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Francisco Razzo

Francisco Razzo

Francisco Razzo é professor de filosofia, autor dos livros "Contra o Aborto" e "A Imaginação Totalitária", ambos pela editora Record. Mestre em Filosofia pela PUC-SP e Graduado em Filosofia pela Faculdade de São Bento-SP.

Identitarismo

“Parditude” e a libertação paradoxal das políticas identitárias

A rigidez dos termos identitários raciais na academia fez mais uma vítima. (Foto: Imagem criada com Google Gemini)

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Beatriz Bueno, ex-mestranda da Universidade Federal Fluminense, foi desligada do programa em dezembro de 2025. O ato administrativo aponta reprovação em disciplinas obrigatórias e descumprimento de exigências acadêmicas. A narrativa pública que ela construiu segue outra direção: racismo estrutural, perseguição institucional, adoecimento psíquico. Entre atas e relatos pessoais, forma-se um impasse típico do nosso tempo. O ponto decisivo, porém, está fora dessa disputa factual. O caso só adquire dimensão pública porque transita pelas franjas do identitarismo.

Beatriz desenvolveu pesquisa e autodefinição centradas na chamada “parditude”. A proposta aparece como crítica ao binarismo racial e à polarização entre "brancos" e "negros" nas políticas identitárias. Em tese, o gesto buscava escapar da rigidez classificatória. Beatriz não queria ser “negra” – achava o termo político e excludente – nem “branca” – sabia que não passaria. Inventou a “parditude”.

Na prática, produziu mais uma categoria, pronta para circular na mesma gramática identitária. A fuga terminou dentro da própria armadilha.

A universidade respondeu com documentos: frequência insuficiente, avaliações reprovadas, atividades pendentes. Beatriz respondeu com relatos de sofrimento, crises de ansiedade, constrangimentos em sala de aula, hostilidade simbólica. A disputa pública passou a girar em torno da pergunta errada: quem diz a verdade? O debate relevante ocorre em outro plano. A verdade dos fatos pouco importa aqui. A questão é outra: por que um caso burocrático comum só vira escândalo quando assume forma identitária?

A resposta envolve o funcionamento desse imaginário. A literatura racial se expande nesse espaço ambíguo. A criação de novas identidades aparece como gesto emancipatório, embora termine por ampliar o campo de classificação estatal. Cada novo nome acrescenta um item ao formulário. Cada novo reconhecimento fortalece a máquina que organiza políticas públicas, estatísticas, cotas, financiamentos e disputas institucionais. A crítica alimenta o sistema que pretendia constranger.

Da minha parte, herdeiro da tradição personalista – hoje quase ausente do debate público –, a questão ganha outro eixo. O cristianismo nasce como ruptura radical com as hierarquias identitárias do mundo antigo. Nos Evangelhos, Jesus atravessa fronteiras étnicas, religiosas e morais sem pedir credenciais. O samaritano serve de modelo de justiça; o publicano entra em casa justificado; o leproso toca o corpo santo e recebe dignidade antes de qualquer purificação simbólica. A pessoa aparece sempre antes da classificação.

Quando o Estado passa a gerir identidades em vez de garantir direitos comuns, a esfera de atuação da arbitrariedade se alarga.

Paulo formula essa ruptura de modo ainda mais incisivo: em Cristo, judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher perdem função política. A identidade deixa de ser destino público. O valor do sujeito repousa em algo anterior a qualquer marca social. O personalismo cristão herdou essa intuição fundamental. A dignidade antecede cor, origem, pertencimento e utilidade política.

O identitarismo caminha em direção inversa. A inscrição correta em um sistema classificatório passa a definir existência pública, acesso a direitos e legitimidade discursiva. A categoria ganha primazia; a pessoa entra depois. A promessa de libertação assume a forma de cativeiro ideológico.

Para leitores alheios à tradição cristã, o republicanismo oferece via analítica sólida. Philip Pettit define liberdade como ausência de dominação – condição na qual o sujeito deixa de depender do arbítrio alheio. A dominação surge sempre que alguém depende da validação discricionária de instâncias capazes de nomear, classificar e conceder reconhecimento.

O identitarismo amplia exatamente esse campo de dependência. Ao multiplicar categorias, multiplica árbitros. Ao expandir nomes oficiais, reforça instâncias capazes de decidir quem conta, como conta e sob quais critérios. O espaço da cidadania se estreita; o da autorização simbólica cresce. A sujeição assume forma difusa, administrativa, estatística.

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A tradição republicana clássica sempre desconfiou desse mecanismo. De Cícero a Madison, a liberdade repousa em regras gerais, impessoais, resistentes à captura das facções tribais. Quando o Estado passa a gerir identidades em vez de garantir direitos comuns, a esfera de atuação da arbitrariedade se alarga. Paradoxo: ao exigir reconhecimento oficial da “parditude”, Beatriz reforça o poder que passou a denunciar. A identidade construída como resistência termina absorvida pela engrenagem de dominação.

A ironia trágica mora aí. Quanto mais se tenta escapar das categorias, mais se consolida o sistema que delas depende. O discurso do racismo estrutural, ao expandir o vocabulário racial, sustenta a necessidade de novas políticas, novos critérios, novos mediadores. O cristianismo anunciava a superação das distinções últimas. A modernidade identitária recoloca a pele como destino político.

História triste, sem redenção. Toda luta identitária desemboca em recadastramento.

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