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Franklin Ferreira

Franklin Ferreira

Sociedade

A política da inveja e o veneno do ressentimento

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Protesto do Black Lives Matter em Nova York: ressentimento move boa parte dos grupos identitários. (Foto: Peter Foley/EFE/EPA)

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Dois pecados antigos alimentam nossa cultura política – e a fé cristã oferece uma resposta que nenhuma revolução pode produzir.

Quando o sucesso alheio se torna uma ofensa

Há algo profundamente perturbador na cultura política e social brasileira: a dificuldade de admirar o sucesso alheio. Em vez de celebrar quem prospera pelo trabalho, pela inteligência, pela disciplina ou pelo espírito empreendedor, frequentemente se prefere suspeitar de suas conquistas. O empresário é explorador até prova em contrário. O rico é culpado simplesmente por ser rico. Quem ascende socialmente desperta menos admiração que desconfiança.

Evidentemente, existem fortunas construídas pela corrupção, por privilégios injustos e pela exploração. Denunciá-los é uma exigência da justiça. O problema começa quando toda desigualdade é interpretada como injustiça e toda prosperidade, como evidência de alguma transgressão moral.

Essa mentalidade, em parte herdada de nossa formação cultural portuguesa, encontra terreno fértil numa sociedade marcada pelo patrimonialismo, pela burocracia e por uma relação ambígua com a riqueza. No Brasil, a suspeita diante do sucesso alheio convive paradoxalmente com a ostentação, o culto às celebridades e a dependência de favores estatais.

Há algo profundamente perturbador na cultura política e social brasileira: a dificuldade de admirar o sucesso alheio

Não se trata de um defeito exclusivamente nacional, mas de manifestações de dois pecados universais que adquiriram extraordinária força em nossa cultura: a inveja e o ressentimento.

O que a fé cristã ensina sobre a inveja

A tradição cristã não considera a inveja uma simples emoção desagradável. Trata-se de um pecado que corrompe nossa relação com Deus e com o próximo.

O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2539, define a inveja como um vício capital, caracterizado pela tristeza diante do bem alheio e pelo desejo desordenado de possuí-lo. Recordando Agostinho de Hipona, apresenta-a como um pecado particularmente diabólico.

O Catecismo de Heidelberg, na pergunta 113, ao explicar o décimo mandamento, ensina que Deus proíbe até mesmo os menores desejos contrários à sua lei. O Catecismo Maior de Westminster, na pergunta 148, condena expressamente a inveja dos bens do próximo e o descontentamento com nossa própria condição.

Essas tradições cristãs convergem numa verdade fundamental: invejar não é simplesmente desejar possuir o que outra pessoa possui. É entristecer-se porque ela tem aquilo que desejamos.

O invejoso não pergunta apenas “Por que não tenho aquilo?” Sua pergunta mais profunda é “Por que ele tem aquilo que eu não tenho?” Por isso, o invejoso nem sempre se satisfaz quando melhora de vida. Muitas vezes, somente encontra satisfação quando o outro perde aquilo que conquistou.

O ressentimento como identidade moral

O ressentimento está intimamente relacionado à inveja, mas não é idêntico a ela. Enquanto a inveja se entristece diante do bem alheio, o ressentimento conserva a memória de uma ofensa, real ou imaginada, transformando-a em hostilidade persistente.

A Escritura condena essa disposição: “Não procure vingança, nem guarde ira [...], mas ame o seu próximo como você ama a si mesmo” (Lv 19,18). O Catecismo Maior de Westminster, na pergunta 136, também condena o ódio, a ira pecaminosa e o desejo de vingança.

O ressentimento oferece algo psicologicamente sedutor: uma identidade fundada na condição de vítima. A pessoa ressentida passa a interpretar sua existência principalmente a partir daquilo que outros lhe fizeram ou supostamente lhe devem.

O ressentimento oferece algo psicologicamente sedutor: uma identidade fundada na condição de vítima

Essa disposição pode produzir uma profunda inversão de valores. Aquilo que não conseguimos alcançar passa a ser considerado moralmente condenável. Em vez de reconhecer o mérito alheio, procuramos desqualificá-lo. Assim, a incapacidade de prosperar transforma-se em condenação da prosperidade; a frustração pessoal, em pretensa superioridade moral; e o fracasso, em acusação permanente contra os bem-sucedidos.

Como a esquerda transforma ressentimento em capital político

É precisamente nesse ponto que inveja e ressentimento podem se tornar instrumentos poderosos de mobilização política.

A tradição marxista interpreta a história e as relações sociais a partir da luta de classes, estabelecendo uma oposição entre aqueles que possuem os meios de produção e aqueles que trabalham para eles. Essa interpretação oferece uma poderosa justificativa ideológica ao ressentimento. Ao apresentar a prosperidade dos proprietários como resultado da exploração, transforma desigualdades econômicas em instrumentos de mobilização política e divide a sociedade entre culpados e vítimas, exploradores e explorados. Quando toda dificuldade pessoal passa a ser explicada como consequência da prosperidade alheia, o cidadão deixa de ser incentivado a desenvolver suas capacidades, trabalhar, empreender, poupar e assumir responsabilidades. Em vez disso, é estimulado a identificar culpados externos por sua condição.

A promessa deixa de ser apenas combater a pobreza e passa a incluir a punição, simbólica ou material, daqueles que prosperaram. É nesse ambiente que crescem discursos que confundem justiça com nivelamento da sociedade, solidariedade com dependência do Estado e igualdade perante a lei com a imposição de resultados iguais.

Embora o ressentimento possa ser explorado por diferentes correntes políticas, existe uma afinidade particularmente preocupante entre esse sentimento e a tradição marxista: a transformação do antagonismo entre classes em princípio de interpretação da sociedade e instrumento de mobilização política. Em vez de superar divisões, essa perspectiva tende a ampliá-las.

O ressentimento como cultura política no Brasil

No Brasil, o patrimonialismo, os privilégios corporativos e a desigualdade de oportunidades oferecem combustível permanente para discursos de antagonismo social.

A esquerda brasileira frequentemente apresenta a política como uma disputa entre pobres e ricos, trabalhadores e empresários, povo e elites. O paradoxo é que governos que denunciam privilégios podem preservar estruturas favoráveis a grupos politicamente conectados, enquanto trabalhadores e pequenos empreendedores continuam submetidos a impostos elevados, serviços deficientes e obstáculos burocráticos.

Consolida-se, assim, uma cultura na qual se exige muito do Estado, mas nem sempre se cobra com igual intensidade a responsabilidade de seus dirigentes.

Uma sociedade justa deve combater a corrupção, assegurar oportunidades e proteger os vulneráveis. Mas precisa reconhecer que a prosperidade de uma pessoa não constitui, por si mesma, uma injustiça contra outra. O enriquecimento legítimo não é necessariamente um jogo de soma zero. A criação de empresas, empregos, tecnologias e serviços pode ampliar a prosperidade coletiva. O sucesso alheio não precisa representar nossa derrota.

Uma sociedade dominada pela inveja deseja que o próximo tenha menos. Uma sociedade orientada pelo amor cristão deseja que todos vivam com dignidade, liberdade e responsabilidade

A justiça cristã não é a vingança dos ressentidos

O cristianismo oferece uma alternativa tanto ao egoísmo dos poderosos quanto à inveja daqueles que desejam ocupar seu lugar.

O oitavo mandamento protege a propriedade legítima e condena o roubo. O décimo proíbe cobiçar aquilo que pertence ao próximo. A mesma Escritura, porém, exige generosidade, honestidade nas relações econômicas, salários justos e cuidado com os vulneráveis. Portanto, a ética cristã não absolutiza a riqueza nem santifica a pobreza. Ela julga ricos e pobres pela mesma lei moral.

João Batista não ordenou aos cobradores de impostos judeus que abandonassem sua atividade, mas que não cobrassem além do estipulado. Aos soldados romanos, ordenou que não extorquissem ninguém e se contentassem com seus salários (Lc 3,12-14). Paulo, por sua vez, ensinou que aquele que furtava deveria trabalhar honestamente, não apenas para sustentar-se, mas também para repartir com quem estivesse necessitado (Ef 4,28).

Observe-se a sequência: abandonar o pecado, trabalhar e repartir. Não há espaço para exploração, mas tampouco para a cobiça. A generosidade cristã nasce do amor ao próximo, não do ódio contra quem possui mais.

O evangelho liberta da inveja e do ressentimento

A resposta cristã à inveja não consiste em recomendar pensamento positivo ou resignação diante das injustiças sociais. Ela começa com arrependimento e transformação do coração.

O invejoso precisa reconhecer que os dons concedidos ao próximo não diminuem aqueles que Deus lhe concedeu. O ressentido precisa compreender que alimentar a amargura não muda o passado; apenas prolonga seus efeitos sobre a própria vida.

O apóstolo Paulo ordena: “Alegrem-se com os que se alegram e chorem com os que choram” (Rm 12,15). Poucos mandamentos confrontam tão diretamente nossa cultura. Chorar com quem sofre é necessário; alegrar-se sinceramente com quem prospera pode ser ainda mais difícil. O próprio Paulo testemunha ter aprendido a viver contente em toda e qualquer situação. Seu contentamento não dependia das circunstâncias nem da comparação com outras pessoas, mas da suficiência de Cristo (Fp 4,11-13).

A cruz também destrói nossa pretensão de superioridade moral. Diante dela, ricos e pobres, empresários e trabalhadores, governantes e governados encontram-se na mesma condição: pecadores necessitados da graça. Por isso, a Igreja não deve transformar-se em instrumento de luta de classes nem em capelania dos poderosos. Sua missão é anunciar o evangelho, formar consciências, defender a justiça e ensinar a responsabilidade pessoal.

Uma sociedade dominada pela inveja deseja que o próximo tenha menos. Uma sociedade orientada pelo amor cristão deseja que todos vivam com dignidade, liberdade e responsabilidade. A inveja pergunta por que o outro possui mais. O ressentimento deseja vê-lo perder. A justiça procura corrigir o que está errado. Mas o amor cristão vai além: ensina-nos a desejar sinceramente o bem do próximo.

Essa transformação, porém, não pode ser produzida por nenhuma revolução política. Ela é fruto da graça de Deus, que nos liberta da comparação, da amargura e do ódio. E essa graça nos conduz a Cristo, em quem encontramos a verdadeira satisfação da alma. Como escreveu Bernardo de Claraval (Sermões sobre o Cântico dos Cânticos, XV, 6): “Jesus é mel na boca, melodia no ouvido e júbilo no coração. Todo alimento da alma é árido se não for aspergido com este óleo; é insípido se não for temperado com este sal. Aquilo que escreves não tem sabor se eu não ler nele o nome de Jesus. Quando discutes ou falas, para mim nada tem gosto se eu não ouvir ressoar o nome de Jesus”.

É somente quando Cristo se torna nosso maior tesouro que a prosperidade alheia deixa de ser uma ameaça, a gratidão vence a inveja e o amor ocupa o lugar do ressentimento.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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