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Em algum momento de 2024, um estúdio da Nike em Portland decidiu que a camisa reserva da seleção brasileira para a Copa de 2026 poderia ser vermelha. Entre esquerdistas, a justificativa circulou logo depois: o pau-brasil, madeira de coloração avermelhada, deu nome ao país. O argumento é etimologicamente correto. É também, do ponto de vista da identidade cultural, inútil. A camisa da seleção brasileira é amarela. Assim como a do Palmeiras é verde a do Corinthians, branca e preta...
Antes de continuar, não duvide: a camisa era bonita. O modelo vazado tinha equilíbrio, as proporções funcionavam, o vermelho com detalhes em preto tinha dignidade gráfica. O problema nunca foi estético. Sejamos honestos, o problema é outro. Ele revela um tantinho de esquecimento e hipocrisia.
O pau-brasil foi o primeiro produto de exportação do território que viria a se chamar Brasil. Os portugueses derrubaram as árvores, os franceses contrabandearam o que puderam, e a madeira foi embarcada para tingir tecidos na Europa. O país nem existia enquanto o recurso que lhe daria o nome desaparecia no Atlântico. Invocar o pau-brasil como fundamento da identidade nacional é invocar o momento em que não havia nação. Havia madeira e havia colonizador. O único período em que o vermelho do pau-brasil teve relevância histórica concreta foi quando o Brasil pertencia a outro. De repente, a esquerda esqueceu o termo: branco colonizador.
O amarelo da camisa da seleção não remete ao ouro; remete a Pelé, a 1970, a gerações de torcedores que aprenderam a reconhecê-lo como “nosso” antes de saber explicar por quê
Quando o país se constituiu, escolheu outras cores. O amarelo e o verde não vieram de etimologia: vieram de séculos de uso, de bandeiras, de uniformes, de memória. Discutir a origem do amarelo na bandeira nacional pode ser falácia genética. O amarelo da camisa da seleção não remete ao ouro que os portugueses foram buscar e encontraram em quantidade insuficiente. Remete a Pelé, a 1970, a gerações de torcedores que aprenderam a reconhecê-lo como “nosso” antes de saber explicar por quê. Símbolos são história sedimentada e história não se refaz por decreto etimológico.
Michel Oakeshott distinguiu, com a precisão que os filósofos políticos anglófonos reservam para as coisas simples, entre herança viva e patrimônio administrado. A herança viva é o conjunto de práticas, lealdades e significados que uma comunidade carrega sem precisar justificá-los. O patrimônio administrado é o mesmo material tratado de fora, catalogado, posto a serviço de um propósito externo à comunidade que o gerou. Longe do conteúdo, a diferença entre os dois está em quem detém a autoridade sobre o significado.
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O argumento do pau-brasil é patrimônio administrado. A árvore estava lá, disponível, com seu vermelho e sua etimologia intactos. Ninguém a estava discutindo. Ela foi evocada por esquerdistas esquecidos depois que a decisão de marketing já estava tomada, para dar verniz de necessidade histórica ao que era, na origem, uma escolha comercial. O raciocínio corre assim: o Brasil se chama Brasil por causa da madeira; a madeira é avermelhada; logo, o vermelho é brasileiro. A lógica é impecável. O problema é que identidade cultural não se deduz por silogismo, e nenhuma comunidade que funcione como tal aceita que lhe digam quem ela é com base em botânica colonial.
Há, porém, uma segunda camada – e aqui o assunto fica mais interessante. O vermelho tem, no imaginário político brasileiro, uma filiação conhecida. É a cor do PT, dos movimentos de esquerda – e de um século de disputas políticas que o torcedor brasileiro não precisa de briefing do marketing para reconhecer. Durante os anos do governo Bolsonaro, a camisa amarela foi apropriada pelo campo oposto com uma intensidade que transformou uma peça de torcida em declaração política. Pegou nas redes: nossa camisa jamais será vermelha – a ameaça do comunismo codificada na cor do uniforme e no imaginário do bolsonarismo. O torcedor que não queria ser confundido com bolsonarista deixou de usar o amarelo. A camisa azul poderia ser um refúgio.
Identidade cultural não se deduz por silogismo, e nenhuma comunidade que funcione como tal aceita que lhe digam quem ela é com base em botânica colonial
O vermelho resolve esse nó, e o pau-brasil oferece a cobertura histórica necessária para que a solução pareça cultural em vez de política. A madeira que o colonizador embarcou para a Europa volta, desta vez embarcada de Portland, como argumento de brasilidade e convocada no exato momento em que serve para deslocar um símbolo incômodo. Que o pau-brasil tenha passado cinco séculos como matéria-prima de exploração, ausente de qualquer debate sobre identidade nacional, é detalhe que o briefing não precisa registrar.
O torcedor recusou. Noventa por cento das menções nas redes foram negativas. A CBF vetou a camisa vermelha. Depois veio o “Vai, Brasa” estampado no meião – pauta de marketing que a designer responsável, brasileira radicada nos Estados Unidos, defendeu dizendo que “se escuta nos estádios e na rua”. O “Brasa” também foi vetado. No meião ficou “Brasil” – palavra sem criatividade, sem campanha, sem conceito. Só o nome. O nome e as cores do que a seleção brasileira, de fato, representa.
O resultado é uma identidade definida pelo que rejeita. O Brasil da Copa de 2026 sabe que não é vermelho e que não é “Brasa”. A camisa tem Jordan, que o presidente da CBF aprovou como gesto de “internacionalização”. Michael Jordan assina o uniforme de um país que recusou sua própria árvore e sua própria gíria. Há algo preciso nessa imagem: uma nação cujo símbolo mais reconhecível no mundo é gerenciado por uma empresa americana que não sabe – e não precisa saber – o que o pau-brasil não tem a ver com a seleção brasileira.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








