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Francisco Razzo

Francisco Razzo

Francisco Razzo é professor de filosofia, autor dos livros "Contra o Aborto" e "A Imaginação Totalitária", ambos pela editora Record. Mestre em Filosofia pela PUC-SP e Graduado em Filosofia pela Faculdade de São Bento-SP.

Questão de vida ou morte

O silêncio do dia seguinte à eleição

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No dia seguinte à eleição, as mesmas cadeiras estarão nos mesmos lugares, e os mesmos problemas continuarão lá para serem resolvidos, independentemente do voto de cada um. (Foto: StartupStockPhotos/Pixabay)

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Considero o futebol superior à política. Não por ser mais inteligente, que não é. Um clássico mobiliza paixões que comício nenhum alcança: tem gente que chora, gente que reza, gente que passa a semana sem dormir. Só que o jogo acaba no apito. A derrota pode ficar anos na memória do torcedor e na piada do vizinho sem cobrar vingança nem pedir perseguição, porque o time que ganhou não passa a decidir o imposto de quem perdeu.

A eleição pede outra coisa do eleitor. Ao longo da campanha, o voto deixa de ser a escolha entre dois governos possíveis, ambos imperfeitos, para ser apresentado como decisão sobre a salvação ou a ruína do país. Há candidatos que ameaçam regras de fato; o eleitor tem o direito de pesar esse risco. O salto acontece quando o risco é tomado por certeza, quando cada lado convoca para uma guerra espiritual e quem vota do outro lado passa por cúmplice da ruína. A paixão segue de torcedor, agora com consequências imaginadas de juízo final.

Então chega a segunda-feira. O mundo não acabou nem foi salvo. Na redação, no escritório, no balcão da loja, na sala dos professores onde eu tomo o meu café, as mesmas pessoas ocupam as mesmas cadeiras, a mesma pauta espera a mesma reunião; o apocalipse anunciado durante meses termina na garrafa térmica com o café de ontem. A guerra acabou no papel. Como os combatentes continuam vizinhos de mesa, é no dia seguinte que a eleição mostra o que fez com eles.

Ao longo da campanha, o voto deixa de ser a escolha entre dois governos possíveis, ambos imperfeitos, para ser apresentado como decisão sobre a salvação ou a ruína do país

O primeiro resto que a guerra deixa é a suspeita. Já fui tomado por alguém que esconde o que pensa, experiência que tem lá sua utilidade porque ensina como funciona a acusação. Se o voto é profissão de fé, o voto contrário é heresia; a pior heresia, a escondida, é aquela contra a qual não há defesa possível. Se nego, disfarço. Se critico o candidato que me atribuem, faço estratégia. Se calo, tenho o que esconder. O outro passa a saber melhor do que eu o que eu sou.

Diante da suspeita, resta calar. O silêncio, então, é lido como prova. Há, porém, dois silêncios em qualquer ambiente de trabalho depois da eleição: o de tato, que é a prudência de quem prefere continuar trabalhando a vencer a discussão, e o de quem já decidiu e apenas dispensou o trabalho de dizer. Vistos de fora, os dois têm a mesma cara, porque a boca fechada pode ser discrição, medo, cansaço ou desprezo, coisa que quem olha não distingue. Há quem cochiche, num escritório cheio, aquilo que não diria em voz alta. O cochicho é o que a suspeita chamaria de disfarce. Também é confiança: a frase foi dita a uma pessoa, não à sala.

Resta a piada, contra a qual não tenho nada. No futebol, quem provoca e quem é provocado continuam no mesmo jogo, à espera da próxima revanche, que ainda será esporte. O pênalti perdido rende zoeira por anos e não custa mais nada a quem o perdeu. A piada do dia seguinte da eleição já decidiu em quem você votou. Sua origem é outra. Quem passou meses acreditando que o resultado contrário seria o fim do mundo sente, quando a apuração termina, o alívio de quem escapou da morte, e o riso descarrega o medo acumulado na guerra espiritual. Não preciso supor vingança em ninguém: basta ter acreditado no apocalipse. Só que esse alívio tem um efeito que a zoeira do estádio não tem. Para quem se livrou do fim do mundo, o que acontecer ao outro lado parece pouca coisa. Se a mesma medida atingisse os seus, ele a chamaria de abuso; contra o outro lado, ela passa com uma risada.

Entre estranhos, nada disso teria importância. Entre colegas que se respeitam, mostra até onde a política militante consegue entrar. Respeitar alguém, aqui, quer dizer coisa miúda: confiar no trabalho dele, levar a sério o que ele pensa sobre outros assuntos. O mesmo respeito me obriga a levar a sério o voto que ele deu, de modo que também desconfio. Quando o voto passa a decidir o resto, a política saiu do lugar dela.

Quem espera do governo a salvação do país vê no voto contrário um obstáculo, obstáculo que tem rosto e senta na cadeira ao lado

A raiz, penso, está na esperança de salvação depositada na política. Quem espera do governo a salvação do país vê no voto contrário um obstáculo, obstáculo que tem rosto e senta na cadeira ao lado. Quem espera do governo apenas que faça pouco estrago vê no voto contrário outra avaliação de riscos, feita por um concidadão que pode estar errado. A divergência continua séria: há bens em disputa que muita gente considera inegociáveis, de modo que o medo de quem teme o outro governo nem sempre é paranoia. Mas a esperança transforma cada divergência numa questão de vida ou morte. Diante da morte, o colega some atrás do inimigo. Quem espera menos do governo tem mais espaço para o colega.

Não escrevo de fora. A convocação me pegou de raspão. Foi o bastante para eu conhecer a vontade de vencer a discussão e a tentação de achar que sei o que o outro pensa quando ele fica calado. Diante de quem se apresenta como soldado de uma causa, é fácil vê-lo só como soldado. A suspeita que eu recusava quando apontada para mim aparece sem esforço quando sou eu quem olha. Acredito no que ele me mostra. O que ele guarda não é território meu. Posso dizer a ele que o voto foi um erro grave, desde que o trate como alguém capaz de me responder.

Sobra pouco. A política militante eu não levo para a mesa do café. Na terça-feira, a garrafa térmica continua no mesmo lugar. Alguém vai ter de perguntar ao outro se ainda tem café.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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