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A segunda semana do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã tornou claro algo que, até então, muitos apenas supunham: a superioridade militar ocidental, especialmente na combinação entre inteligência, tecnologia e capacidade de ataque de precisão, é amplamente dominante. Em poucos dias, uma parcela significativa da liderança religiosa, política e militar iraniana foi neutralizada, atingida em bunkers e esconderijos que deveriam garantir sua proteção.
O que resta hoje das milícias aliadas iranianas, aquele “anel de fogo” ao redor de Israel, cuidadosamente construído pelo regime islamita ao longo de décadas? O Hamas não consegue, ou não ousa, lançar ataques; os houthis limitam-se, há semanas, a ameaças; as milícias no Iraque têm impacto praticamente irrelevante; na Síria, foram em grande parte desmanteladas; e o Hezbollah, severamente degradado, opera com uma fração de sua capacidade original, ainda em declínio. O quadro geral é claro: o Irã já não se sustenta como potência regional nos termos em que se apresentava até recentemente.
Estamos falando de quase 60 anos de investimentos iranianos em projeção de poder, guerra indireta e desenvolvimento militar que, na prática, foram degradados em uma velocidade impressionante. O contraste entre a retórica do regime e sua real capacidade operacional ficou exposto. Isso não elimina os riscos. O Irã ainda possui capacidade de atuação indireta e assimétrica. Mas o mito de invulnerabilidade iraniana foi quebrado – e isso tem consequências profundas.
Da Revolução Islâmica à realidade atual
Para compreender plenamente o peso desse momento, é necessário voltar a 1979. A Revolução Islâmica, liderada pelo aiatolá Khomeini, redefiniu completamente a identidade política do Irã, estabelecendo uma oposição estrutural ao Ocidente.
Logo em seus primeiros anos, essa nova ordem produziu episódios que marcaram profundamente a percepção global. A crise dos reféns na embaixada dos Estados Unidos em Teerã e o fracasso da Operação Eagle Claw (Garra de Águia), autorizada pelo presidente Jimmy Carter, projetaram a imagem de um regime capaz de desafiar e constranger a maior potência do mundo. Ainda permanecem vívidas as imagens de cinco helicópteros RH-53D Sea Stallion, da Marinha dos Estados Unidos, abandonados no deserto – além de outro destruído após uma colisão –, ao lado dos destroços calcinados de uma aeronave EC-130 Hercules, da Força Aérea dos Estados Unidos, exibidos pela propaganda iraniana como símbolo de triunfo (até recentemente, restos do rotor de um dos helicópteros estavam em exibição na antiga embaixada dos Estados Unidos em Teerã). Oito militares americanos morreram na malfadada operação, que também marcou a estreia operacional da Delta Force.
O Irã ainda possui capacidade de atuação indireta e assimétrica. Mas o mito de invulnerabilidade iraniana foi quebrado – e isso tem consequências profundas
Esse impulso inicial não se limitou ao confronto direto com o Ocidente, mas rapidamente se expandiu por meio de atuação indireta. Nos anos 1980 e 1990, o Hezbollah, fundado em 1982 com apoio da Guarda Revolucionária, consolidou-se como instrumento central dessa estratégia, espalhando terror no Oriente Médio por meio de ataques suicidas, sequestros e bombardeios. No Líbano, destacam-se os atentados de 1983 em Beirute: o bombardeio da embaixada dos EUA (63 mortos) e o ataque aos quartéis dos fuzileiros navais americanos e paraquedistas franceses (241 americanos e 58 franceses mortos), realizados pelo Hezbollah com apoio direto iraniano para expulsar as forças ocidentais da região.
Ao longo da década de 1980, o grupo continuou com sequestros de ocidentais e novos atentados, enquanto, nos anos 1990, intensificou ataques contra Israel com guerrilha, sequestros e foguetes Katyusha. Essas ações, financiadas e dirigidas por Teerã, consolidaram o modelo de guerra por procuração que ampliou sua influência e a instabilidade regional.
Nesse contexto mais amplo, decisões tomadas durante o governo de Barack Obama, especialmente no âmbito das negociações nucleares, são frequentemente apontadas por críticos como tendo contribuído para que o Irã preservasse capacidades estratégicas sensíveis, facilitando sua atual proximidade do limiar nuclear.
Mas a consolidação dessa ordem política não se deu apenas pela projeção externa de poder; ela dependeu também de um controle interno cada vez mais rígido. Nos últimos anos, esse controle assumiu formas abertamente brutais. O regime islâmico intensificou de maneira dramática sua repressão, produzindo um rastro de mortes por meio de execuções estatais e violência direta contra manifestantes. Em 2025, o número de execuções atingiu níveis recordes: organizações como Iran Human Rights, Anistia International e NCRI estimam entre 1,5 mil e mais de 2,2 mil enforcamentos, muitos relacionados a acusações vagas como “inimizade contra Deus” ou “corrupção na terra” – mais do que o dobro dos cerca de 975 registrados em 2024.
Esse endurecimento não se limitou às execuções. Entre 2025 e 2026, protestos nacionais motivados por crise econômica e descontentamento generalizado foram reprimidos com força extrema. Em janeiro de 2026, forças de segurança empregaram armas de fogo, atiradores de elite e ordens explícitas de atirar para matar. As estimativas variam amplamente devido à censura imposta pelo regime: enquanto o governo admitiu cerca de 3.117 mortes (incluindo suas próprias forças), fontes independentes, como HRANA, Nações Unidas, Anistia e relatos médicos, apontam para números muito superiores, que variam amplamente de 7 mil a mais de 20 mil civis mortos.
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Somando-se os dados desde aproximadamente 2022 até março de 2026, o quadro que emerge é o de uma repressão sistemática que já produziu dezenas de milhares de mortos, além de milhares de detenções arbitrárias, tortura e sentenças de morte. Trata-se de um dos períodos mais letais da história recente do Irã, frequentemente descrito por especialistas como característico de crimes contra a humanidade.
É à luz desse percurso, da euforia revolucionária à repressão generalizada, que o momento atual deve ser compreendido. Décadas depois da Revolução, o cenário é outro: a realidade operacional do regime foi esmagada por adversários tecnologicamente superiores, e a narrativa triunfalista construída ao longo de anos é contradita pela realidade crua.
Os dois campos de batalha
O conflito atual não ocorre em apenas uma dimensão. De um lado, há a guerra cinética, a guerra convencional, militar. Nesse campo, torna-se evidente que o islamismo revolucionário não possui capacidade real de vitória contra os Estados Unidos e Israel.
De outro lado, há a guerra não cinética: cultural, demográfica e ideológica. Diversos líderes islâmicos já descreveram explicitamente estratégias de longo prazo para influenciar o Ocidente, seja por crescimento populacional, imigração ou uso das próprias liberdades ocidentais como instrumento de transformação interna. Aqui reside uma tensão importante: enquanto o Ocidente projeta força militar, frequentemente revela fragilidade cultural e moral.
Nesse ponto, a análise exige um aprofundamento teológico. Como observa Gavin Ashenden em seu ensaio When Islamic Eschatological Theology is married to the Bomb: Why Iran’s apocalyptic doctrine complicates the logic of mutually assured destruction, a relação entre escatologia islâmica e poder nuclear introduz elementos que desafiam os pressupostos clássicos da dissuasão.
A dissuasão nuclear se torna menos certa quando um sistema incorpora elementos escatológicos que podem atribuir significado positivo ao colapso global
Um erro recorrente no Ocidente é tratar o Irã como um ator puramente político. O sistema iraniano é moldado por uma estrutura teológica específica: o xiismo duodecimano. No centro dessa tradição está a crença no Imã Oculto (Mahdi), cuja volta é esperada no fim dos tempos. Como destaca Ashenden, essa expectativa não é apenas simbólica; ela possui implicações políticas reais.
Historicamente, predominou uma postura de espera. A Revolução Islâmica de 1979, porém, introduziu uma inflexão decisiva com a doutrina da Wilāyat al-Faqīh, segundo a qual um jurista islâmico qualificado deve exercer autoridade política em nome da comunidade. Com isso, o Estado passa a atuar não apenas como guardião da ordem, mas como agente ativo dentro do horizonte escatológico. Abre-se, assim, espaço para uma teologia politicamente operativa, na qual conflito, instabilidade e crise podem ser interpretados como elementos do processo histórico que conduz à redenção final e ao triunfo do Islã.
O problema nuclear e os limites da dissuasão
Aqui entra uma das contribuições mais importantes de Ashenden. A doutrina da “destruição mutuamente assegurada” (MAD, na sigla em inglês), desenvolvida durante a Guerra Fria, sustenta que, quando duas potências têm capacidade nuclear de segundo ataque, qualquer uso dessas armas levaria inevitavelmente à destruição de ambos os lados, tornando o conflito nuclear irracional como escolha estratégica. Por isso, ela depende de um pressuposto central: todos os atores políticos desejam evitar a própria destruição.
Ashenden argumenta que esse pressuposto se torna menos seguro quando um sistema incorpora elementos escatológicos que podem atribuir significado positivo ao colapso global. Isso não significa que os líderes iranianos sejam irracionais. Mas significa que a estrutura de sua racionalidade religiosa pode não coincidir com a lógica secular ocidental.
E isso altera profundamente o cálculo estratégico. Se houver, mesmo que em parte da liderança, uma visão que enxergue o caos como prelúdio de redenção, a estabilidade da dissuasão nuclear se enfraquece. Nesse contexto, a ação militar atual dos Estados Unidos e Israel pode ser interpretada como preventiva: evitar que uma ordem política com essa configuração ideológica alcance plena capacidade nuclear.
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O colapso religioso interno
Enquanto a atenção global se concentra na guerra, uma transformação silenciosa ocorre dentro do Irã. Autoridades iranianas reconheceram que cerca de 50 mil das 75 mil mesquitas do país estão fechadas. A principal razão é a queda acentuada na frequência, especialmente entre os jovens.
Esse dado revela uma crise profunda. A instrumentalização da religião islâmica pelo Estado produziu um efeito paradoxal: ao tentar controlar a fé, o sistema acabou corroendo sua credibilidade. Muitas mesquitas ficaram sem fiéis, sem liderança e sem recursos.
Em contraste com esse declínio, o cristianismo cresce de forma notável no país, a partir de 2010. Pesquisas independentes, como as do Grupo para Análise e Medição de Atitudes no Irã (Gamaan) e Operation World, indicam que entre 1 milhão e 2 milhões de iranianos já se converteram ao cristianismo. A maioria participa de igrejas domésticas clandestinas.
Trata-se de um dos movimentos cristãos que mais crescem no mundo contemporâneo. Esse crescimento ocorre sob intensa perseguição. Ainda assim, comunidades se multiplicam, impulsionadas por redes informais, mídia e testemunhos pessoais. O contraste é claro: mesquitas esvaziando, igrejas subterrâneas crescendo.
Uma crise de legitimidade
O que está em curso no Irã não é apenas uma mudança religiosa, mas uma crise profunda de legitimidade. Esta ordem política construiu sua autoridade sobre a fusão entre poder político e islamismo estatal; quando essa base começa a ser rejeitada, todo o sistema entra em profunda tensão.
A batalha mais importante pode não estar nos céus, nem nos desertos, mas no coração do povo iraniano
Ao mesmo tempo, o crescimento do cristianismo revela algo ainda mais significativo: não se trata de um abandono da fé, mas de uma busca por uma fé diferente – livre, não coercitiva, centrada na graça e misericórdia e não na imposição. Em contraste com o uso político do Islã, o cristianismo se expande no Irã justamente onde não pode contar com poder, proteção ou privilégios.
A história confirma esse padrão: a fé imposta tende a se esvaziar; a fé abraçada voluntariamente, mesmo sob perseguição, se fortalece. E é nesse contraste que se evidencia não apenas uma mudança religiosa, mas a superioridade de uma fé que convence sem coagir, que cresce sem violência e que transforma de dentro para fora.
O que está realmente em jogo
O cenário atual precisa ser lido em múltiplos níveis. Militarmente, o sistema iraniano enfrenta limitações claras. Estrategicamente, suas ambições estão sendo contestadas. Culturalmente, sua narrativa perde força. E espiritualmente, sua base se fragiliza.
Isso não implica colapso imediato. Sistemas ideológicos frequentemente reagem com maior repressão. Mas mudanças profundas raramente começam no topo. Elas começam na base: nas convicções e crenças das pessoas. Se a análise militar revela a força do Ocidente, a leitura teológica, como bem destaca Gavin Ashenden, revela algo ainda mais complexo: o conflito não é apenas geopolítico, mas também espiritual e escatológico.
E, ao mesmo tempo, dentro do próprio Irã, ocorre um movimento silencioso que pode ter consequências de longo prazo. A história não é movida apenas por armas, mas por ideias e crenças. Se o atual conflito enfraquece estruturas externas do regime, o que acontece internamente pode ser ainda mais decisivo. A batalha mais importante pode não estar nos céus, nem nos desertos, mas no coração do povo iraniano. E é essa batalha, silenciosa, profunda, que pode redefinir o futuro da região, e talvez muito mais do que isso.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








