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Franklin Ferreira

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Eleições

Os evangélicos e Lula: quando a ideologia fala mais alto que a fé

lula pastores evangélicos
Lula se encontra com pastores norte-americanos e brasileiros, da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, no Palácio do Planalto, em setembro. (Foto: Ricardo Stuckert)

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A história mostra que a liberdade corre perigo quando uma ideologia política pretende explicar todos os problemas da sociedade. Seus seguidores deixam de avaliar suas ideias à luz dos fatos e passam a interpretar a realidade conforme aquilo em que já acreditam. Nesse ambiente, pensar por conta própria torna-se uma ameaça, pois qualquer questionamento pode revelar os erros e as contradições da ideologia.

Os regimes totalitários do século 20 são exemplos desse perigo. O nacional-socialismo, os regimes fascistas e as ditaduras comunistas, apesar de suas diferenças, procuraram controlar a educação, a cultura e a circulação de ideias. A propaganda tomou o lugar do debate, a obediência tornou-se mais importante que o pensamento crítico e os opositores passaram a ser tratados como inimigos.

As consequências foram terríveis. Em vez de argumentos, repetiam-se palavras de ordem. Fatos inconvenientes eram escondidos ou distorcidos, e até crimes eram justificados em nome da causa política. A fidelidade à ideologia passou a valer mais que o compromisso com a verdade.

Esse perigo exige atenção dos cristãos. Quem reconhece as Escrituras como Palavra de Deus não pode permitir que partidos, líderes ou ideologias determinem o que é verdadeiro, justo ou moralmente aceitável. A fé cristã exige discernimento e coragem para rejeitar aquilo que contraria os ensinamentos bíblicos.

Como explicar que tantos evangélicos votem em Lula, apesar das posições do PT que entram em conflito com ensinamentos da fé cristã?

Essa preocupação também se aplica ao Brasil. O Partido dos Trabalhadores tem raízes ligadas a correntes marxistas, perceptíveis em sua interpretação dos conflitos sociais e na importância que atribui à intervenção do Estado na economia. Embora participe das eleições e das instituições democráticas, essas influências precisam ser examinadas criticamente. Cabe perguntar por que tantos cristãos apoiam propostas políticas sem considerar suas possíveis contradições com as Escrituras.

O paradoxo do voto evangélico

Surge, então, uma pergunta desconfortável: como explicar que tantos brasileiros que se declaram evangélicos manifestem intenção de votar em Lula, apesar das posições de seu partido em questões que entram em conflito com ensinamentos da fé cristã?

Três pesquisas realizadas em outubro de 2026 apontam resultados semelhantes. O BTG/Nexus (16 a 18 de outubro) registrou 31,6% de intenção de voto em Lula entre evangélicos; o Datafolha (13 e 14 de outubro), 29%; e a Quaest (10 a 13 de outubro), 28%. Isso representa aproximadamente três em cada dez eleitores desse segmento religioso. Como compreender que pessoas que confessam Jesus Cristo como Senhor apoiem candidatos ou partidos que defendem posições sobre aborto, sexualidade e família contrárias às convicções de muitas igrejas evangélicas?

Há diferentes explicações. Alguns eleitores priorizam questões econômicas e sociais; outros mantêm vínculos partidários antigos ou rejeitam os candidatos adversários. Além disso, votar em alguém não significa concordar com todas as suas propostas. Seria precipitado, portanto, atribuir essas escolhas simplesmente à falta de conhecimento bíblico ou à adesão consciente ao marxismo.

Isso, porém, não elimina a questão central: como o cristão deve agir quando suas preferências políticas entram em conflito com suas convicções bíblicas? Nenhuma lealdade partidária pode determinar quais ensinamentos das Escrituras estamos dispostos a aceitar ou rejeitar. Quando a política passa a orientar a interpretação da fé, a ideologia corre o risco de ocupar o lugar da consciência cristã.

Quando a política se transforma em religião

O problema não está na existência de opiniões políticas diferentes entre os cristãos, mas em tratar a política como se ela pudesse oferecer a salvação.

O marxismo, em suas diferentes formas, procurou explicar a história e os problemas da sociedade principalmente a partir dos conflitos entre as classes sociais. Em suas versões revolucionárias, prometeu superar a exploração e construir uma sociedade sem classes, alimentando a esperança de que uma transformação radical das estruturas econômicas e políticas pudesse produzir uma nova humanidade.

Na encíclica Centesimus Annus (1991), João Paulo II advertiu que a pretensão de construir uma sociedade perfeita pode servir para justificar até mesmo a violência e a mentira. A política acaba se tornando uma “religião secular”, sustentada pela ilusão de criar o paraíso na terra.

Quando se espera da política aquilo que ela não pode oferecer, seus líderes recebem uma confiança que não merecem

Essa promessa entra em conflito com o ensino bíblico sobre a natureza humana. A raiz dos nossos problemas não está apenas na economia ou nas estruturas de poder, mas no pecado, presente em todas as classes sociais, entre ricos e pobres, governantes e governados. Mudar as estruturas da sociedade não é suficiente para transformar o coração humano.

Quando se espera da política aquilo que ela não pode oferecer, seus líderes recebem uma confiança que não merecem. Seus erros são desculpados, suas contradições são ignoradas e seus adversários passam a ser tratados como inimigos. Até mesmo cristãos podem começar a adaptar sua fé às preferências partidárias, em vez de submeter suas escolhas às Escrituras.

A crise do discernimento nas igrejas

As próprias igrejas evangélicas precisam reconhecer sua parcela de responsabilidade nesse problema. Nas últimas décadas, muitas cresceram em número de membros, mas nem sempre deram a mesma atenção ao ensino das Escrituras, da doutrina cristã e da história da Igreja. Assim, alguém pode frequentar cultos durante anos e participar de atividades religiosas sem compreender o que a Bíblia ensina sobre a dignidade humana, a família, a justiça, a liberdade e os limites do poder político.

Essa deficiência torna os cristãos vulneráveis à influência das ideologias. Sem formação bíblica e histórica, fica mais difícil perceber quando propostas políticas entram em conflito com a fé cristã, especialmente quando são apresentadas em linguagem religiosa.

O apóstolo Paulo ordenou: “E não vivam conforme os padrões deste mundo, mas deixem que Deus os transforme pela renovação da mente” (Rm 12,2). Essa renovação faz parte da santificação e exige que aprendamos a julgar todas as coisas à luz da Palavra de Deus. Uma igreja que não ensina seus membros a pensar biblicamente deixa que o mundo pense por eles. A fé cristã deve orientar não apenas o culto e a vida pessoal, mas também nossa compreensão da sociedade e nossas escolhas políticas.

Existe uma dimensão espiritual?

Mas será que essa confusão pode ser explicada apenas por fatores políticos, culturais e educacionais? Não existe também uma dimensão espiritual?

A Bíblia ensina que o pecado afeta não apenas nossas atitudes, mas também nossa maneira de pensar (Ef 4,17-18). O ser humano rejeita a verdade de Deus e coloca coisas criadas no lugar do Criador (Rm 1,18-25). É isso que acontece na idolatria: algo ou alguém passa a receber a confiança e a devoção que pertencem somente a Deus.

A política também pode se tornar um ídolo. Uma ideologia é tratada como verdade absoluta, um partido exige lealdade incondicional e um líder é visto como alguém capaz de salvar a sociedade. Nesse ambiente, até a mentira e a injustiça podem ser justificadas em nome de uma causa.

A fé cristã deve orientar não apenas o culto e a vida pessoal, mas também nossa compreensão da sociedade e nossas escolhas políticas

Isso não significa atribuir a ação do diabo exclusivamente a determinado partido ou grupo político. A Bíblia também condena a idolatria do poder, do dinheiro e da nação. O pecado não tem preferência partidária. Mas a batalha espiritual é real, e Jesus apresenta o diabo como o pai da mentira (Jo 8,44). Por isso, o cristão precisa reconhecer os enganos, examinar suas próprias convicções e submeter todo pensamento à obediência de Cristo (2Co 10,5).

A responsabilidade de pensar à luz da Bíblia

O cenário brasileiro é preocupante, mas não há motivo para desistir. A resposta cristã não é trocar uma propaganda por outra, muito menos transformar as igrejas em instrumentos partidários. É formar pessoas capazes de pensar biblicamente e resistir à manipulação.

Para isso, precisamos de pastores que ensinem fielmente toda a Escritura, cristãos que conheçam a história, famílias que conversem sobre os desafios do nosso tempo e comunidades que não confundam militância política com maturidade espiritual.

Também precisamos fazer perguntas fundamentais. Uma proposta política defende a vida desde a concepção ou apoia o aborto? Respeita o ensino bíblico sobre o casamento e a homossexualidade? Reconhece os limites do Estado e a autonomia das famílias, igrejas e demais instituições da sociedade? Protege a liberdade religiosa e de consciência? Seus defensores agem com honestidade, mesmo quando isso contraria seus interesses? Essas perguntas devem ser feitas também aos políticos que apoiamos. Nenhum partido está acima dos princípios morais, e a simpatia por um candidato não nos dispensa de examinar suas propostas e atitudes.

O apoio de tantos evangélicos a Lula deve levar as igrejas a examinar seriamente a formação de seus membros. Não se trata apenas de uma questão política, mas também moral, intelectual e espiritual

A verdade acima das ideologias

A alienação política vai além das escolhas eleitorais. Ela se manifesta quando as pessoas perdem a capacidade de reconhecer seus erros, avaliar os fatos e mudar de opinião. Uma sociedade livre precisa de cidadãos capazes de pensar por conta própria e questionar seus governantes. Da mesma forma, uma igreja fiel precisa de cristãos que amem a verdade mais do que suas preferências políticas.

Por isso, o apoio de tantos evangélicos a Lula deve levar as igrejas a examinar seriamente a formação de seus membros. Não se trata apenas de uma questão política, mas também moral, intelectual e espiritual. A resposta exige arrependimento, ensino bíblico sólido e coragem para confrontar ideias contrárias às Escrituras.

Os cristãos não foram chamados a entregar sua consciência a partidos, líderes ou movimentos, mas a amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento (Mt 22,37). Quando uma ideologia exige que ignoremos os fatos, devemos permanecer fiéis à verdade. Quando a lealdade partidária entra em conflito com a Palavra de Deus, nossa fidelidade deve estar com o Senhor. Por isso, fazemos nossa a súplica do Livro de Oração Comum Brasileiro: “Leva ao caminho da verdade os que estão no erro ou andam iludidos. Ouve-nos, bom Senhor” (Litania, p. 125).

A igreja não precisa de mais militantes que apenas repetem palavras de ordem. Precisa de cristãos que conheçam as Escrituras, compreendam a história e tenham coragem de defender a verdade, mesmo quando isso significa contrariar a maioria.

Metodologia das pesquisas citadas na coluna

BTG/Nexus: 2.002 entrevistados pelo instituto Nexus de 16 a 18 de outubro de 2026. A pesquisa foi contratada pelo Banco BTG Pactual. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos porcentuais. Registro no TSE: BR-04499/2026. Datafolha: O Datafolha entrevistou 2.520 pessoas nos dias 13 e 14 de outubro de 2026. A margem de erro é de 2 pontos porcentuais, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi contratado pela Folha de S.Paulo e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-00466/2026. Quaest: 2.154 entrevistados pela Quaest de 10 a 13 de outubro de 2026. A pesquisa foi contratada pela Rede Globo. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos porcentuais. Registro no TSE: BR-08729/2026.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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