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Franklin Ferreira

Franklin Ferreira

Religião

Cristo é Senhor: a igreja e o chamado à fidelidade pública

igreja atuação pública
Detalhe de "Os quatro mártires coroados diante do imperador Diocleciano", de Niccolò di Pietro Gerini. (Foto: Reprodução/Domínio público)

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Vivemos em uma época na qual cosmovisões competem abertamente pela formação das instituições, da imaginação moral e das leis de uma nação. Não se trata de uma disputa meramente partidária. Trata-se de uma disputa sobre quem define o bem, o verdadeiro e o belo; sobre quem estabelece os limites do poder humano; e sobre qual narrativa dará sentido à existência coletiva. Nesse cenário, a indiferença cristã não é neutralidade. É capitulação.

Projetos de sociedade e a ausência cristã

Diversas correntes religiosas, ideológicas e culturais possuem projetos claros e abrangentes para a sociedade. O islã, especialmente em suas vertentes políticas, não se apresenta como uma religião meramente privada. Historicamente, a tradição islâmica desenvolveu uma visão abrangente da vida, na qual a sharia regula não apenas a devoção individual, mas também aspectos da família, da economia, da política e do direito. A ummah é concebida como uma comunidade que ultrapassa fronteiras nacionais. Embora haja enorme diversidade entre sociedades e correntes muçulmanas, movimentos islamistas contemporâneos continuam a defender, em graus e por meios distintos, uma presença pública e política do islã.

O marxismo, por sua vez, oferece outro projeto abrangente. Em sua forma clássica, interpretou a história a partir da luta de classes e propôs a superação revolucionária da ordem burguesa e da propriedade privada dos meios de produção. Correntes posteriores, marxistas e pós-marxistas, ampliaram a crítica para questões culturais, identitárias e institucionais. Família, religião, nação, propriedade e moral tradicional passaram a ser interpretadas, em diferentes graus, como estruturas relacionadas à manutenção de relações de poder. Se no século 20 o marxismo avançou principalmente por meio de partidos e revoluções, algumas de suas categorias adquiriram influência duradoura em universidades, movimentos políticos e instituições culturais.

O progressismo secular apresenta ainda outro projeto abrangente. Não se trata apenas de reformas políticas pontuais, mas, em muitas de suas expressões, de uma redefinição da própria compreensão da pessoa humana. A sexualidade é progressivamente desvinculada da biologia e da procriação; o gênero passa a ser entendido como autoidentificação; a família nuclear é relativizada; a proteção da vida humana no ventre e no fim da existência é relativizada ou rejeitada; e o Estado assume um papel crescente de árbitro e educador moral. Nesse ambiente, a religião tradicional tende a ser considerada aceitável enquanto permanecer na esfera privada e não desafiar publicamente a nova ordem moral. Essas transformações avançam por legislação, decisões judiciais, currículos escolares, universidades, meios de comunicação e pressão cultural.

O evangelho não pode ser reduzido a uma mensagem de salvação individual enquanto a esfera pública é abandonada às visões de mundo rivais

Diante de projetos tão claros, muitos cristãos respondem de maneira oposta. Em vez de uma compreensão coerente da fidelidade pública à verdade revelada, encontramos frequentemente a apatia política que afirma que “não nos metemos em política” ou uma ambiguidade expressa em fórmulas como “Jesus não era nem de direita nem de esquerda”. O problema é que essa aparente neutralidade acaba deixando o espaço público livre para ser ocupado por outras cosmovisões. O evangelho não pode ser reduzido a uma mensagem de salvação individual enquanto a esfera pública é abandonada às visões de mundo rivais.

A soberania de Cristo e a responsabilidade cristã

Não esperamos um milênio terreno de ouro antes da segunda vinda de Cristo, nem acreditamos que a Igreja transformará o mundo em um paraíso cristão por meio de conquistas políticas. O reino de Cristo já está presente; Cristo reina agora à direita do Pai, e a Igreja avança em meio a tribulações até o dia final. O joio e o trigo crescerão juntos até a colheita. Essa sobriedade escatológica, contudo, não autoriza a omissão.

A mesma soberania que governa a história ordena aos servos de Deus que vivam com fidelidade no tempo que lhes foi concedido. Desde a criação, a humanidade recebeu a responsabilidade de exercer domínio responsável sobre o mundo criado. A queda não eliminou essa responsabilidade. O cristão continua chamado a viver diante de Deus em todas as esferas da existência, agora reconhecendo o senhorio de Cristo. Somos chamados a ser sal e luz, a buscar o bem da cidade onde habitamos e a levar todo pensamento cativo à obediência de Cristo. Uma fé que se retira da vida pública e se contenta com uma espiritualidade estritamente privada representa uma redução moderna da abrangência da obediência cristã.

Isso não significa confundir a missão institucional da Igreja com a atuação política dos cristãos. A Igreja, como Igreja, foi chamada a proclamar a Palavra, administrar os sacramentos, exercer disciplina e formar discípulos. Não é um partido político nem um instrumento de conquista do Estado. Mas os cristãos formados pela Palavra levam sua obediência a Cristo às diversas vocações e esferas da vida: à família, à educação, às artes, à economia, ao direito e à política. A distinção entre Igreja e Estado não significa separação entre Deus e a vida pública.

O contraste, portanto, não é entre uma sociedade religiosa e outra neutra. Nenhuma sociedade é moralmente neutra. Enquanto diferentes sistemas religiosos e ideológicos oferecem suas próprias respostas sobre a natureza humana, o bem, a justiça e a finalidade da sociedade, o cristianismo confessa que Jesus Cristo é Senhor de toda a realidade. Enquanto o marxismo buscou uma redenção histórica por meio da transformação das estruturas sociais, o evangelho anuncia a redenção realizada na cruz e confirmada na ressurreição. Enquanto o progressismo secular redefine categorias fundamentais da antropologia, a Escritura afirma a criação do homem e da mulher à imagem de Deus, a dignidade da vida humana e o casamento como união de um homem e uma mulher.

Não se trata, portanto, de “impor uma teocracia”. Trata-se de recusar a mentira de que a esfera pública possa existir sem pressupostos morais e de rejeitar a ideia de que somente a fé cristã deve permanecer silenciosa enquanto outras cosmovisões definem publicamente o verdadeiro, o bom e o justo.

Discipulado público e formação de caráter

A crise atual não se resolve apenas com votos ou estratégias eleitorais. Resolve-se, em primeiro lugar, com discipulado. A Igreja precisa formar homens e mulheres que pensem com a mente de Cristo sobre a realidade inteira. Isso inclui teologia robusta, conhecimento da história, capacidade de discernir ideologias e coragem moral. O cristão que não sabe explicar por que a vida humana possui dignidade, por que a família é uma instituição criada por Deus ou por que o Estado possui limites será facilmente moldado pelas narrativas dominantes de sua época.

O discipulado verdadeiro produz cidadãos que amam a justiça e odeiam a iniquidade, que oram pelos governantes e, ao mesmo tempo, sabem que a autoridade civil não é absoluta. Quando governantes exigem aquilo que Deus proíbe ou proíbem aquilo que Deus ordena, a fidelidade a Deus possui precedência. O mesmo discipulado forma pais e mães que educam seus filhos na disciplina e admoestação do Senhor, assumindo uma responsabilidade que não pode ser simplesmente transferida ao Estado ou à cultura.

O cristão que não sabe explicar por que a vida humana possui dignidade, por que a família é uma instituição criada por Deus ou por que o Estado possui limites será facilmente moldado pelas narrativas dominantes de sua época

Ele também forma profissionais, artistas, professores, empresários, juristas e legisladores que entendem seu trabalho como vocação diante de Deus. A fidelidade pública cristã não acontece apenas nas eleições. Acontece na sala de aula, no tribunal, na empresa, no hospital, na universidade, no ateliê, na redação de um jornal e na elaboração das leis. Em cada uma dessas esferas, o cristão é chamado a agir com competência, justiça e coragem, recusando colaborar com aquilo que contradiz claramente a verdade e a ordem moral de Deus.

Essa formação não pode ser improvisada. Ela exige púlpitos que preguem toda a Palavra de Deus, incluindo as verdades impopulares sobre pecado, juízo e a exclusividade de Cristo. Exige famílias que assumam seriamente a educação cristã dos filhos, por meio de escolas cristãs, educação doméstica ou acompanhamento cuidadoso da formação recebida em outras instituições. Exige também igrejas cristãs capazes de formar pessoas que não se envergonhem de confessar publicamente o senhorio de Cristo.

A cruz reconcilia pecadores com Deus e, ao fazê-lo, constitui um povo cuja lealdade última pertence ao Rei que reina desde o trono celestial. Essa lealdade não pode ser confinada ao templo ou à devoção particular. Ela se manifesta no amor ao próximo, na defesa da justiça, da vida, da família e da liberdade religiosa, e na resistência a qualquer poder humano que reivindique para si a autoridade última para definir o bem e o mal.

O triunfo de Cristo e a perseverança presente

A convicção de que Cristo reina sobre a história e a conduz ao seu triunfo final protege os cristãos de dois extremos. De um lado está o triunfalismo, que deposita nas conquistas políticas e culturais uma esperança que elas não podem sustentar. De outro está o pessimismo paralisante, que abandona a cultura porque “tudo vai de mal a pior”. Entre esses extremos está a fidelidade sóbria.

Sabemos que o mundo jaz no maligno. Sabemos também que o evangelho é poder de Deus para salvação e que Cristo preservará sua Igreja até o fim. Não recebemos a promessa de que todas as nossas batalhas culturais serão vencidas neste século. Recebemos algo melhor: a certeza de que Cristo reina, de que nenhum ato de fidelidade diante dele é inútil e de que a história caminha para a consumação determinada por Deus.

Essa esperança nos liberta da ansiedade de “salvar a nação” por meios humanos e, ao mesmo tempo, da preguiça de quem já desistiu. Plantamos árvores cujo fruto talvez não vejamos. Defendemos verdades que a cultura atual pode considerar ofensivas. Educamos filhos que talvez tenham de nadar contra correntes ainda mais fortes. Construímos instituições que podem servir a gerações que nunca conheceremos. Fazemos tudo isso não porque tenhamos resultados garantidos neste século, mas porque confiamos no Senhor da história.

Que o povo de Deus desperte da apatia e da ambiguidade. Que confesse, com clareza e coragem, que Jesus Cristo é Senhor – não apenas do coração, mas de toda a criação. E que, enquanto aguarda a consumação de todas as coisas, viva de maneira digna do evangelho em meio a uma geração tortuosa e perversa, brilhando como astros no mundo.

A batalha é real. As cosmovisões rivais não descansam. A vitória final, porém, pertence ao Cordeiro. Até lá, a fidelidade pública é o nosso chamado. Por isso, podemos fazer nossa a oração que a igreja de Genebra elevava a Deus após a pregação da Palavra: “Oramos, pois, Pai celestial, por todos os príncipes e senhores, Teus servos, aos quais confiaste o governo da justiça... para que, reconhecendo teu Filho Jesus Cristo como Rei dos reis e Senhor dos senhores, com pleno poder no céu e na terra, busquem servi-lo e exaltem o seu reinado em todos os seus domínios, e, conforme a tua vontade, guiem e governem seus súditos, que são obra de tuas mãos e ovelhas do teu pasto. E que nós, teu povo, aqui e em toda parte, sendo mantidos em paz e tranquilidade, te sirvamos em santidade e justiça” (Oração após o sermão, Liturgia de Genebra, 1542, atribuída a João Calvino).

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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