Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Franklin Ferreira

Franklin Ferreira

Religião

O significado da Páscoa: a morte de Jesus e a satisfação da justiça divina

crucifixao rabula significado da páscoa
Uma das primeiras representações da crucifixão de Jesus em manuscritos, dos Evangelhos de Rabula (século 6.º). (Foto: Wikimedia Commons/Domínio público)

Ouça este conteúdo

Nesta Páscoa de 2026, celebrada no domingo, a Igreja do Senhor Jesus volta os olhos para o túmulo vazio. Contudo, o brilho da ressurreição só resplandece porque na Sexta-Feira da Paixão o eterno Filho de Deus entregou-se à morte na cruz, consumando, de modo pleno e definitivo, tudo quanto fora anunciado pelos santos profetas. Para a fé cristã a cruz não é mero prelúdio ou simples exemplo de amor; ela é o eixo central, o coração pulsante da redenção. Sem a morte vicária e substitutiva do Messias Jesus, não há ressurreição que nos beneficie, nem esperança que perdure. Iluminados pela Escritura Sagrada, regra suprema e suficiente de fé e prática, e auxiliados pelo testemunho subordinado da tradição cristã, contemplamos a importância da cruz: o lugar onde a justiça divina foi plenamente satisfeita, onde a ira santa foi aplacada e onde a glória de Deus brilhou com máxima intensidade.

A honra de Deus e a necessidade da satisfação

Anselmo de Cantuária, no século 11, formulou em sua obra clássica Cur Deus homo? a doutrina da satisfação, que permanece um dos pilares da compreensão cristã da cruz. O arcebispo tratou da questão “por que Deus se fez homem?” Sua resposta é de uma lógica devastadora. O pecado não é uma simples falha moral ou erro humano; é uma desonra infinita contra a honra infinita de Deus. Toda criatura racional deve a Deus obediência perfeita e total. Ao pecar, o homem roubou daquele a quem tudo deve.

A justiça divina exige reparação proporcional à ofensa. Nenhum ser finito pode pagar dívida tão grande: o homem pecador não possui mérito suficiente, e um anjo não pode representar a raça humana. Somente o Deus-homem poderia oferecer satisfação adequada. Anselmo declara: “Se o pecado é tão grave que nem mesmo o universo inteiro pode repará-lo, só o Deus encarnado pode oferecer satisfação suficiente”. Na cruz, o Messias Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, apresentou ao Pai a obediência perfeita que a humanidade jamais poderia dar e a morte voluntária que a justiça exigia. Não se tratava de pagar resgate ao diabo, mas de restaurar a honra de Deus de maneira digna dele.

Assim, a cruz não foi um acidente trágico da história, mas a solução necessária e perfeita ao dilema entre a justiça e a misericórdia divinas. Anselmo nos ensina que somente na cruz a honra de Deus foi plenamente honrada e, ao mesmo tempo, o pecador pode ser perdoado sem que Deus deixe de ser justo.

Sem a morte vicária e substitutiva do Messias Jesus, não há ressurreição que nos beneficie, nem esperança que perdure

A substituição penal e a ira de Deus

João Calvino, o grande reformador de Genebra, aprofundou essa visão com rigor bíblico nas Institutas da religião cristã. Para Calvino, o Messias Jesus não morreu apenas como exemplo moral ou mártir inspirador; Ele carregou literalmente a culpa e a maldição do seu povo eleito. “Cristo se interpôs”, afirma o reformador, “tomou sobre si o castigo e propiciou a Deus Pai”.

Baseado em textos como “o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós” (Is 53,6) e “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição em nosso lugar” (Gl 3,13), Calvino explica que nossos pecados foram imputados a Jesus, e sua perfeita justiça nos foi imputada. Na cruz, o Justo sofreu a ira que nós merecíamos. A morte de Jesus não foi mera demonstração de amor; foi a execução pública da sentença divina contra o pecado.

Calvino rejeita qualquer noção de expiação potencial ou universalista em sentido salvífico. A cruz realizou objetivamente a reconciliação para todos aqueles que o Pai deu ao Filho (Jo 6,37-39). O cristão pode, portanto, declarar com plena confiança que sua absolvição consiste em que a culpa que o mantinha sujeito à pena foi transferida para a cabeça do Filho de Deus; sobre si resta apenas a absolvição plena. Pois, para Calvino, a cruz é o tribunal divino onde o veredito de condenação se transformou em justificação para o povo de Deus. Como ele escreveu: “Cristo é para mim melhor do que mil testemunhos” – ou seja, a segurança do cristão não vem de olhar para dentro (para suas obras ou sentimentos), mas de olhar para Jesus e para as promessas de Deus nele.

A eficácia e o triunfo definitivo da cruz

John Owen, o grande teólogo puritano do século 17, levou a doutrina da cruz à sua conclusão lógica em sua obra magistral A morte da morte na morte de Cristo. Owen demonstra que a morte de Jesus foi eficaz, definida e vitoriosa. Jesus não morreu para tornar a salvação meramente possível a todos os homens; Ele morreu para garantir a salvação real, infalível e completa de todos os eleitos.

VEJA TAMBÉM:

“A morte de Cristo”, escreve Owen, “foi a morte da morte”. Na cruz, o Cordeiro de Deus não carregou pecados de forma genérica ou hipotética. Ele expiou concretamente as transgressões do seu povo, cancelando a dívida, desarmando os principados e as potestades (Cl 2,14-15) e obtendo eterna redenção. Owen refuta com precisão as objeções arminianas: se Jesus tivesse morrido por todos os pecados de todos os homens, então ou todos seriam salvos ou a expiação teria falhado em seu propósito. Mas as Escrituras proclamam com triunfo: “Está consumado!” (Jo 19,30).

Owen nos chama a contemplar a cruz como o triunfo definitivo: ali a morte perdeu seu aguilhão, o inferno perdeu sua presa e o crente recebeu plena segurança de vida eterna. A cruz não deixou resíduo de condenação para aqueles que estão no Messias.

A glória suprema de Deus na cruz

Jonathan Edwards, o pregador do Grande Despertamento do século 18, eleva nosso olhar para o aspecto mais sublime da cruz: a manifestação da glória de Deus. Em sermões como “A excelência de Cristo” e em Uma história da obra da redenção, Edwards contempla o Calvário como o ápice da beleza divina. Na cruz convergem, de forma perfeita e harmoniosa, justiça e misericórdia, santidade e amor, soberania e humildade.

“Na cruz”, observa Edwards, “Deus manifestou sua glória de modo mais brilhante do que em qualquer outra obra”. O Filho eterno, igual ao Pai em majestade, “se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fp 2,8). O horror da cruz – com sua nudez, escárnio, sofrimento físico e o padecimento da ira divina – serviu para exibir a beleza insuperável da santidade divina. Edwards via na cruz não apenas a remissão de pecados, mas o grande teatro da soberania de Deus sobre a história. O pecado, que parecia frustrar os propósitos divinos, tornou-se o instrumento pelo qual Deus manifestou sua graça soberana com máximo esplendor.

Por que tanta ênfase na cruz justamente na celebração da Páscoa? Porque a ressurreição só tem sentido e poder por causa da morte que a precedeu

Da cruz para a ressurreição

Por que tanta ênfase na cruz justamente na celebração da Páscoa? Porque a ressurreição só tem sentido e poder por causa da morte que a precedeu. Se o Messias não tivesse morrido como nosso substituto perfeito, sua ressurreição seria apenas uma vitória pessoal, não nossa. Mas porque ele morreu em nosso lugar, pagando integralmente a dívida, a ressurreição é a declaração pública e divina de que a justiça foi satisfeita, a ira foi aplacada e a reconciliação foi consumada.

Como declara a Escritura, Jesus “foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou para a nossa justificação” (Rm 4,25). A cruz é o fundamento; a ressurreição é a coroa e o selo da vitória.

Essa doutrina transforma toda a vida cristã. O cristão vive crucificado com o Messias (Gl 2,20). A centralidade da cruz nos livra tanto do moralismo quanto do antinomismo. Ela produz profunda humildade, pois nada trouxemos e tudo recebemos na cruz; inspira ousadia missionária, visto que o evangelho da cruz é o poder de Deus para a salvação de todo o que crê (Rm 1,16); e nos conduz a uma adoração fervorosa e constante.

Que segurança! Sou de Jesus!
Eu já desfruto as bênçãos da luz
Sou por Jesus herdeiro de Deus
Ele me leva à glória dos céus

Canta, minha alma! Canta ao Senhor!
Rende-lhe sempre ardente louvor!
Canta, minha alma! Canta ao Senhor
Rende-lhe sempre ardente louvor!

VEJA TAMBÉM:

Nesta Páscoa de 2026, em meio a um mundo abalado por guerras, corroído pela corrupção e marcado por uma crescente perda de sentido, a Igreja se volta, em reverente rendição, à cruz. Que não nos envergonhemos da cruz, “escândalo para os judeus, loucura para os gentios” (1Co 1,23). Que meditemos na cruz, preguemos a cruz e vivamos a cruz diariamente.

Que o ensino da Escritura, como testemunhado pela tradição cristã, no ajude a fixar os olhos no Crucificado. Pois ali, e somente ali, o pecado foi expiado, a ira foi satisfeita, a morte foi morta e Deus foi glorificado ao máximo. Da cruz brota a ressurreição. Da morte de Jesus brota vida eterna para todos os que creem.

Que o Senhor nos conceda, nesta Páscoa, corações inflamados pela maravilha da cruz. Que possamos dizer com a Escritura: “Mas longe de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu estou crucificado para o mundo” (Gl 6,14).

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.