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Francisco Razzo

Francisco Razzo

Francisco Razzo é professor de filosofia, autor dos livros "Contra o Aborto" e "A Imaginação Totalitária", ambos pela editora Record. Mestre em Filosofia pela PUC-SP e Graduado em Filosofia pela Faculdade de São Bento-SP.

Nossa Senhora Aparecida

Lula decreta: todas as “fake news” são iguais, mas algumas são mais iguais que outras

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Em entrevista à Band News, Lula insistiu nas fake news sobre Nossa Senhora Aparecida. (Foto: Ricardo Stuckert)

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Se eu tivesse de explicar pós-verdade numa sala de aula, que é onde trabalho, usaria como exemplo 30 segundos da entrevista que o presidente deu à Band News no domingo.

Lula abriu a conversa indignado: mexer com Nossa Senhora Aparecida “não é aceitável”. A jornalista Adriana Araújo reagiu com espanto: “Mas foi fake news, né, presidente?” Foi. O “né” pedia que ele confirmasse uma correção já feita. O boato atribuía a Flávio Bolsonaro um projeto que trocaria “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos”. O projeto existiu. Era de 2007 e a Câmara o arquivou em 2008. A GloboNews, origem da confusão – quem diria? –, pediu desculpas na mesma noite.

Lula respondeu que não sabia se era fake news. Devolveu como dúvida o que tinha chegado como constatação. Enquanto a jornalista ainda lembrava a data do projeto e o pedido de desculpas, ele anunciou: “O dado concreto, o dado concreto é o seguinte”. Esperou que ela terminasse. Então completou: “O dado concreto é que isso tá na rede social. Muito forte”.

Estava mesmo. Para uma militância que conhece o calendário, o boato só precisa circular até 4 de outubro; a correção pode chegar depois. Em poucas horas, a fala da emissora, que não citava Flávio, já corria com o sobrenome Bolsonaro, empurrada por perfis de esquerda, entre eles o de um servidor da Secom, segundo levantamento publicado nesta Gazeta.

Lula ficou aquém da mentira: disse “eu não sei”. Esse desinteresse é inimigo maior da verdade que a mentira

Minha aula começaria pela diferença entre mentir e o que Lula fez. O mentiroso sabe onde está a verdade e fala na direção contrária; depende dela como o falsificador depende da nota verdadeira. O filósofo americano Harry Frankfurt, num ensaio de título impublicável neste jornal, reservou outro nome para quem fala sem se importar se o que diz corresponde aos fatos. Por esse critério, Lula ficou aquém da mentira: disse “eu não sei”. Quem declara não saber e chega à mesma conclusão está avisando que a pergunta não tinha importância. Para Frankfurt, esse desinteresse é inimigo maior da verdade que a mentira. Lula desprezou a verdade diante das câmeras.

A segunda parte seria de análise conceitual. “Dado concreto” é expressão de quem confere. O dado é o que resiste à opinião; daí a autoridade que a expressão empresta a quem a usa. Lula guardou a autoridade e trocou o conteúdo. A frase tem até a forma de uma definição, “o dado concreto é”; o que vem depois da cópula é a circulação, com a concretude a cargo de um advérbio de intensidade, “muito forte”, que é como se descreve o sinal do celular. O filósofo americano Charles Stevenson deu nome à manobra: definição persuasiva, que conserva o prestígio de uma palavra e troca, sem aviso, aquilo que ela designa. A pós-verdade dispensa a mentira. Basta que a pergunta sobre o fato perca a função de decidir.

A terceira parte da aula eu tiraria de A revolução dos bichos. Os mandamentos da granja estão pintados na parede do celeiro e, ao longo do livro, vão ganhando palavras, acrescentadas de noite pelos porcos, que aprenderam a ler antes dos outros. A fraude conta com a plateia: bichos que mal soletram não têm como conferir o que a parede dizia ontem. Uma velha égua lembra que o quarto mandamento proibia dormir em cama; pede que leiam para ela. A parede diz “em cama com lençóis”. Ela não se lembrava dos lençóis. Orwell conclui por ela: as it was there on the wall, it must have done so. Se estava na parede, devia ter estado sempre. Troque a parede pelas redes sociais e está aí o dado concreto de Lula.

A explicação para os lençóis aparece numa noite de luar. Os bichos encontram Garganta, o porco que fala pelo regime, caído ao pé de uma escada quebrada, perto de um pincel e de uma lata de tinta branca virada. Weber diria que Garganta pertence ao quadro administrativo, o grupo de pessoas que sustenta a dominação no dia a dia. Os cães de Napoleão cuidam da força; Garganta, da crença na legitimidade. O mandamento que proibia matar outro animal, a essa altura, já ganhara duas palavras: “sem causa”.

A esquerda brasileira passou anos pintando na parede um mandamento sobre notícias falsas. O combate às fake news rendeu um inquérito aberto de ofício por Dias Toffoli em 2019, entregue sem sorteio a Alexandre de Moraes. A esquerda aprendeu a chamar os dois de “trincheira da democracia”. Em fevereiro deste ano, Lula pediu que 2026 fosse “o ano da verdade”: “Quem mentir, tem de desmascarar”. E mais: “Não pode ver uma mentira no celular e deixar barato”.

Em setembro, com a mentira desmascarada diante dele, respondeu que não sabia. O mandamento continua na parede, com as duas palavras de Garganta: nenhum bicho espalhará notícia falsa sem causa. A uma semana da eleição, causa não falta. Todas as fake news são iguais, mas algumas são mais iguais que outras.

O mandamento continua na parede, com as duas palavras de Garganta: nenhum bicho espalhará notícia falsa sem causa. A uma semana da eleição, causa não falta

Faltava o pincel do Supremo. Na sexta, André Mendonça, no TSE, mandou o humorista Antonio Tabet apagar um post segundo o qual “a família miliciana” resolveu “atacar Nossa Senhora Aparecida”. Proibiu também posts semelhantes. No domingo, Flávio Dino, indicado por Lula ao Supremo, desfez tudo numa decisão individual.

A tese de Dino, a de que o Estado só intervém no que se publica em caso excepcional, é boa; proibir posts que ainda não existem se parece com censura prévia. Só que a tese chegou num domingo, dois dias depois, para proteger um post de premissa falsa, em que o ministro não viu ilicitude sem “adequada instrução processual”. Bastava a página da Câmara. Napoleão, o porco que tem sempre razão e que na granja acabou com os debates de domingo, disse: liberdade de expressão, claro. A regra muda conforme o porco que pega o pincel.

No fim do livro, os bichos se juntam à janela da casa da fazenda, onde os porcos jogam cartas com os homens. A velha égua passa os olhos cansados de um rosto para outro. Orwell termina numa frase: already it was impossible to say which was which. A esquerda que passou anos denunciando a mentira na rede do adversário chegou à mesa de jogo. Olho de fora, com a vista tão cansada quanto a da égua. Já não distingo quem denunciava a mentira de quem a espalhava, os porcos dos homens, os homens dos porcos.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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