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Francisco Razzo

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O limbo da abstração

  • Francisco RazzoPor Francisco Razzo
  • 18/12/2020 15:05
Gulag
Prisioneiros mortos em um gulag ucraniano em Tarnopil, em 1941.| Foto: Wikimedia Commons

Há cinco anos eu enviava para a editora os originais do meu primeiro livro, A Imaginação Totalitária: os perigos da política como esperança. Na época, minha ideia era descrever não as formas acabadas de regimes totalitários na história – nazismo, fascismo ou comunismo –, mas a condição de um complexo estado mental que possibilita a existência de atitudes políticas que legitimam a instauração de um Estado totalitário. Entender como o silogismo “crer politicamente para destruir” se sustentava.

No limite, meu principal interesse nem era exatamente uma forma do Estado totalitário, pronto e acabado ali numa terminada sociedade. Mais do que isso, eu queria compreender a dinâmica de um estado da violência inerente a certas crenças políticas. Porque o Estado totalitário nada mais é do que o ponto de chegada, e não de partida. Ou seja: é a conclusão lógica de um silogismo cujos termos principais são: o homem, o conhecimento e a política.

Toda crença política totalitária traz uma concepção de que o ser humano possa ser, por alguma razão, despido de sua dignidade. Por dignidade entendo o valor absoluto de uma pessoa em sua singularidade. Aqui está a diferença entre ser alguém ou ser uma mera estatística na tabela do Excel. Quando uma pessoa humana não é tratada em sua dignidade, tudo é permitido. Trata-se de um processo de despersonalização. O ser humano pode não ser a medida de todas as coisas, mas certamente será o limite de todas as pretensões.

Toda crença política totalitária traz uma concepção de que o ser humano possa ser, por alguma razão, despido de sua dignidade

Eu já devo ter citado esta passagem do George Steiner comentando Alexander Soljenítsin, autor do Arquipélago Gulag. Diz Steiner: “cada tortura, cada indignidade imposta a um ser humano é irredutivelmente singular e irredimível. A cada vez que um ser humano é açoitado, submetido à fome, roubado em sua dignidade, abra-se um buraco negro específico na estrutura da vida”. Mas por que crenças políticas justificam torturar, roubar e destruir o outro?

Nas palavras de Steiner: “uma obscenidade adicional é despersonalizar a desumanidade, é recobrir o fato irreparável da agonia individual com categorias anônimas da análise estatística, da teoria histórica ou da construção de modelos sociológicos. Conscientemente ou não, qualquer um que ofereça um diagnóstico, por mais compassivo ou mesmo condenatório que seja, diminui, atenua a irremediável concretude da morte sob tortura deste homem ou daquela mulher, da morte à fome desta criança específica, facilitando o esquecimento. Soljenítsin tem obsessão pela sacralidade do detalhe”, pois “ele sabe que, para rezarmos pelos mortos sob tortura, devemos decorar e dizer seus nomes, aos milhões, num infindável réquiem a nomeá-los sem cessar”.

Do ponto de vista do conhecimento, portanto, é isso o que a imaginação totalitária faz: reduz a pessoa humana a uma coisa. “Um maldito piolho”, para usar a expressão do Raskólnikov ao justificar seu crime. A mente humana não consegue se fixar detidamente na sacralidade dos detalhes que a vida singular de cada ser humano lhe impõe. A mente totalitária expurga todos para o limbo da abstração – outra expressão de Steiner. A imaginação unifica o disperso; a imaginação totalitária unifica o disperso para destruir.

Agora pense no Estado, com seu poder de coerção, transformando o “limbo da abstração” em políticas públicas. Para esse Estado existir, ele precisa encarnar o poder de uma entidade capaz de determinar quem tem ou não dignidade. Representa, assim, uma instituição que assume para si o ponto de vista da eternidade, da onisciência e onipotência. Um “deus mortal”, para lembrar o velho Hobbes. Enfim, é um Estado que quer se transformar na totalidade da existência humana e abarcar a última esperança do homem.

Como dirá Bento XVI, e gostaria de encerrar essas reflexões com ele, “o Estado não é a totalidade. O Estado romano era falso e anticristão justamente porque queria ser o totum (o todo) das possibilidades e esperanças humanas. Desse modo, ele pretende aquele que não pode; com isso deturpa e reduz o homem. Através da mentira (eu chamei de conhecimento totalitário) totalitária, torna-se demoníaco e tirânico”.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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Comentários [ 5 ]

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  • B

    BDSC

    ± 0 minutos

    Supreendente. Esse texto realmente valeu a pena. Nunca levei o cronista a sério por causa dos textos anteriores, mas esse fez minha opinião mudar.

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    • V

      Val

      19/12/2020 1:40:52

      Nunca gostei dos seus textos, mas com muita sinceridade este, especificamente, eu achei excelente. Simplesmente pq é um texto"sem lado', sem ataques. Cada vez que começo ler seus textos, já vou lendo com medo pq na maioria deles eu páro antes do final. Nesse, o final veio rápido de mais. Parabéns!

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      • F

        Felipe de Souza Marques

        19/12/2020 0:16:25

        Espetacular. Sempre admirei como Dostoievski e C.S. Lewis identificaram o perigo de destituir a pessoa de seu valor intrínseco. Entender este pensamento como fundamento do totalitarismo é de uma relevância sem igual. Parabéns!

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        • N

          Nara

          19/12/2020 0:03:34

          Interessante. Eu costumava não gostar do que você escrevia, mas desta vez gostei.

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          • A

            André

            18/12/2020 22:52:52

            Ótimo artigo. Lembrei das palavras de Cherteston: “Quando se deixa de acreditar em Deus, passa-se a acreditar em qualquer coisa.”. “Imaginação Totalitária” é excelente, me deu vontade de ler de novo.

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