
Ouça este conteúdo
A Gazeta do Povo publicou, há algum tempo, uma reportagem que descreve um ecossistema no qual recursos financeiros, instituições e estratégias culturais têm sido utilizados para influenciar o meio evangélico brasileiro, moldando discursos teológicos e posicionamentos morais em sintonia com agendas ideológicas progressistas. A investigação também destacou conexões institucionais e políticas de alguns líderes identificados com o chamado “cristianismo progressista”, incluindo vínculos com estruturas governamentais e organizações financiadas por fundações internacionais.
Essa dinâmica dialoga diretamente com a tese central de Pastores à venda, de Megan Basham, que argumenta que parte da liderança evangélica norte-americana tem sido gradualmente influenciada por financiamento institucional, prestígio acadêmico e incentivos culturais que acabam por redefinir prioridades doutrinárias e éticas. Em ambos os contextos, o ponto central não é meramente a existência de divergências teológicas legítimas, mas o risco de que pressões externas, especialmente quando mediadas por recursos, reconhecimento público e redes de influência, passem a orientar o ensino e o testemunho da igreja, deslocando sua autoridade funcional das Escrituras para agendas moldadas por interesses culturais e políticos.
Nesse contexto, publico hoje a resenha deste lançamento, escrita por Willy Robert Henriques, pastor da Igreja Batista Redenção, em Juiz de Fora (MG), graduado em Teologia pelo Seminário Martin Bucer, mestrando em Arts in Religion pelo Puritan Reformed Theological Seminary e participante do programa Mastership da Stand With Us Brasil.
A batalha pelo púlpito: como pressões culturais e institucionais moldam o evangelicalismo norte-americano
O que acontece quando líderes evangélicos passam a ecoar pautas culturais historicamente promovidas por fundações e organizações seculares? É essa a pergunta que impulsiona Pastores à venda: como líderes evangélicos negociaram a verdade pela agenda esquerdista, de Megan Basham, publicado originalmente nos Estados Unidos como Shepherds for Sale: How Evangelical Leaders Traded the Truth for a Leftist Agenda e que figurou nas listas de mais vendidos do The New York Times.
A obra chega ao Brasil pela Editora Trinitas cercada de expectativa e controvérsia. Desde o anúncio do lançamento, o livro tem provocado reações intensas, especialmente entre cristãos defensores dos progressistas, que criticaram o material sem nem sequer o terem lido. Nos Estados Unidos, por outro lado, o trabalho recebeu apoio de nomes influentes do evangelicalismo conservador, como John MacArthur, Voddie Baucham, Rosaria Butterfield, Ben Shapiro e Os Guinness.
Parte significativa da liderança evangélica norte-americana teria sido influenciada e, em muitos casos, recebido milhões de dólares de fundações e agentes externos progressistas e ateus
A tese central de Basham é direta e provocativa: parte significativa da liderança evangélica norte-americana teria sido gradualmente influenciada e, em muitos casos, recebido milhões de dólares de fundações e agentes externos progressistas e ateus com o claro objetivo de inserir ideologias contrárias à Bíblia em meio ao povo de Deus. Segundo a autora, essa influência teria produzido mudanças perceptíveis no discurso e na atuação pública de pastores e organizações cristãs em temas como mudanças climáticas, imigração, teoria crítica da raça, pandemia, movimento #MeToo e pautas LGBTQIA+.
Dividido em oito capítulos, o livro apresenta uma investigação que combina análise documental, rastreamento de financiamentos e exame de posicionamentos públicos, propondo que a transformação observada em determinados setores do evangelicalismo não ocorreu de maneira espontânea, mas dentro de um contexto mais amplo de influência institucional e cultural.
Li atentamente a obra e, nas próximas linhas, procuro apresentar seus principais argumentos, bem como avaliar a consistência de sua proposta e o impacto que pode ter no debate evangélico brasileiro.
Os cristãos são um problema – como resolvê-lo?
Em cada capítulo, antes de apresentar sua tese central, Megan Basham inicia com relatos de personagens reais entrevistados por ela. É a estratégia de storytelling, típica do jornalismo investigativo, na qual uma história concreta funciona como porta de entrada para um argumento mais amplo.
O primeiro caso é o de Bailey Anderson e seu marido, James. Recém-chegados à Califórnia, com um filho adolescente e outro a caminho, eles buscavam uma igreja saudável onde pudessem congregar. Segundo Basham, o casal passou a perceber que muitas igrejas demonstravam dificuldade em tratar de forma direta e bíblica temas culturalmente sensíveis. Sermões tornavam-se vagos, evitando afirmações claras sobre pecado, especialmente na área da sexualidade, numa tentativa de tornar a mensagem mais palatável a ouvintes moldados pela sensibilidade cultural contemporânea.
VEJA TAMBÉM:
Após um ano, o casal retornou à Geórgia, região tradicionalmente identificada como parte do “cinturão da Bíblia” nos Estados Unidos. A expectativa era encontrar um ambiente eclesiástico mais firme doutrinariamente. Contudo, segundo a autora, o cenário foi semelhante. A igreja que haviam deixado passou a realizar reuniões de “reconciliação racial” nas quais, durante os primeiros seis meses, pessoas brancas eram orientadas a não falar e recebiam material para compreender sua “branquitude”.
Mesmo sendo batistas reformados, Bailey e James decidiram frequentar uma igreja da Igreja Presbiteriana na América (PCA). Ali, relata Basham, o pastor iniciou uma série sobre justiça que, na percepção do casal, tratava exclusivamente de justiça social. Em um dos sermões, abordando a ideia de pecados geracionais, o pastor teria pedido que pessoas brancas se levantassem e aplaudissem as pessoas negras presentes, como demonstração pública de arrependimento por uma longa história de racismo, ainda que nenhum dos presentes tivesse cometido pessoalmente tal pecado.
Basham encerra esse relato afirmando que a experiência do casal não é isolada. Segundo ela, “são inúmeros os casos semelhantes espalhados por todo o país”, nos quais cristãos se veem consternados ao perceber que pastores e líderes ministeriais estariam permitindo que categorias culturais moldassem o conteúdo do púlpito em lugar da Escritura.
É a partir desse ponto que a autora amplia o horizonte da discussão. Ela argumenta que o fenômeno não é novo. Entre as décadas de 1920 e 1950, sustenta Basham, o Partido Comunista dos Estados Unidos teria compreendido que a melhor estratégia para difundir suas ideias não seria combater o cristianismo frontalmente, mas infiltrar-se em suas estruturas, atraindo líderes por meio de pautas socialmente atraentes, como justiça e pacifismo.
Como exemplo histórico, a autora menciona a fundação, em 1941, da chamada Mobilização Pacifista Americana, que buscou persuadir líderes religiosos a pressionar o presidente Franklin D. Roosevelt a manter os EUA fora da Segunda Guerra Mundial, posição que coincidia com os interesses da União Soviética naquele momento, quando Hitler e Stálin ainda eram aliados. Segundo Basham, o grupo chegou a enviar carta ao presidente defendendo “o valor e a dignidade da vida humana expressa na imagem divina”. Após a invasão da União Soviética pela Alemanha nazista, porém, a organização teria alterado radicalmente sua postura, tornando-se pró-guerra e mudando inclusive seu nome para Mobilização Popular Americana.
O Partido Comunista dos EUA decidiu que a melhor estratégia para difundir suas ideias não seria combater o cristianismo frontalmente, mas infiltrar-se em suas estruturas
Esse precedente histórico serve como chave interpretativa para o presente. Basham afirma que “organizações seculares e esquerdistas desinteressadas na promoção do Reino de Deus ou da moralidade bíblica na esfera pública estão canalizando dinheiro para grupos de fachada com nomes como ‘Rede Evangélica Ambiental’ (Evangelical Environmental Network) e ‘Mesa Evangélica de Imigração’ (Evangelical Immigration Table). Líderes evangélicos conhecidos, apresentando-se como representantes de cristãos comuns nos bancos das igrejas, estão mais uma vez publicando cartas abertas em jornais nacionais em nome de causas esquerdistas”.
Para a autora, esse movimento possui também uma dimensão estratégica. Ela observa que cerca de 32% do eleitorado norte-americano é composto por evangélicos, grupo majoritariamente identificado com a direita política. “Se o Partido Democrata – principal representante da esquerda naquele país – conseguisse reduzir pelo menos 10% do apoio evangélico aos republicanos – principais representantes da direita –, enfrentaria pouca oposição à sua agenda”.
Mudanças climáticas
No capítulo dedicado às mudanças climáticas, Megan Basham sustenta que, desde a década de 1980, houve diversas tentativas de persuadir protestantes conservadores a aderirem ao movimento ambientalista, mas que essas iniciativas teriam obtido pouco êxito inicial. Segundo a autora, foi nesse contexto que a National Religious Partnership for the Environment teria concluído que seria necessário redirecionar parte dos recursos recebidos de fundações como Hewlett, Rockefeller e MacArthur não apenas para setores católicos e judaicos liberais, mas também para alcançar o expressivo contingente evangélico, que representaria cerca de 45% do eleitorado à época.
Desse esforço teria surgido, em 1993, a Evangelical Environmental Network (EEN). De acordo com Basham, a estratégia da organização consistiu em buscar influência por meio de instituições evangélicas consolidadas e amplamente respeitadas. Entre elas, a autora destaca a Christianity Today, revista fundada por Billy Graham.
Basham argumenta que a combinação entre o trabalho articulado da EEN e a disposição de certos líderes em dialogar com círculos de influência política em Washington teria favorecido a incorporação gradual da pauta climática no discurso evangélico institucional. A autora observa que, naquele período, quase todas as igrejas possuíam uma assinatura da Christianity Today, o que ampliaria o alcance dessa mudança de ênfase.
VEJA TAMBÉM:
Segundo o livro, a EEN teria buscado enquadrar as mudanças climáticas não apenas como questão científica ou política, mas como imperativo moral cristão, integrando o cuidado ambiental ao núcleo da identidade evangélica.
Além dessas instituições, Basham afirma que a Southern Baptist Convention (SBC), maior denominação protestante dos Estados Unidos, também se tornou alvo de iniciativas semelhantes, especialmente por meio da Ethics and Religious Liberty Commission (ERLC). De acordo com a autora, o debate ambiental teria sido introduzido sob a linguagem do “cuidado com a criação”. Ela sustenta que, por trás dessa movimentação, estaria a intenção de “romper a sólida oposição republicana a medidas como o sistema de limite e comércio de emissões”.
O livro argumenta ainda que, diante de resistências iniciais, a estratégia passou a incorporar elementos escatológicos no discurso. Basham afirma que, em certos contextos, o foco da mensagem cristã teria se deslocado do retorno glorioso de Cristo para uma ênfase crescente na catástrofe climática iminente.
Nesse ponto, a autora menciona o teólogo anglicano Alister McGrath, professor em Oxford e autor amplamente publicado, inclusive no Brasil. Segundo Basham, McGrath teria afirmado que “os cristãos que não veem as mudanças climáticas como uma crise existencial possuem menos amor pela criação de Deus”.
O livro também cita o presbiteriano Gavin Ortlund, membro do Keller Center for Cultural Apologetics da The Gospel Coalition, que teria publicado um vídeo em seu canal no YouTube criticando cristãos céticos quanto à centralidade da pauta climática. Basham avalia que o vídeo carece de fundamentação científica e afirma que “sua descrição das consequências das mudanças climáticas é tão hiperbólica quanto qualquer coisa vinda de Greta Thunberg”.
A incorporação da pauta climática em setores do evangelicalismo norte-americano não ocorreu de forma espontânea, mas sim em um contexto mais amplo de financiamento direcionado
Além disso, a autora observa que, em 2023, a própria The Gospel Coalition sediou um debate sobre mudanças climáticas entre dois participantes que, segundo ela, não possuíam formação científica específica na área, mas que teriam defendido a tese de que o aquecimento global é majoritariamente causado pela ação humana.
Ao longo do capítulo, Basham procura demonstrar que a incorporação da pauta climática em setores do evangelicalismo norte-americano não ocorreu de forma espontânea, mas sim em um contexto mais amplo de financiamento direcionado e redefinição moral do tema.
Imigração ilegal
O capítulo sobre imigração ilegal inicia-se com a história trágica de uma mãe que perdeu o filho, atropelado por um imigrante ilegal embriagado. Basham utiliza esse relato para introduzir o tema sob forte apelo emocional, destacando como a dor da mãe se tornava ainda mais aguda ao ver diferentes grupos defendendo políticas favoráveis à imigração ilegal nos Estados Unidos.
A partir desse caso, a autora apresenta uma acusação publicada pelo portal conservador Breitbart: segundo a reportagem, sob a liderança de Richard Land e, posteriormente, de Russell Moore, a Comissão de Ética e Liberdade Religiosa da Convenção Batista do Sul teria se unido à Evangelical Immigration Table (EIT), organização financiada, entre outros, por George Soros.
Basham apresenta essa possível conexão como algo extremamente grave, pois, caso a acusação fosse verdadeira, “a liderança de uma série de organizações evangélicas confiáveis”, cujos nomes ela enumera, estaria vinculada a uma estrutura de financiamento associada a um investidor claramente identificado com pautas progressistas. A autora sustenta que a EIT foi fundada com o propósito de promover, entre os evangélicos, políticas de fronteiras abertas e a concessão de status legal a muitos imigrantes ilegais.
Se uma investigação semelhante à de Magan Basham fosse feita aqui no Brasil, qual seria o resultado?
Um episódio curioso citado no capítulo envolve o comentarista político Eric Metaxas, conhecido no Brasil por sua magistral biografia de Dietrich Bonhoeffer. Segundo Basham, Metaxas foi convidado a assinar uma declaração que, à primeira vista, defendia princípios bíblicos gerais sobre imigração. Contudo, ao perceber que “sua assinatura em uma declaração de crenças muito gerais estava sendo usada para fazer lobby por uma legislação da qual discordava, imediatamente retirou seu nome”. O caso é apresentado como exemplo de como declarações amplas poderiam ser manipuladas para respaldar propostas legislativas específicas.
A autora também menciona os esforços de Tim Keller e Max Lucado para que Donald Trump reconsiderasse promessas de campanha relacionadas à imigração. Essa postura levou o The Washington Post a noticiar que líderes evangélicos demonstravam preocupação com a drástica redução na entrada de refugiados nos Estados Unidos, argumentando que Jesus instrui os cristãos a acolher o estrangeiro e aqueles que fogem de perseguição. De acordo com Basham, entretanto, muitos dos imigrantes em situação ilegal não se enquadrariam nessas categorias, o que, em sua avaliação, revelaria uma aplicação imprecisa ou seletiva do princípio bíblico.
Mais adiante, a autora descreve a estratégia do Fórum Nacional de Imigração, que incluía, entre outras iniciativas, “recrutar pelo menos cinco pastores por mês para serem incluídos como novos signatários da Declaração Evangélica de Princípios”, que advogava status legal para imigrantes ilegais, e trabalhar com líderes de 15 igrejas para envolvê-las diretamente na causa imigratória. Basham interpreta essas ações como parte de um esforço coordenado, financiado por milhões de dólares provenientes de diversos doadores considerados controversos – entre eles, novamente, George Soros.
Na parte final do capítulo, a autora afirma que, embora se apresentassem como defensores da causa imigratória, Keller e Lucado se opuseram à suspensão temporária de 90 dias decretada por Donald Trump para a entrada de refugiados provenientes de sete países de maioria muçulmana apontados como focos de atividades terroristas. Basham também registra o que considera um silêncio desses mesmos líderes evangélicos quando, no governo de Joe Biden, o secretário de Segurança Interna declarou que pastores cubanos que fugiam de perseguição, prisão e tortura em seu país não seriam bem-vindos nos Estados Unidos. Para a autora, essa assimetria evidenciaria uma seletividade moral na aplicação do discurso humanitário.
Esses exemplos evidenciam como líderes de destaque do evangelicalismo norte-americano têm sido influenciados por pautas progressistas e continuam usando seu nome, plataformas e capital de confiança para moldar a percepção e as convicções de milhões de cristãos em todo o país. A pergunta que não quer calar é: se investigação semelhante fosse feita aqui no Brasil, qual seria o resultado?
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








