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Corri para rever Apocalypto quando o filme entrou no catálogo do Prime Video. Vinte anos depois, o impacto permanece. Na época, vi no cinema. Um privilégio. Hoje compreendo melhor a trama e suas ambiguidades. Em 2006, o filme foi acusado de espetáculo de violência gratuita, falsificação histórica e as tolices de sempre. O tempo foi mais lúcido que a crítica: Mel Gibson filmou uma análise rigorosa da relação entre poder político, medo coletivo e a necessidade humana, aparentemente irresistível, de uma vítima. Os deuses têm sede.
A cidade maia está em agonia antes da primeira cena de sacrifício. A peste avançou sobre os campos e os corpos – e, na cosmologia maia, doença e colheita destruída eram recado dos deuses. Segundo o Popol Vuh, o cosmos exigia sangue humano para se sustentar. Kukulcán, a serpente emplumada associada ao ciclo do sol e da chuva, precisava ser alimentada. Sem oferenda, caos.
O sacerdote ocupa, nesse sistema, posição decisiva. Ele interpreta o colapso e prescreve o remédio: sangue humano. A praga indica ruptura do pacto entre humano e divino; restabelecê-lo exige vítimas, e vítimas em quantidade. Por isso as aldeias da floresta são atacadas. Há necessidade litúrgica. Matar em público, diante de multidões que acreditavam genuinamente na dependência cósmica do sangue, constituía oferenda aos deuses. A peste legitimava o poder. O poder prometia conter a peste. O ciclo se fechava sobre os mortos.
Mel Gibson filmou uma análise rigorosa da relação entre poder político, medo coletivo e a necessidade humana, aparentemente irresistível, de uma vítima
Pata de Jaguar, o protagonista, vive fora da cidade e fora dessa hierarquia. Quando capturado e levado ao altar, é salvo por um eclipse solar, interpretado pelos sacerdotes como sinal de satisfação divina. O fenômeno astronômico que o sistema sacrificial pretendia evitar interrompe o próprio ritual. A cosmologia sofre um curto-circuito no instante em que deveria confirmar sua coerência. Assistam a como toda essa trama acontece pela perspectiva do valente Pata de Jaguar. É de tirar o fôlego. Vale a pena.
O ponto central está no mecanismo político que essa teologia organiza. O sacrifício canaliza a ansiedade coletiva para um alvo visível. A vítima assume função simbólica. Sua morte brutal fornece explicação simples para fenômenos cosmológicos complexos. Quem conduz o rito sai fortalecido; a multidão experimenta alívio; o medo difuso retorna com forma definida. Classificar isso como barbárie primitiva produz conforto moral idiota. Trata-se de solução política para insegurança coletiva. Sua eficácia explica sua reaparição sob formas diversas, inclusive sob formas que seus praticantes não reconhecem como sacrifício.
Considere, não tão distante da gente, a guilhotina. Durante a Revolução Francesa, ela atuava como instrumento jurídico e como símbolo da soberania popular. Do Iluminismo. Nada como matar em nome da razão. Os deuses da revolução também tinham sede. A repetição das execuções gerou normalização. Cada morte reafirmava o mito de regeneração do corpo social. Eliminar inimigos internos passou a figurar como condição de sobrevivência da República. O vocabulário invocava razão, igualdade e justiça. A estrutura permanecia próxima à do altar maia: era necessária uma vítima exemplar que desse rosto ao caos e permitisse ao grupo reconhecer-se purificado pela punição.
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O século 20 ampliou o padrão em escala industrial e introduziu variação decisiva. Regimes totalitários converteram o sacrifício episódico em política permanente. O que, entre os maias, se sustentava em cosmologia explícita, nos totalitarismos assumiu forma de engenharia social. René Girard descreveu esse mecanismo com precisão: comunidades em crise transferem tensões internas para o indivíduo ou um grupo específico; a punição produz alívio e sensação de unidade; o processo se repete quando novas tensões surgem. A ordem social apoia-se na violência sacrificial. Como as tensões reaparecem, o ciclo se perpetua.
O mundo digital acelerou o mecanismo e lhe deu aparência higiênica. A destruição de reputação, o linchamento público e a exclusão coordenada operam como rituais de punição exemplar. O altar permanece; mudou o material. O grupo deseja punição tanto quanto diante da pirâmide; agora a linguagem invoca justiça, democracia ou responsabilidade social. A dinâmica continua estruturada pela necessidade de expiação coletiva.
O filme expõe a permanência do mecanismo sacrificial ao longo das civilizações e sugere que sua superação depende de algo mais profundo do que mudança de regime
Pata de Jaguar alcança o litoral e avista as embarcações espanholas acompanhadas por jesuítas. Mel Gibson, católico tradicionalista que três anos antes filmara A Paixão de Cristo, sabia o peso simbólico desse horizonte. A cruz carregada pelos missionários pertence à tradição teológica precisa: o sacrifício de Cristo possui caráter único e redentor. Para Girard, essa morte revela a inocência da vítima e expõe a mentira fundadora da violência sagrada.
As mesmas embarcações trazem conquista territorial, exploração e epidemias. Libertação espiritual e dominação imperial chegam juntas, no mesmo casco de madeira, conduzidas pelos mesmos homens. Gibson preserva a tensão porque ela pertence à história. A tradição que proclama o fim do sacrifício alcançou o Novo Mundo acompanhada por estruturas imperiais. A cruz anuncia ruptura do ciclo sacrificial; a espada reinscreve o ciclo em nova moldura política.
O espectador permanece suspenso entre essas duas linhas históricas. O filme evita conforto catequético e evita condenação simplista. Ele expõe a permanência do mecanismo sacrificial ao longo das civilizações e sugere que sua superação depende de algo mais profundo do que mudança de regime. Nessa recusa de simplificação reside a grandeza de Apocalypto.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








