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Gabriel Sestrem

Gabriel Sestrem

Paternidade

O caos de janeiro: ter crianças de férias em casa revela o tipo de pai e mãe que você é

crianças de férias
Estresse dos pais com crianças de férias em casa é inevitável, mas pode trazer benefícios (Foto: Gemini)

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Se você conhece algum pai ou mãe de uma criança pequena, há uma grande chance de que nesse exato momento esteja estressado – aliás, pode ser que você seja esse pai ou essa mãe.

Janeiro é a época do ano em que as crianças costumam estar mais felizes: estão de férias, com tempo livre, sem precisar acordar cedo para ir à escola e, principalmente, mais perto dos pais. Mesmo que os pais trabalhem fora, é muito provável que haja mais oportunidades para que a família passe tempo junta.

Por outro lado, janeiro costuma ser um mês difícil para pais e mães. Sem dúvida estar com os filhos mais tempo por perto é positivo, mas exige manobrar muita coisa para que eles tenham a atenção necessária e isso pode gerar dificuldades para equilibrar todos os pratos, especialmente o trabalho.

Quem trabalha fora precisa se desdobrar, mas quem está em home office com os filhos também tem uma sobrecarga enorme ao tentar dar conta das obrigações profissionais com alguém sempre te chamando para brincar, pedindo toda hora uma coisa, reclamando do tédio... Quase nenhum pai está livre das temidas férias escolares e do tradicional estresse redobrado em janeiro.

Mas por que quase nenhum? Porque infelizmente muitos simplesmente não ligam. Pais ausentes não se estressam com os filhos, apenas aqueles que tentam dar conta e se importam com a forma como eles vão passar esse tempo em casa. Esses, sim, lidam com um estresse necessário, que traz inúmeros benefícios.

Perceba que há causas favoráveis e outras desfavoráveis para o estresse. Quando ele nasce de escolhas conscientes, como dedicar anos de esforço e renúncia para conquistar uma promoção no trabalho, é um estresse que vale a pena e dá sentido ao sacrifício. Por outro lado, se irritar no trânsito diariamente ou criar inimizades e tensões desnecessárias no trabalho consome a mesma energia sem produzir nada em troca.

Quando falamos de sobreviver a janeiro com crianças de férias em casa, claramente nos referimos ao primeiro tipo: o que constrói, não que desgasta. O estresse que vale a pena e que não pode ser deixado de lado.

Onde está seu tesouro?

Há um versículo bíblico, do clássico Sermão da Montanha, em que Jesus diz aos discípulos que “Onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração” (Mt 6:21). O ensinamento mostra que o coração (que na linguagem bíblica não é só o campo emocional, mas o centro da vontade e das decisões) persegue aquilo que damos mais valor, o que definimos como prioridade.  

Seu desejo hoje pode ser simplesmente ter mais tempo para descansar, ver a casa organizada e silenciosa, ter dias tranquilos para fazer as coisas com calma e por aí vai... Esses desejos estão longe de serem errados, mas não podem ser a prioridade quando alguém se torna pai ou mãe.

Nessa fase da vida, seu foco precisa estar voltado para os filhos, e durante as férias inevitavelmente o lugar onde eles estão na sua lista de prioridades será questionado.

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Os três caminhos possíveis com crianças de férias em casa

Há três caminhos que pais de filhos pequenos podem tomar ao longo de janeiro. O primeiro é esquecer que se trata de uma criança em férias (um dia você já foi uma e certamente não ficava imóvel e silencioso o tempo todo) e descarregar o estresse na criança. Ao optar por ele, nos afastamos emocionalmente dos filhos, porque as frustrações e a irritação se transformam em seguidas broncas, ressentimentos e culpa.  

A segunda rota possível é fingir que não há uma criança de férias em casa e tentar viver sua vida normal. É o caminho mais fácil para a maioria. A via da irresponsabilidade e da passividade, de forma parecida com a primeira, costuma cobrar uma fatura alta lá na frente, principalmente dos filhos na idade adulta, mas também dos pais.

Já o último caminho tem a ver com adaptar-se à nova rotina, que é temporária, e priorizar a criança. Essa é a via da paciência, do compromisso e da responsabilidade.

Tem a ver com compreender que você não precisa entreter a criança o tempo todo e que o ócio também é um componente importante para o desenvolvimento socioemocional da criança. E também com não se culpar nos momentos em que as demandas do trabalho gritarem mais alto, mas aproveitar o tempo possível com os filhos para investir em melhorar e aprofundar o relacionamento.

Aqui em casa percebemos muitas coisas no meu filho de quatro anos, que durante o período letivo nunca tínhamos conseguido prestar a atenção necessária. Enxergamos melhor capacidades e dificuldades que ele tem, percebemos mais a fundo características minhas e da minha esposa refletidas nele e vimos até alguns pontos da saúde dele melhorarem por estar dormindo melhor e tomando mais água.

Tudo isso é intencional. É uma decisão e uma escolha por estar mais com ele nos tempos que isso for possível sem deixar os outros pratos caírem.

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A paz e o sossego vão chegar

Estamos em uma época confusa em que o discurso aceito pela maioria é o de que não se deveria fazer sacrifícios por ninguém a não ser por si mesmo. Abrir mão pontualmente do seu bem-estar em benefício daqueles que colocamos no mundo é, no fim das contas, um autossacrifício. E isso é um insulto àqueles que endeusam a si mesmos e não veem nenhum sentido em beneficiar os outros – mesmo que esses “outros” sejam os próprios filhos.

Outra fala clássica de Jesus é a de que nos últimos dias, “devido ao aumento da maldade o amor de muitos esfriará” (Mt 24:12). Torço para que você seja diferente da maioria, ou que esteja tentando ser. Que não seja mais um a esfriar e se esvaziar, não sendo mais capaz de distribuir esse amor nem mesmo para os da sua casa.

Daqui a alguns anos possivelmente você vai sentir saudade da casa barulhenta e bagunçada, dos brinquedos pelo chão, de alguém ao lado te “perturbando” porque quer sua companhia. O tão desejado sossego um dia vai chegar. A casa vai ficar limpa e silenciosa, o tempo livre vai chegar e aquela criança, que agora cresceu, provavelmente terá outras prioridades.

Essa paz e esse sossego podem trazer a tranquilidade de quem plantou boas sementes e criou um adulto emocionalmente forte, com o amor e a presença devidos, ou a inquietação amarga de quem não soube viver bem aqueles janeiros sem fim. Faça sua parte!

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