida Marechal Deodoro. Os edifícios imensos, de paredes laterais nuas, salvo uns poucos que começam a receber telas gigantes de LED. A prefeitura quer criar sua Times Square, como se o Centro precisasse de mais entulhos, de mais distrações.

O sertão urbano é diferente, cimenta a tristeza em indiferença. Não se dá ouvidos aos megafones das lojas de cosméticos anunciando seus descontos, não se preocupa com o enxame humano se trombando nas esquinas, não se atrai pelas vitrines vistosas nem teme as dezenas fechadas, à venda. Não percebe os telões de LED, tampouco o azul do céu que escapa por entre os prédios.

Mas o segundo movimento da música foi se sobrepondo mansamente, transfigurando tudo. A mesma luminosidade, que pouco antes parecia ter recoberto tudo de melancolia, agora suavizava a arquitetura, emoldurando a cidade no azul do céu, subitamente protagonista.  

Do meio do sertão, reconheço a referência, no terceiro movimento, à cantiga popular Caicó: “Ó, mana, deix’eu ir / Ó, mana, eu vou só”. As sombras foram sendo preenchidas de doçura. Uma saudade de não sei quê refrescou o tempo. Vai ver a tristeza é uma nostalgia do Paraíso.

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Quando qualquer coisa se anunciava no início do último movimento, como um encontro em forma de cruz, cheguei ao meu destino. A música ficou interminada. Fez sentido, ainda é começo de Quaresma.

Com as cinzas sobre a cabeça, voltei. Quase comprei um picolé de limão, ainda bem que lembrei do jejum. Aos poucos, os ruídos da cidade retomavam seu espaço. A luminosidade enfraquecia, as sombras se agigantavam.

O brilho dos aparelhos de tevê expostos nas vitrines das lojas de departamento atraíam. Sempre o mesmo canal, com cenas da apuração do desfile de carnaval carioca. Nas legendas, lia-se pílulas de notícias do dia: banco Master, STF, nova operação da PF, e... e ao pó retornei.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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