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O Brasil continua sendo um país de riquezas extraordinárias, de um povo trabalhador e de uma criatividade reconhecida em todo o mundo. Ainda assim, cresce a impressão de que algo profundamente errado está acontecendo. Basta olhar além das manchetes ou conversar alguns minutos com pessoas comuns para perceber uma sensação cada vez mais difundida: a de que o país está se desfazendo.
Não se trata apenas de uma crise econômica ou política. O problema parece mais profundo. É como se o tecido social estivesse sendo lentamente rasgado. Valores que sustentam uma civilização, como confiança, honestidade, responsabilidade, respeito pela autoridade legítima e amor ao próximo, parecem ceder espaço ao cinismo, à desconfiança e à indiferença.
Poucas imagens ilustram esse fenômeno de forma tão clara quanto o sucesso dos vídeos de violência nas redes sociais. Entre os conteúdos mais assistidos estão perseguições policiais, assaltos registrados por câmeras de segurança e confrontos que terminam com criminosos mortos. Evidentemente, o Estado tem o dever de combater o crime, e policiais e cidadãos possuem o direito de agir em legítima defesa quando necessário. O problema não está na existência dessas situações, mas no fato de que elas passaram a ser consumidas como entretenimento. Milhões assistem, compartilham e comemoram cenas de morte não porque a justiça tenha sido restabelecida, mas porque a violência, em si, tornou-se espetáculo.
Uma sociedade saudável deseja segurança, justiça e instituições capazes de proteger os inocentes. Ela reconhece a necessidade do uso legítimo da força quando as circunstâncias o exigem, mas não encontra prazer na morte, ainda que seja a de um criminoso. Quando a violência passa a ser consumida como diversão, revela-se um preocupante endurecimento moral: a vida humana perde valor, a compaixão se enfraquece e a morte deixa de causar espanto.
Nenhuma democracia pode florescer quando a confiança pública deixa de sustentar a ordem institucional
Quando a confiança desaparece
Nenhuma sociedade permanece estável quando a verdade perde valor e a confiança nas instituições é corroída. O respeito às leis, a integridade dos governantes e a responsabilidade na administração dos recursos públicos constituem os alicerces da vida civilizada. Quando esses princípios são abandonados, instala-se um processo contínuo de deterioração moral e política.
No Brasil, sucessivos escândalos de corrupção, promessas descumpridas, aparelhamento do Estado e a frequente submissão do interesse nacional a projetos partidários e ideológicos esquerdistas alimentam um profundo descrédito. Muitos cidadãos passaram a enxergar Brasília como um centro de privilégios, impunidade e negociações voltadas à manutenção do poder.
O efeito é devastador: cresce o ceticismo, enfraquece-se o senso de dever e difunde-se a percepção de que a honestidade é desvantajosa. Nenhuma democracia pode florescer quando a confiança pública deixa de sustentar a ordem institucional.
Perdemos a memória
Há, porém, uma crise ainda mais profunda e menos debatida: a erosão da memória cultural do país. Ao longo de décadas, parcela significativa das elites intelectuais, culturais e educacionais passou a olhar com desconfiança para a herança civilizacional brasileira, reinterpretando-a pelo prisma socialista da opressão, do conflito e da culpa. Em nome da ruptura e da permanente desconstrução, tradições que durante gerações ajudaram a moldar a identidade nacional foram gradualmente desvalorizadas.
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Nas escolas e universidades, a História frequentemente passou a privilegiar uma leitura esquerdista que obscurece conquistas e virtudes nacionais. Personagens históricos foram julgados quase exclusivamente por seus erros, enquanto obras fundamentais da literatura, da música e do pensamento brasileiro perderam espaço para conteúdos marcados por efemeridade, utilitarismo e ideologia. A formação humanística, indispensável para o cultivo do discernimento, do caráter, das virtudes e do senso de pertencimento, foi sendo gradualmente apagada.
É evidente que nenhuma cultura permanece viva sem renovação. Entretanto, renovar não significa romper com o que nos precedeu, mas transmitir o que merece ser preservado e aperfeiçoado. Uma sociedade que perde o vínculo com sua história, sua literatura, sua música, suas instituições e seus valores torna-se vulnerável à manipulação ideológica e às paixões do momento. Sem memória, enfraquece-se a identidade; sem identidade, torna-se difícil preservar a liberdade e construir um futuro comum.
A derrota da seleção revelou algo maior
A eliminação da seleção brasileira na Copa do Mundo provocou tristeza, mas talvez tenha exposto uma crise que vai muito além do esporte. O futebol nunca determinou o destino de uma nação. Durante décadas, porém, simbolizou qualidades admiradas do Brasil: criatividade, excelência técnica, improvisação inteligente e alegria. O chamado “futebol-arte” expressava a capacidade de transformar talento em beleza e espontaneidade.
Hoje, a impressão é outra. A seleção parece adotar um modelo cada vez mais padronizado, fortemente influenciado pelas escolas europeias, nas quais prevalecem a organização tática, a intensidade física e a disciplina coletiva. Esses elementos têm seu valor, mas, quando reduzem o espaço para a criatividade individual, desaparece justamente aquilo que tornou o futebol brasileiro uma referência mundial. Em vez de afirmar uma identidade própria, passamos a reproduzir modelos importados.
Uma sociedade que perde o vínculo com sua história, sua literatura, sua música, suas instituições e seus valores torna-se vulnerável à manipulação ideológica e às paixões do momento
A mudança não se limita ao campo. Cresce a percepção de que o futebol nacional também se tornou excessivamente dependente de disputas políticas e judiciais. As sucessivas crises na CBF, as intervenções dos tribunais e as controvérsias envolvendo a influência de atores políticos, como as discussões em torno da relação entre o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), fundado pelo ministro Gilmar Mendes, e a CBF, reforçam a sensação de que interesses políticos passaram a ocupar um espaço que deveria pertencer ao esporte.
A derrota para a Noruega também despertou comparações inevitáveis. Com pouco mais de 5,5 milhões de habitantes, o país transformou a riqueza do petróleo em um gigantesco fundo soberano voltado às futuras gerações. O Brasil teve oportunidade semelhante com o pré-sal, mas desperdiçou boa parte desse potencial em gastos imediatos, corrupção e decisões incapazes de olhar além do próximo ciclo político.
Talvez a maior derrota, portanto, não tenha acontecido dentro das quatro linhas. Ela ocorreu quando deixamos de cultivar uma visão de longo prazo para o país. O futebol apenas tornou visível uma realidade mais ampla: uma nação que perde a confiança em suas instituições, enfraquece sua identidade e sacrifica o futuro em favor das urgências da política dificilmente conseguirá recuperar o protagonismo que um dia exerceu.
Diante desse quadro, a tentação é concluir que já não existe saída para o Brasil. Mas essa conclusão seria precipitada.
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Ainda existe esperança?
Abrir um portal de notícias tornou-se um exercício de resignação. Inflação, corrupção, violência, avanço das facções criminosas, discursos patéticos de Lula, “ditadura da toga” e crises institucionais ocupam diariamente as manchetes. O cidadão sente esse peso no custo de vida, na insegurança das ruas e na crescente percepção de que o país perdeu a capacidade de enfrentar seus próprios problemas.
Ainda assim, desistir do Brasil seria um erro. O país ainda é sustentado por milhões de brasileiros honestos: trabalhadores, empresários, professores, policiais, agricultores, igrejas que servem discretamente suas comunidades e famílias que continuam formando seus filhos com responsabilidade.
Quase nunca são notícia. Entretanto, são eles que impedem um colapso ainda maior. Como o patriarca Abraão, que intercedeu para que o Senhor Deus poupasse Sodoma e Gomorra se ainda houvesse justos na cidade, permanecem firmes em seu dever, sustentando a sociedade pela fidelidade, pelo trabalho, pela oração e pelo compromisso com o bem. Talvez jamais recebam reconhecimento público, mas constituem um dos principais freios à degradação moral do país.
A reconstrução do Brasil exigirá mais do que a troca de governos. Será preciso restaurar o valor da verdade, fortalecer a família, reafirmar o império da lei, recuperar uma educação formadora e valorizar nossa herança cultural. Sem uma profunda renovação moral, nenhuma mudança política será capaz de reconstruir o Brasil.
Desistir do Brasil seria um erro. O país ainda é sustentado por milhões de brasileiros honestos: trabalhadores, empresários, professores, policiais, agricultores, igrejas e famílias
O dever de permanecer fiel
Os cristãos têm motivos de sobra para lamentar o estado do país. Mas sabem que nenhum governo, por melhor que seja, pode redimir uma nação. A esperança não pode estar em Brasília, mas no reino de Deus.
Essa certeza não conduz à passividade. Pelo contrário, fortalece o senso de responsabilidade. Enquanto Deus nos concede vida e nos mantém nesta terra, somos chamados a servir ao próximo, promover a justiça, defender a verdade, preservar o que é bom e proclamar o evangelho de Jesus Cristo, a única mensagem capaz de transformar o coração humano. A crise brasileira é, em sua raiz mais profunda, uma crise espiritual.
Por isso, este é tempo de joelhos dobrados. Devemos clamar para que Deus tenha misericórdia de nossa nação, contenha o avanço do mal, conceda sabedoria às autoridades, fortaleça sua Igreja e desperte seu povo para uma vida de santidade e fidelidade. Devemos suplicar por um verdadeiro avivamento, que produza arrependimento, conversões sinceras e renovação moral. Foi assim em outros momentos da história, e Deus continua ouvindo as orações de seu povo. Se desejamos ver o Brasil transformado, a oração não é o último recurso: é um dos primeiros deveres dos cristãos.
Oremos juntos: “Ó Senhor, tu sabes que somos um povo pecador e que a nossa terra está ferida por causa dos nossos pecados. Tem misericórdia de nós, ó Deus! Não nos trates segundo os nossos pecados, nem nos recompenses segundo as nossas iniquidades. Purifica a tua igreja, renova esta nação, detém o progresso do mal e envia um poderoso avivamento pelo teu Espírito Santo. Que os corações dos governantes se voltem para ti e que o povo tema o teu nome. Levanta uma geração que te busque com todo o coração. Para a glória de Cristo, nosso Salvador. Amém.”
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Franklin Ferreira é bacharel em Teologia, pós-graduado em Bíblia e Teologia, mestre em Teologia e doutor em Divindade. É reitor e professor de Teologia Sistemática e História da Igreja no Seminário Martin Bucer, professor-adjunto no Puritan Reformed Theological Seminary, em Grand Rapids-MI (Estados Unidos), e consultor acadêmico. Autor de vários livros sobre teologia e história do cristianismo. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



