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Franklin Ferreira

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Filme

“A Odisseia”: entre a fidelidade a Homero e o espírito do nosso tempo

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Matt Damon interpreta Odisseu, protagonista de "A Odisseia", de Christopher Nolan. (Foto: Melinda Sue Gordon/Universal Studios)

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Poucas obras exerceram influência tão profunda sobre a civilização ocidental quanto a Odisseia. Composta no século 8.º a.C. e tradicionalmente atribuída a Homero, ela moldou, ao longo de quase 3 mil anos, a literatura, a filosofia e o imaginário do Ocidente. Da Eneida, de Virgílio, à Divina Comédia, de Dante; de Shakespeare a Tolkien, gerações de escritores encontraram na jornada de Odisseu um modelo permanente para refletir sobre coragem, família, dever e identidade.

A sobrevivência da Odisseia também se deve, em grande medida, ao trabalho de preservação realizado pelos cristãos do Império Bizantino. Entre os séculos 9.º e 15, monges e escribas de língua grega copiaram os manuscritos de Homero e transmitiram a obra às gerações seguintes. Embora a tradição homérica remonte à Antiguidade clássica, foram esses copistas, em sua maioria vinculados ao mundo cristão bizantino, que asseguraram sua transmissão contínua até o Renascimento e, posteriormente, às edições modernas. Ao longo da Idade Média, diversos autores cristãos também reinterpretaram temas da Odisseia, frequentemente compreendendo a jornada de Odisseu como uma figura da peregrinação humana sob a providência de Deus.

Graças a essa longa tradição de preservação, levar a Odisseia ao cinema significa dialogar com um dos textos fundadores da cultura ocidental. Como toda releitura de um clássico, o resultado revela tanto sua compreensão de Homero quanto sua visão do próprio tempo.

Foi esse o desafio assumido por Christopher Nolan após uma sequência impressionante de filmes como a trilogia Batman, Interestelar, Dunkirk e Oppenheimer. O resultado é um épico visualmente deslumbrante e intelectualmente ambicioso. Desde seu anúncio, tornou-se alvo de intenso debate. Para alguns, revitaliza Homero para uma nova geração; para outros, submete o poema às agendas ideológicas contemporâneas. O debate, porém, não diz respeito à legitimidade de reinterpretar Homero, mas aos pressupostos e às escolhas que orientam essa leitura.

Homero ainda importa

Ambientada no século 12 a.C., enquanto a Ilíada contempla a guerra, a Odisseia contempla o retorno ao lar. Odisseu, rei de Ítaca, não busca novas vitórias nem riquezas, mas reencontrar Penélope, recuperar seu reino e restaurar a ordem destruída pela guerra. Talvez seja justamente essa perspectiva que explique a influência duradoura do poema. Sua maior conquista não é a vitória sobre os inimigos, mas a restauração de sua casa, de sua família e de seu reino. O destino de Agamêmnon, rei de Micenas, assassinado ao regressar de Troia, reforça esse contraste: vencer a guerra não basta; é preciso conseguir voltar para casa.

A Odisseia” devolve a milhões de espectadores um texto clássico e recorda que nossa tradição cultural possui raízes muito mais antigas do que o entretenimento contemporâneo costuma sugerir

Ao longo dos séculos, a Odisseia ajudou a formar a compreensão ocidental do heroísmo. Odisseu não vence apenas pela força, como Aquiles, mas sobretudo pela prudência, inteligência e capacidade de dominar os próprios impulsos. Sua grandeza não reside na perfeição moral, mas na perseverança diante da adversidade.

Outros temas fundamentais atravessam toda a narrativa. Penélope tornou-se símbolo da fidelidade conjugal; Telêmaco, do amadurecimento na ausência do pai; a hospitalidade expressa a convicção de que a civilização depende do respeito mútuo entre anfitriões e estrangeiros; o retorno ao lar simboliza o restabelecimento da vida civilizada depois da guerra e do caos.

Esses temas permanecem universais porque pertencem à própria condição humana. Por isso a Odisseia continua sendo muito mais do que um documento da Grécia Antiga. Ela continua sendo um dos fundamentos da tradição cultural do Ocidente.

Um grande épico para o século 21

Nolan compreende a importância dessa obra. Em uma indústria dominada por franquias previsíveis e narrativas superficiais, sua decisão de adaptar Homero já representa um gesto incomum. A Odisseia devolve a milhões de espectadores um texto clássico e recorda que nossa tradição cultural possui raízes muito mais antigas do que o entretenimento contemporâneo costuma sugerir.

Como espetáculo cinematográfico, o filme impressiona. A fotografia privilegia paisagens reais em Marrocos, Itália, Grécia, Malta, Escócia e Islândia, luz natural e cenários monumentais, evitando a artificialidade excessiva dos efeitos digitais. O Mar Mediterrâneo, Troia e Ítaca adquirem uma presença física rara no cinema atual.

Mais importante, Nolan também preserva algo essencial do poema: seu centro emocional continua sendo o desejo de voltar para casa. Em uma cultura frequentemente marcada pelo individualismo e pela busca incessante do prazer, a ideia de um homem disposto a enfrentar anos de sofrimento para reencontrar sua esposa, seu filho e seu povo conserva enorme força moral.

Outro mérito importante é recuperar a figura do herói sem transformá-lo em um personagem perfeito. Odisseu permanece vulnerável, falível e profundamente humano, mas continua sendo alguém chamado a assumir responsabilidades que ultrapassam seus interesses pessoais.

Essa preocupação aparece também na maneira como o filme trata a culpa e a liderança. As decisões tomadas durante a Guerra de Troia continuam produzindo consequências muitos anos depois. A violência gera mais violência, o orgulho cobra seu preço e liderar significa responder moralmente pelos próprios atos.

Nolan também evita glorificar a guerra. A violência aparece como uma realidade trágica, capaz de marcar indivíduos e civilizações por gerações. Essa perspectiva encontra sólido fundamento no próprio poema de Homero. Se a Ilíada revela o custo da guerra durante o conflito, a Odisseia mostra o preço da vitória. Odisseu retorna a uma pátria desordenada; quase todos os seus companheiros perecem; Penélope espera durante 20 anos; Telêmaco cresce sem a presença do pai. A verdadeira vitória não consiste apenas em conquistar Troia, mas em restaurar o lar, a família e a ordem depois da devastação da guerra.

Essa leitura orienta diversas escolhas visuais de Nolan. Uma escolha particularmente simbólica é a desfiguração de Helena. Embora essa caracterização não encontre respaldo na Odisseia de Homero, onde sua beleza permanece célebre e ela volta a viver ao lado de Menelau, rei de Esparta, a cicatriz criada por Nolan sintetiza visualmente uma das ideias centrais do filme: a guerra deixa marcas permanentes em todos os seus sobreviventes. A mesma intenção aparece na caracterização de Agamêmnon. Sua armadura escurecida e monumental reforça sua posição como comandante supremo dos aqueus e o apresenta menos como um herói individual do que como a personificação do poder militar.

Nolan demonstra profundo respeito pelo poema, mas frequentemente prefere reinterpretá-lo segundo categorias contemporâneas em vez de permitir que Homero fale com sua própria voz

Outra qualidade do filme está em sua reflexão sobre a fragilidade da ordem política. Ítaca representa uma civilização ameaçada pela corrupção interna. Os pretendentes exploram precisamente as normas de hospitalidade para corroer lentamente a autoridade legítima. A observação continua atual. Civilizações raramente desaparecem apenas pela força de inimigos externos. Muitas começam a ruir quando deixam de proteger as virtudes que tornaram possível sua própria existência.

Essas qualidades explicam por que o filme se destaca entre as grandes produções recentes. Ao mesmo tempo, é justamente quando Nolan procura atualizar Homero que surgem as principais limitações de sua adaptação. Sem abandonar o poema, o diretor o relê à luz das preocupações culturais do século 21, modificando alguns dos pilares morais que fizeram da Odisseia um clássico permanente.

Reinterpretando Homero

Os méritos de A Odisseia não impedem que sua adaptação revele também as tensões culturais características do nosso tempo. Nolan demonstra profundo respeito pelo poema, mas frequentemente prefere reinterpretá-lo segundo categorias contemporâneas em vez de permitir que Homero fale com sua própria voz.

O exemplo mais evidente está na caracterização de Odisseu. No poema, ele está longe de ser perfeito. Seu orgulho, sua curiosidade e sua imprudência contribuem para prolongar o sofrimento de seus companheiros. Ainda assim, Homero o apresenta como um personagem digno de admiração. Sua inteligência, prudência e coragem justificam seu lugar entre os grandes heróis da tradição grega.

No filme, porém, Odisseu aparece menos como um herói admirável do que como um homem permanentemente atormentado pela culpa. A estratégia do Cavalo de Troia, celebrada durante séculos como a suprema demonstração de engenho militar, torna-se sobretudo o ponto de partida de uma espiral de violência da qual jamais consegue se desvencilhar.

Uma omissão relevante é o episódio de Ísmaro, a cidade dos Cícones. Em Homero, esse primeiro saque após a queda de Troia mostra que muitas das perdas sofridas pelos gregos decorrem da indisciplina e da ganância dos próprios companheiros de Odisseu, antecipando um dos temas centrais do poema: frequentemente, o homem é responsável por seus próprios infortúnios. O episódio também apresenta Odisseu ainda inserido na lógica da guerra, bem distante do protagonista marcado pelas consequências morais da guerra retratado por Nolan.

A mesma perspectiva se manifesta no episódio de Polifemo. Embora o Ciclope permaneça na narrativa, Nolan elimina o célebre estratagema em que Odisseu se apresenta como “Ninguém” e suaviza o momento em que o herói, movido pelo orgulho, revela seu verdadeiro nome ao escapar, atraindo sobre si a maldição de Poseidon. Com isso, a cena deixa de destacar a combinação de astúcia e orgulho (hybris) que caracteriza Odisseu para enfatizar sobretudo a violência do confronto e seus efeitos sobre o protagonista.

Essa leitura dialoga com uma tendência recorrente do cinema contemporâneo: a desconstrução do herói. Em vez de apresentar homens extraordinários cujas virtudes convivem com limitações reais, prefere personagens definidos sobretudo por seus conflitos interiores. Em Homero, porém, Odisseu é moldado tanto por suas virtudes quanto por seus defeitos. Se sua inteligência o salva, seu orgulho prolonga seu sofrimento. Sua grandeza nunca elimina sua humanidade.

Algo semelhante ocorre na representação das personagens femininas. Homero constrói figuras claramente distintas: Penélope encarna a fidelidade; Circe, a sedução; Calipso, a tentação; Atena, a sabedoria; Clitemnestra, a traição. Nolan preserva boa parte dessa riqueza, mas tende a reinterpretá-las à luz de categorias mais familiares ao século 21. Clitemnestra deixa de ser apresentada sobretudo como esposa infiel e assassina para assumir contornos de uma mulher que reage às violências sofridas. Helena passa a ser definida menos por sua complexidade moral do que por sua condição de mulher aprisionada em estruturas de poder masculinas, enquanto Penélope recebe um protagonismo político pouco enfatizado no poema. Assim, o eixo moral da narrativa desloca-se sutilmente do caráter para as circunstâncias.

Mais controversas foram algumas escolhas de elenco. Não se trata de exigir uma reconstrução etnográfica absoluta da Grécia micênica, mas de reconhecer que toda obra histórica depende de verossimilhança. Quando figurinos, arquitetura, armas e cenários procuram reconstruir cuidadosamente um determinado mundo, opções de elenco que rompem essa coerência tendem a atrair mais atenção para o presente do que para o passado. Em última análise, porém, tais escolhas são mais irritantes do que realmente prejudiciais e não diminuem de maneira significativa a força dramática nem o impacto artístico do filme.

Nolan resiste à tentação de reduzir toda a experiência humana a categorias políticas. No centro do filme permanecem temas universais: família, culpa, liderança, perda, esperança e o desejo de voltar para casa

Mais importante, porém, é a mudança de perspectiva que permeia toda a adaptação. Durante muito tempo, adaptar um clássico significava procurar compreender seu autor. Hoje, muitas adaptações parecem partir da pergunta inversa: como esse clássico pode expressar nossas preocupações atuais? Os textos antigos deixam de ser mestres para se tornarem matéria-prima.

A opção de Nolan por utilizar a tradução contemporânea de A Odisseia de Emily Wilson ilustra essa mudança de perspectiva. O filme privilegia uma leitura em que o trauma, a culpa e as consequências da guerra recebem mais destaque do que a astúcia e a glória heroica. Nolan evita os excessos mais comuns dessa tendência, mas não escapa completamente dela. Em alguns momentos, sua adaptação parece menos interessada em ouvir Homero do que em dialogar com ele – e, por vezes, corrigi-lo.

Entre a fidelidade e a releitura

Seria injusto reduzir A Odisseia a essas limitações. O filme é uma realização artística de enorme qualidade e uma das adaptações mais ambiciosas do cinema recente. Sua maior virtude talvez seja recordar ao público que a civilização depende de certas virtudes permanentes. Coragem, responsabilidade, fidelidade, prudência, honra e espírito de sacrifício não aparecem como valores antiquados, mas como condições para preservar a ordem diante do caos.

Também merece elogio o fato de Nolan resistir à tentação de reduzir toda a experiência humana a categorias políticas. No centro do filme permanecem temas universais: família, culpa, liderança, perda, esperança e o desejo de voltar para casa. Por isso, sua adaptação procura equilibrar fidelidade e releitura.

Essa diferença aparece com clareza quando lembramos outra grande adaptação literária recente: O senhor dos anéis, de Peter Jackson. Embora tenha alterado episódios importantes da obra de Tolkien, Jackson procurou preservar seu espírito. Em A Odisseia, Nolan estabelece uma relação diferente. Seu filme não apenas adapta Homero, mas dialoga com ele, desloca a ênfase de alguns de seus temas e propõe uma leitura própria.

Homero não responde a todas as perguntas do século 21, mas continua formulando algumas das perguntas mais importantes

O resultado é um filme intelectualmente provocativo, capaz de suscitar reflexões relevantes sobre guerra, poder e civilização. O preço dessa opção, porém, é a perda de parte da simplicidade moral que tornou a Odisseia uma das narrativas mais duradouras da história.

Ainda assim, talvez o maior mérito de A Odisseia seja lembrar que os clássicos continuam relevantes precisamente porque ultrapassam seu próprio tempo. Muito antes da internet, da imprensa ou do cinema, homens e mulheres já refletiam sobre coragem, fidelidade, hospitalidade, responsabilidade e poder. Homero não responde a todas as perguntas do século 21, mas continua formulando algumas das perguntas mais importantes.

Os grandes clássicos sobrevivem porque conseguem julgar cada geração, e não apenas ser julgados por ela. Se o filme de Christopher Nolan levar novos leitores de volta ao poema de Homero, terá realizado algo que poucas adaptações alcançam: servir de ponte para a obra original. Talvez esse seja o maior elogio que se possa fazer a uma adaptação de um clássico. Afinal, é ali, nas primeiras palavras da Odisseia, que essa jornada verdadeiramente começa:

“Canta, ó Musa, o varão que, astucioso,
depois de destruir a sagrada Troia,
errou de clima em clima.
Viu cidades de muitos povos e conheceu seus costumes;
e no mar sofreu incontáveis dores no coração,
lutando por salvar a própria vida e o regresso dos companheiros.”

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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