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Fui pobre. Já fui de direita. Hoje sou só católico e palmeirense, não necessariamente nessa ordem. Pela taxonomia do vira voto que circula desde o primeiro turno, a do pobre de direita, perdi as duas credenciais antes que a soma delas servisse de xingamento. Quem cabia inteira na categoria era minha mãe.
Ela era vendedora das Casas Bahia, divorciada do meu pai desde que me conheço por gente, mulher independente e católica devota. Na época em que a televisão cantava “Lula lá, brilha uma estrela”, ela já vociferava contra o PT. Mamãe sabia das coisas. Se ela dizia “vai chover”, chovia. “Leva blusa, vai fazer frio”, geava. Não era uma, vamos dizer, intelectual. Simplesmente dizia o que precisava ser dito. Sem esforço, não aceitava a Teologia da Libertação nem promessas de paraíso na terra. Preferia uma novena com gente estranha a um irmão militante enchendo o saco.
Depois de 4 de outubro, parte dos apoiadores de Lula encheu as redes de expressões carinhosas como “pobre de direita” e “CEO de MEI”. A gramática da primeira já traz o veredito: pobre é o substantivo, aquilo que a pessoa é. De direita vem carinhosamente depois, como acidente, coisa que se corrige com a devida orientação. O objetivo é virar voto.
O coronel do voto de cabresto também cobrava gratidão, mas se contentava com o voto. Os credores de agora querem a consciência inteira que produz o voto
A segunda, reservada a quem tem CNPJ de microempreendedor, mira a autodescrição: quem deveria se ver como trabalhador explorado insiste em se dizer dono do próprio negócio, por menor que seja. Por trás dos dois xingamentos corre uma cobrança que quase nunca se diz inteira: lutamos pelos seus direitos e você vai votar no outro. O “outro”, no vocabulário deles, é o fascista, o extremista.
Se o direito conquistado gera dívida eleitoral, quem lutou por ele é credor. Direito com credor tem nome antigo no Brasil. O coronel do voto de cabresto também cobrava gratidão, mas se contentava com o voto. Os credores de agora querem a consciência inteira que produz o voto. Quando ela não entrega o resultado combinado, decreta-se que estava ocupada por outro dono: o pastor, a televisão, o algoritmo, o patrão. Se vota certo, pertence à causa. Se erra, foi colonizada. Colonização é palavra cara a essa turma, que a usa com exatidão quando fala dos outros. Decidir pelo pobre o que ele deveria pensar, falar em nome dele, tratar como alienação qualquer divergência: está aí o programa completo da missão civilizatória. Só falta o capacete de cortiça, aquele dos exploradores europeus na África.
Dirão que a expressão critica uma posição política, não a pessoa, já que mostrar ao pobre que ele vota contra o próprio interesse faria parte do debate. Faz, em parte. Discutir interesse é o que se faz numa eleição. Quem acha que o eleitor de Flávio Bolsonaro errou pode dizê-lo e tentar convencê-lo do contrário. A dificuldade começa quando o crítico já sabe, antes de perguntar, o que o eleitor quer da vida, só porque ele é pobre. O sujeito que abriu um CNPJ para fazer entrega por aplicativo fez uma conta. Pode estar errada, mas é dele.
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Filosofarei um pouquinho. A cidade terrena, escreve Agostinho no prefácio de A Cidade de Deus, quando deseja dominar, ainda que os povos lhe sirvam, acaba dominada pelo próprio desejo de domínio: ipsa ei dominandi libido dominatur. A libido dominandi não precisa de exército. Quem xinga o pobre porque ele votou no outro exerce o domínio que a urna lhe recusou. A superioridade moral é a forma mais barata (eu ia escrever canalha, mas não quero perder o réu primário) desse desejo, porque dispensa vitória e funciona até na derrota.
O próprio Lula percebeu o custo. Na mensagem divulgada pelo PT no dia seguinte ao primeiro turno, a primeira orientação dizia: “Não briguem com o eleitor. Não falem mal porque o eleitor não votou na gente”. A ordem dá notícia do que já se fazia. Realista, o candidato tratou o eleitor como alguém a quem se faz uma oferta, porque precisa do voto e sabe quanto custa o insulto. Parte da base continuou cobrando.
Um candidato pode proibir o insulto. Revogar a superioridade moral de quem o apoia está fora do alcance dele, porque ela não nasceu de cálculo e não obedece a orientações de campanha.
Como eu disse, minha mãe trocava o militante pela novena. Na novena também se pede, só que a quem não manda cobrador. Eu, criança, achava que era mau humor.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Francisco Razzo é professor e mestre em Filosofia. Autor de “Contra o Aborto” e “A Imaginação Totalitária” (Record), reuniu seus ensaios mais recentes na coletânea “Minha contribuição para tornar o mundo um lugar ainda pior” (Noétika), uma reflexão sobre a banalidade do heroísmo em uma era de incertezas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



