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A premiação de O Agente Secreto poderia figurar como vitória do cinema brasileiro. O problema começa quando diretor e ator principal decidem confiscar a recepção da obra.
Nas entrevistas após a cerimônia, Kléber Mendonça Filho e Wagner Moura definiram pertencimento ideológico, nomearam adversários e traçaram suas fronteiras simbólicas. O diretor declarou que o Brasil sofreu “guinada drástica à direita”, chamou Jair Bolsonaro de “irresponsável de forma épica” e situou o cinema como “expressão de lutos” coletivos. Wagner Moura foi além: classificou o ex-presidente como “fascista de extrema direita” e definiu o filme como “manifestação física dos ecos da ditadura”.
Tudo isso pode ser verdade. Ambos têm todo direito de manifestar essas posições. A questão aqui é em outra: como essas declarações delimitam a representação do filme. A partir daquele instante, O Agente Secreto deixou de representar o Brasil para representar a tribo ideológica de seus criadores.
Cinema é arte; arte articula sensibilidades, afetos, perspectivas. Mesmo quando trata de dramas políticos universais, o discurso ideológico dos criadores fixa limites à recepção. A obra ganha essa moldura prévia que só agrada aos seus. O espectador já sabe de que lado deve ficar antes de assistir.
A partir das entrevistas de Mendonça Filho e Moura, “O Agente Secreto” deixou de representar o Brasil para representar a tribo ideológica de seus criadores
Ora, quem disser que detestou o filme enfrentará o constrangimento peculiar. Dizer que o filme é ruim soará como posicionamento político. A discordância estética carrega suspeita de filiação. É quase como afirmar: “Não gosto de Guernica”, e precisar explicar, antes de tudo, que a discordância estética nada tem a ver com simpatia pela barbárie. Isso acontece porque a obra deixa de circular como objeto estético aberto e se converte em teste de lealdade.
O texto de Eliane Cantanhêde no Estadão demonstra isso melhor do que qualquer outro. A colunista afirmou que o cinema nacional “está lavando a nossa alma” e projeta efeito eleitoral favorável a Lula. Comparou o momento ao uso da Copa de 1970 pela ditadura Médici. Segundo ela, os filmes fortalecem o “confronto entre ditadura e democracia” e entre os governos Bolsonaro e Lula.
Independentemente da opinião dela a respeito do que significa ditatura ou democracia, a analogia ignora diferença sociológica elementar. Futebol pertence a todas as camadas sociais porque mobiliza paixão orgânica de quem realmente decide eleição. A Copa de 70 entrou nas casas, nos bares, nas fábricas. O operário que acordava às 5 da manhã vibrava com Pelé tanto quanto o empresário paulista.
Já o cinema brasileiro contemporâneo sobrevive como entretenimento de elite, restrito a nichos de gente fechada em si que só consome os próprios dogmas. O filme circula em salas de arte, ganha resenhas em suplementos culturais, conquista prêmios internacionais. Quem frequenta essas salas já votou; quem lê essas resenhas já decidiu. O impacto no “humor nacional” existe apenas dentro da aristocracia tribal que celebra o filme como panfleto. Fora dela, ninguém está nem aí.
A obra funciona como capital político; críticos e espectadores calculam dividendos eleitorais antes de emitir juízo. A pergunta “o que você achou do filme?” chega contaminada. Exige posicionamento prévio.
Primeiro, os autores declaram a chave de leitura correta. Segundo, analistas como Cantanhêde incorporam essa chave como critério de legitimidade e projetam seus dividendos políticos. Quem rejeita a obra passa a ser visto como alguém que rejeita os valores que ela supostamente encarna. Criticar o filme soa como apostasia.
O Agente Secreto pode ser ótimo filme. Pode ter direção impecável, fotografia refinada, roteiro inteligente. Tudo isso continua possível. Mas as entrevistas de Mendonça Filho e Wagner Moura impuseram filtro prévio. Agora o espectador assiste ao filme já sabendo qual postura se espera dele.
Cada obra confinada ideologicamente reduz o espaço comum da cultura. Transforma a sala de cinema em assembleia partidária
Essa situação revela paradoxo curioso. Os autores que mais desejam controlar o sentido da obra são justamente quem mais a fragiliza. A tentativa de blindar o filme contra leituras indesejadas acaba confinando-o dentro de limites estreitos.
Resta saber se diretor e ator consideram esse preço aceitável. Se preferem ter filme celebrado pela tribo ideológica a ter filme discutido pela cidade inteira. A resposta já foi dada nas entrevistas. Eles escolheram o marcador de pertencimento.
O cinema brasileiro perde com isso. Perde porque cada obra confinada ideologicamente reduz o espaço comum da cultura. Transforma a sala de cinema em assembleia partidária. Cobra ingresso e filiação simultâneos.
Se o objetivo era fazer instrumento eleitoral – como interpreta Cantanhêde –, missão cumprida. Só exige honestidade: assumir a função pedagógica, abrir mão da pretensão artística, aceitar que o filme valha enquanto durar o debate político que o gerou. Depois, esquecimento.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos




