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Semanas atrás, publiquei a primeira parte da resenha do lançamento Pastores à venda: como líderes evangélicos negociaram a verdade pela agenda esquerdista, de Megan Basham – obra lançada originalmente nos Estados Unidos como Shepherds for Sale: How Evangelical Leaders Traded the Truth for a Leftist Agenda e que figurou nas listas de mais vendidos do The New York Times. A resenha foi escrita por Willy Robert Henriques, pastor da Igreja Batista Redenção, em Juiz de Fora (MG), graduado em Teologia pelo Seminário Martin Bucer, mestrando em Arts in Religion pelo Puritan Reformed Theological Seminary e participante do programa Mastership da Stand With Us Brasil. Hoje apresento a parte final da resenha, também escrita pelo pastor Willy.
Quando o Evangelho é substituído pela ideologia
Sequestrando o movimento pró-vida
Um dos capítulos mais impactantes do livro Pastores à venda é dedicado ao movimento pró-vida. Nele, Basham demonstra surpresa, e crítica, diante da forma como diversos líderes evangélicos reagiram à derrubada de Roe v. Wade, decisão da Suprema Corte que, desde 1973, havia garantido proteção constitucional ao aborto nos Estados Unidos e que foi revertida em junho de 2022.
A autora sustenta que, em vez de celebrarem de maneira inequívoca o resultado histórico, alguns líderes passaram a condicionar ou relativizar o avanço jurídico. Entre os exemplos citados está Mika Edmondson, apresentado como colaborador frequente da The Gospel Coalition. Segundo Basham, Edmondson sugeriu que “proibir o aborto só seria moralmente legítimo se ao mesmo tempo expandissem o Estado de bem-estar social”.
Para a autora, essa posição representaria uma mudança significativa na lógica tradicional do movimento pró-vida, deslocando o foco do princípio da inviolabilidade da vida para a necessidade de políticas sociais amplas que acompanhassem a criminalização do aborto.
Líderes evangélicos importantes dos EUA não celebraram a reversão da decisão da Suprema Corte que liberava o aborto no país
Outro caso destacado é o de Tim Keller. De acordo com Basham, Keller argumentou que, assim como não existem parâmetros bíblicos diretos para criminalizar a adoração a outros deuses, embora a idolatria seja claramente condenada nas Escrituras, também não haveria base bíblica suficiente para defender automaticamente a tipificação do aborto como crime civil. E aqui segue a citação completa de Keller no Twitter:
“Aqui estão duas normais MORAIS bíblicas: 1) é pecado adorar ídolos ou qualquer deus que não seja o Deus verdadeiro, e 2) não matarás. Se você perguntar aos evangélicos se deveríamos ser proibidos por lei de adorar qualquer outro deus que não seja o Deus da Bíblia – eles diriam ‘não’. Permitimos que esse pecado terrível seja legal. Porém, se você perguntar a eles se os americanos deveriam ser proibidos por lei de abortar um bebê, eles diriam ‘sim’. Agora, por que legalizar o primeiro pecado e NUNCA falar sobre ele, mas proibir o segundo pecado, elegendo-o como um principal assunto de discussão moral e política? A Bíblia nos diz que idolatria, aborto e ignorar os pobres são todos pecados graves. Mas ela não nos diz exatamente COMO devemos aplicar essas normas a uma democracia pluralista. [...] Sei que o aborto é um pecado, mas a Bíblia não me diz qual é a melhor política para diminuir ou acabar com o aborto neste país, nem quais políticas práticas ou legais são mais eficazes para esse fim.”
A autora interpreta essa analogia como problemática, por entender que ela enfraquece a historicidade do engajamento cristão na defesa da vida desde a concepção.
Além disso, Basham aponta o que considera um duplo critério moral na atuação pública de Keller. Segundo ela, o pastor teria afirmado que seria desmoralizante para um cristão apoiar Donald Trump, mas não teria aplicado o mesmo juízo àqueles que apoiaram Joe Biden, apesar das posições deste último favoráveis à ampliação do acesso ao aborto. Para a autora, essa assimetria revelaria uma seletividade política que impacta diretamente o discurso pró-vida no meio evangélico.
Ao longo do capítulo, Basham sugere que o movimento pró-vida estaria sendo progressivamente redefinido. Em vez de fundamentar-se exclusivamente na defesa incondicional da vida humana, parte da liderança pró-vida passaria a vinculá-lo a um pacote mais amplo de compromissos sociais e posicionamentos políticos. Para a autora, essa reconfiguração não apenas altera a estratégia do movimento, mas também transforma sua identidade moral e teológica.
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A mídia cristã e os “ricaços”
No breve capítulo dedicado à mídia cristã, Basham dirige sua crítica a veículos que se apresentam como confessionais, mas que, segundo ela, vêm se alinhando progressivamente às chamadas “ideologias woke”. O exemplo mais recorrente volta a ser a Christianity Today.
A autora observa que diferentes editores da publicação, entre 2015 e 2022, realizaram doações para candidatos do Partido Democrata. Ela menciona especificamente Daniel Silliman, que, segundo relata, teria contribuído financeiramente para cinco candidatos identificados como pró-aborto. Para Basham, esse tipo de envolvimento político indicaria não apenas posicionamentos pessoais, mas um possível deslocamento ideológico dentro de instituições historicamente associadas ao evangelicalismo conservador.
Diálogo gracioso
No capítulo intitulado “Diálogo gracioso”, Basham concentra-se no período da pandemia de Covid-19 e na maneira como líderes cristãos responderam às diretrizes sanitárias.
Ela dedica atenção especial a Francis Collins, então diretor do National Institutes of Health (NIH). Segundo a autora, Collins teria ajudado a difundir entre cristãos aquilo que ela descreve como “narrativas falsas” sobre a Covid-19, defendendo obrigatoriedade do uso de máscaras, distanciamento social e vacinação compulsória – temas que, à época, eram objeto de intenso debate médico e político.
Basham argumenta que tais medidas foram promovidas no meio cristão sob o discurso moral do amor ao próximo, sintetizado no slogan: “Ame o seu próximo: vacine-se”. Em sua interpretação, essa estratégia teria transformado decisões médicas prudenciais em imperativos morais.
Segundo Megan Basham, Francis Collins teria ajudado a difundir entre cristãos aquilo que ela descreve como “narrativas falsas” sobre a Covid-19
A autora também afirma que Collins utilizou sua organização voltada à integração entre fé e ciência que, segundo ela, mescla evolucionismo darwiniano com leitura cristã das Escrituras, para mobilizar igrejas em apoio às políticas sanitárias. Uma declaração pública defendendo vacinas, máscaras e lockdowns foi assinada, entre outros, por N. T. Wright e Philip Yancey, além de milhares de pastores e líderes ministeriais.
Nesse contexto, Basham menciona novamente Tim Keller, que em entrevista de maio de 2020 teria classificado igrejas como a Grace Community Church, pastoreada por John MacArthur, como representando “o mau e o feio” entre as respostas cristãs à pandemia, por desafiarem ordens civis de lockdown e retomarem cultos presenciais após dois meses.
Rick Warren também é citado como colaborador de Collins, especialmente em críticas a cristãos que divergiam das orientações dos “supostos especialistas”. Basham sustenta ainda que Collins foi amplamente elogiado por esses líderes como exemplo de fé e ciência integradas, mas posteriormente defendeu o uso de tecidos fetais provenientes de abortos em pesquisas científicas, o que, para a autora, agravaria a incoerência do apoio recebido.
Para a autora, esse contraste evidencia como alianças circunstanciais podem gerar consequências teológicas e morais profundas. E esse padrão de aproximações, concessões e reposicionamentos não se limita ao debate sobre pandemia, mas se estende a outras pautas centrais da vida pública e da própria Igreja.
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Teoria crítica da raça e movimentos sociais
Parte significativa do livro é dedicada à análise da assim chamada Teoria Crítica da Raça (TCR). Basham descreve essa corrente como defensora da ideia de racismo estrutural e de uma responsabilidade coletiva histórica atribuída a brancos em relação a negros. Segundo ela, alguns pastores teriam adotado essa linguagem, chegando a constranger membros brancos de suas igrejas a se arrependerem de “privilégios” associados à sua condição racial.
A autora afirma que a TCR possui origens e objetivos ligados ao socialismo e argumenta que sua incorporação ao discurso eclesiástico equivaleria a introduzir categorias ideológicas externas na vida da igreja.
Entre os nomes citados está o de Matt Chandler, líder associado à rede de plantação de igrejas Acts 29 Network, que teria produzido conteúdos explicando para cristãos brancos como compreender a noção de “privilégio branco”.
Basham também critica o movimento #MeToo, reconhecendo seu objetivo declarado de proteger vítimas de abuso, mas argumentando que, em sua leitura, ele teria contribuído para generalizações injustas e para a aceitação acrítica de denúncias, inclusive quando questionáveis.
Nem ouse chamar de pecado
No capítulo com esse título, Basham aborda o financiamento de iniciativas voltadas à promoção da “aceitação” de pessoas LGBTQIA+ em igrejas cristãs. Ela menciona um herdeiro bilionário homossexual que teria criado uma fundação destinada a investir dezenas de milhões de dólares nesse propósito.
Será que a igreja evangélica brasileira também está sujeita à influência de grupos e instituições anticristãs interessados em moldar o discurso e as prioridades da igreja?
Entre as organizações citadas está a Reconciling Ministries Network, que teria recebido US$ 2 milhões para apoiar a plena participação de pessoas de todas as orientações sexuais na United Methodist Church.
A autora volta a mencionar Rick Warren, descrevendo sua postura como ambígua em relação a uniões homoafetivas. Cita também D. A. Carson, que teria elogiado um livro favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo como tema legítimo de discordância entre cristãos professos, embora posteriormente tenha feito declarações contundentes contra a prática, levando Basham a sugerir possível inconsistência ou leitura incompleta da obra elogiada.
Mais uma vez, Tim Keller é mencionado, agora em conexão com debates internos na Presbyterian Church in America, nos quais teria contribuído para a aprovação de uma postura menos confrontacional em relação ao movimento LGBTQIA+.
Uma pergunta em aberto
Pastores à venda é, sem dúvida, de um livro polêmico. As afirmações feitas por Basham são graves e envolvem pastores, escritores e líderes ministeriais amplamente respeitados, inclusive no Brasil. Nomes como Tim Keller, Rick Warren e Philip Yancey exerceram e continuam exercendo influência significativa sobre milhões de cristãos ao redor do mundo. O mesmo pode ser dito de instituições como a Christianity Today e a Convenção Batista do Sul.
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Vale mencionar que não se trata de acusações genéricas, mas de alegações fundamentadas em vasta documentação: artigos, livros, entrevistas, podcasts, vídeos e postagens em redes sociais, todos devidamente referenciados nas notas de rodapé.
A Editora Trinitas está de parabéns pelo lançamento da obra em português; isso amplia o alcance desse debate ao público brasileiro.
O livro convida à reflexão: se esse é o cenário descrito nos Estados Unidos, qual seria a realidade no Brasil? Caso investigação semelhante fosse conduzida aqui, chegaríamos a conclusões diferentes? Será que a igreja evangélica brasileira também está sujeita à influência de grupos e instituições anticristãs interessados em moldar o discurso e as prioridades da igreja? A pergunta permanece em aberto, e é justamente essa abertura que torna a leitura do livro de Megan Basham muito provocativa.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








