Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Franklin Ferreira

Franklin Ferreira

Imprensa em crise

A falência moral do jornalismo brasileiro

Falência Moral do Jornalismo Brasileiro
O jornalismo brasileiro está moralmente falido. (Foto: Imagem criada utilizando Dall-E/Gazeta do Povo)

Ouça este conteúdo

O jornalismo brasileiro, que durante décadas cultivou a imagem de fiscal do poder e guardião da esfera pública, encontra-se hoje em avançado estado de decomposição moral e intelectual. A crise que o atravessa já não é apenas de credibilidade, mas de identidade. É evidente que ainda subsistem profissionais e veículos de comunicação que resistem a essa lógica, mas, no conjunto, grandes conglomerados de comunicação abandonaram a função clássica da imprensa livre e converteram-se em aparelhos ideológicos de militância política, operando não como observadores críticos da vida pública, mas como atores engajados na disputa direta pelo poder.

Essa transformação tornou-se particularmente evidente nas últimas semanas. O espetáculo oferecido por essas redações diante do colapso aberto da Justiça brasileira configura um dos episódios mais grotescos da história recente da chamada “imprensa profissional”. Jornalistas e comentaristas, autoproclamados defensores da democracia, reagiram com indignação cuidadosamente seletiva ao expor fissuras de um sistema judicial que eles próprios ajudaram a legitimar. Agora, fingem surpresa e passam a denunciá-lo, como se não fossem também responsáveis pela degradação institucional que ajudaram a construir.

A destruição institucional

Essa degradação não ocorreu por acaso nem surgiu repentinamente. Ela foi cuidadosamente construída ao longo de anos, pavimentada por decisões políticas e judiciais justificadas sob o rótulo fraudulento da “defesa da democracia”. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações da Operação Lava Jato contra Luiz Inácio Lula da Silva, sob os argumentos formais de incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba e suspeição do juiz Sergio Moro. O efeito concreto dessas decisões foi a anulação das condenações dos principais protagonistas do maior escândalo de corrupção da história do país.

O esquema do Petrolão desviou bilhões de reais da Petrobras, envolvendo empreiteiras como Odebrecht e OAS e uma vasta rede de partidos, operadores financeiros e agentes públicos. Nada disso foi negado nos autos. Nada disso foi refutado no mérito. Ainda assim, a elite jornalística brasileira celebrou a anulação das condenações como se fosse um triunfo civilizacional, ignorando deliberadamente o impacto devastador dessas decisões sobre a confiança nas instituições e sobre o combate sistêmico à corrupção.

A imprensa deixou de ser fiscal do arbítrio para se tornar sua assessoria de imprensa

Não se tratou de neutralidade jornalística nem de análise técnica. Militantes de redação apoiaram ativamente a anulação da Lava Jato e a anulação das condenações dos envolvidos, ao mesmo tempo em que se engajaram na reabilitação política e no retorno ao poder de um líder socialista condenado em três instâncias e preso por 580 dias. Editorialistas e colunistas apresentaram essas decisões como “correção de abusos” e “restauração do Estado de Direito”, omitindo o fato de que a Lava Jato recuperou mais de R$ 20 bilhões aos cofres públicos e revelou uma engrenagem de corrupção envolvendo o núcleo do sistema político brasileiro.

Ao mesmo tempo, esses mesmos veículos passaram a justificar, normalizar e aplaudir a criminalização sistemática de opositores políticos, viabilizada por censura, perseguição judicial e pela subversão aberta de garantias constitucionais básicas: devido processo legal, ampla defesa, presunção de inocência e liberdade de expressão. A imprensa deixou de ser fiscal do arbítrio para se tornar sua assessoria de imprensa.

Seletividade e autoritarismo

Os exemplos dessa seletividade são abundantes. O deputado Daniel Silveira foi preso e posteriormente condenado a oito anos de reclusão em razão de declarações e críticas dirigidas ao Supremo Tribunal Federal, um precedente grave de criminalização da palavra política. Setores expressivos da imprensa celebraram a sentença como “necessária para a democracia”. Paralelamente, dezenas de formadores de opinião e ativistas vinculados à direita tiveram contas bloqueadas, conteúdos removidos e perfis apagados por ordens monocráticas, sem contraditório prévio, sem acusação formal e sem prazo definido. Inquéritos como o das chamadas “fake news” e dos “atos antidemocráticos” foram prorrogados indefinidamente, convertendo-se em instrumentos permanentes de intimidação política. O Judiciário passou a legislar, censurar e punir – e a imprensa, longe de exercer qualquer contenção crítica, aplaudiu.

A expansão descontrolada das competências do STF, regulando redes sociais, determinando remoções de conteúdo e chegando a suspender plataformas inteiras, como ocorreu com o Telegram em 2022 e nas reiteradas ameaças ao X/Twitter, instaurou no Brasil um regime de censura prévia sem precedentes desde a redemocratização. Relatórios internacionais registram queda contínua nos índices de liberdade de imprensa no país. Ainda assim, os mesmos jornalistas que celebram essas medidas continuam repetindo, sem pudor, o mantra da “defesa da democracia”.

O duplo padrão e a hipocrisia

A desfaçatez desse discurso é estarrecedora. Esses militantes de redação ajudaram a destruir o país ao justificar a anulação das condenações de políticos e operadores condenados por corrupção ou amplamente implicados em esquemas comprovados, ao mesmo tempo em que apoiaram a consolidação de um regime de censura e perseguição política. A chamada “defesa da democracia” revelou-se um expediente retórico para blindar um establishment apodrecido, exatamente o mesmo que se beneficiou da impunidade instaurada no pós-Lava Jato.

A diferença de tratamento dispensado aos governos Bolsonaro e Lula expõe o viés ideológico da grande imprensa sem qualquer disfarce. Durante o mandato de Jair Bolsonaro, a cobertura jornalística foi sistematicamente hostil: escândalos reais ou supostos eram explorados de forma cotidiana, acompanhados de manchetes alarmistas e análises que o apresentavam como uma ameaça autoritária permanente. Programas de grande audiência converteram a crítica ao então presidente em pauta recorrente, frequentemente monopolizando horas de transmissão.

VEJA TAMBÉM:

No terceiro mandato de Lula, o quadro alterou-se de forma radical. O aumento expressivo da carga tributária, a escalada descontrolada da violência nos grandes centros urbanos, a aproximação deliberada com líderes estrangeiros de perfil totalitário e decisões judiciais altamente controversas passaram a receber cobertura complacente, quando não são simplesmente silenciadas. Paralelamente, a regulação das plataformas digitais é apresentada como “combate à desinformação”, sem qualquer debate honesto ou rigoroso sobre seus efeitos autoritários, seu potencial censor e o impacto direto sobre a liberdade de expressão.

O cinismo torna-se ainda mais evidente em comparações internacionais. Em janeiro de 2026, o ex-âncora da CNN Don Lemon foi preso nos Estados Unidos após participar de um protesto que invadiu e interrompeu um culto protestante na Cities Church, em St. Paul, Minnesota. O ato configurou crime federal de interferência em direitos civis. No Brasil, jornalistas que aplaudiram censura e prisões por postagens trataram o episódio como “perseguição à imprensa”, ignorando deliberadamente a ilegalidade do ato. A hipocrisia é escancarada.

A estupidez como fenômeno moral

Esse comportamento remete diretamente à reflexão de Dietrich Bonhoeffer no ensaio “Após dez anos”, escrito entre dezembro de 1942 e janeiro de 1943. Ali, ele descreveu a estupidez não como deficiência intelectual, mas como um fenômeno sociológico e moral: pessoas cultas e inteligentes tornam-se estúpidas quando submetidas à pressão do poder, da propaganda e do medo, perdem a independência crítica e passam a agir como instrumentos de regimes. Defendem o mal sem plena consciência de fazê-lo, pois a estupidez é resistente à razão. Por isso, ele a considerava mais perigosa do que a maldade deliberada: enquanto o mal pode ser confrontado e exposto, a estupidez não se deixa persuadir por argumentos lógicos: “A estupidez é um inimigo mais perigoso do bem do que a malícia. Pode-se protestar contra o mal; ele pode ser exposto e, se necessário, impedido pela força. O mal sempre carrega em si o germe de sua própria subversão. [...] Contra a estupidez, estamos indefesos.”

É precisamente esse mecanismo que se observa no jornalismo brasileiro contemporâneo. No Brasil, embora ainda existam jornalistas e veículos que preservam independência crítica, muitos profissionais cultos e bem formados passaram a repetir narrativas oficiais e a ignorar contradições evidentes. Celebram a democracia enquanto apoiam a censura. Denunciam o autoritarismo de forma seletiva. Silenciam quando o arbítrio lhes é conveniente.

Em vez de fiscalizar todos os poderes, a imprensa escolheu lados.

Essa partidarização não é nova, mas atingiu níveis alarmantes. O jornalismo brasileiro passou a operar dentro de uma bolha ideológica progressista-esquerdista e, com isso, abdicou da imparcialidade. Pesquisas empíricas confirmam esse diagnóstico. O relatório Perfil do Jornalista Brasileiro 2021, produzido pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e publicado em 2022, indica que aproximadamente 81% dos jornalistas se identificam como de esquerda, centro-esquerda ou extrema-esquerda.

Em vez de fiscalizar todos os poderes, a imprensa escolheu lados. O resultado tem sido a erosão contínua da confiança pública. Levantamentos do Reuters Institute mostram que o Brasil apresenta níveis persistentemente baixos de confiança na mídia em séries históricas recentes, alcançando apenas 42% no relatório de 2025.

A degradação irreversível

George Orwell já havia alertado para esse fenômeno em 1º de setembro de 1944. Em “Do meu jeito”, escreveu: “Em primeiro lugar, uma mensagem aos jornalistas ingleses de esquerda e intelectuais em geral: ‘Lembrem-se de que a desonestidade e a covardia têm sempre que ser pagas. Não imaginem que por anos a fio vocês poderão se fazer de propagandistas lambe-botas do regime soviético, ou de qualquer outro regime, e de repente voltar à decência moral. Uma vez prostituta, sempre prostituta’”. Orwell dirigia sua crítica a um comportamento específico, não a todos os jornalistas indistintamente, mas o que ele denunciou sobre a campanha de desinformação conduzida por setores da imprensa britânica que apoiaram a política soviética durante o levante de Varsóvia em 1944 aplica-se, com precisão perturbadora, a amplos segmentos do jornalismo brasileiro contemporâneo.

A partidarização da imprensa não é nova, mas atingiu níveis alarmantes. Ainda existem profissionais e iniciativas que resistem a esse processo, mas, ao abdicar da imparcialidade e escolher lados, o jornalismo dominante corroeu a própria credibilidade. Não surpreende que o Brasil apresente índices persistentemente baixos de confiança na mídia, reflexo de uma erosão acumulada ao longo dos anos. A imprensa não foi vítima desse processo: foi, em larga medida, sua arquiteta.

E o preço dessa escolha já está sendo pago.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.