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O futuro do trabalho está nas pessoas
O futuro do trabalho está nas pessoas| Foto: Unsplash, Dai KE/Reprodução

No que você pensa quando o assunto é o futuro do trabalho? Provavelmente, conceitos como indústria 4.0, automatização e surgimento de novas profissões venham à mente. Contudo, isso não tem nada a ver com o futuro, e sim com o presente: nós já vivemos nessa realidade. Por isso, já não faz mais sentido bater na tecla de que o mercado de trabalho está mudando e que muitas das profissões que conhecemos hoje tendem a desaparecer. Sejam vagas formais ou informais, quase 60% das atividades executadas por humanos já podem ser substituídas por máquinas atualmente, como apontou um estudo realizado pela consultoria IDados em 2019.

Se essa já era a realidade de três anos atrás, em 2022, acredita-se que ainda mais ocupações – especialmente aquelas que são desempenhadas de forma mecânica (pense em Charlie Chaplin no famoso filme Tempos Modernos, de 1936) – podem simplesmente desaparecer ao longo do tempo. A instalação de totens de autoatendimento em supermercados, por exemplo, pode erradicar a necessidade de pessoas que trabalham em caixas; veículos autônomos podem tornar pessoas que conduzem carros, ônibus e caminhões dispensáveis; entre tantos outros exemplos de atividades que podem ser automatizadas. Isso sem contar inteligências artificiais mais complexas já disponíveis, capazes de automatizar trabalhos mais sofisticados, como produção de texto, análise de processos jurídicos, exames médicos e muitos outros.

Imagine como seria se esses quase 60% dos empregos já fossem automatizados. Teríamos  milhões de trabalhadores e trabalhadoras sem emprego, com potencial aumento da pobreza, da fome e da desigualdade social no país. “Mas novas profissões estão surgindo!”, alguém poderia dizer. Sim, estão, mas, comumente, são atividades de alta qualificação, ligadas ao desenvolvimento de tecnologia, como ciência de dados, engenharia de software e treinamento de inteligência artificial. São áreas que exigem um nível de especialização bastante superior ao grau médio de formação da maioria desses profissionais. Na prática, é muito improvável que alguém que sempre teve experiência como motorista de aplicativo consiga, do dia para a noite, um emprego em data science.

O grande problema aqui é que, sem um esforço estruturado de qualificação de trabalhadores em massa na área de tecnologia, perdemos duplamente. Isso porque empregos mais operacionais aqui no país serão substituídos por outros mais qualificados na Califórnia, China, Índia e outros países que forem bem sucedidos nesse esforço de formação de talentos tech.

Nesse cenário, cada vez mais, a necessidade de qualificação e capacitação se mostra essencial  para pessoas que buscam no trabalho oportunidades de crescimento e desenvolvimento pessoal. Soma-se a esse elemento aspectos ligados ao mundo do trabalho, cada vez mais valorizados, como a sensação de propósito — fazer parte de algo maior, contribuir de forma positiva com a sociedade e estar alinhado aos valores pessoais — é algo que vem tendo um peso mais significativo nos últimos anos e que está mais presente no ecossistema de desenvolvimento de inovações tecnológicas.

As gerações mais jovens, como os millennials e a geração Z, estão mudando radicalmente sua relação com o trabalho. As pessoas com mais idade, já formadas em cursos de graduação tradicionais, muitas vezes percebem o descompasso entre a academia e a prática; as mais jovens, nativas digitais, enxergam possibilidades que seriam inimagináveis anos atrás. Assim como as pessoas precisam se adequar às novas demandas do mundo do trabalho, o trabalho também terá que ser adaptado para atender a um paradigma que passa por transformações: jornadas mais curtas, semanas de quatro dias de trabalho, menos reuniões desnecessárias, mais flexibilidade e autonomia, lideranças mais assertivas e humanizadas.

Exemplo disso é o movimento da “Grande Resignação”, fenômeno que já vem alterando as dinâmicas laborais em países como China, Estados Unidos e, mais recentemente, no Brasil. O aumento no número de demissões voluntárias demonstra na prática essa mudança de mentalidade das pessoas trabalhadoras, especialmente das mais jovens, que buscam ambientes de trabalho mais saudáveis e, principalmente, mais qualidade de vida.

Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o aumento das demissões voluntárias gerou rotatividade de 15% nas vagas com carteira assinada. Os dados não levam em consideração as demissões em comum acordo, o que significa que há ainda mais demissões e mais rotatividade do que os números apontam. Se esses são dados gerais, podemos supor com boa margem de certeza que, no setor tecnológico, essa rotatividade é ainda bem maior.

Cabe ressaltar que um estudo da Consultoria McKinsey de 2019 apontou que haverá pelo menos 1 milhão de vagas na área de tecnologia que não serão preenchidas por falta de profissionais no Brasil até 2030. Considerando que o estudo foi feito pré-pandemia, com a aceleração dos processos de transformação digital acredito que esse número pode ser ainda maior.

Cenários como esse devem levar empresas empregadoras e mudar sua lógica de gestão de pessoas. O foco deve se mover de processos de atração e recrutamento de profissionais para o desenvolvimento de suas carreiras dentro das empresas. E, quando se fala em tecnologia, o aprendizado deve ser constante. Nesse sentido, empresa e escola deverão andar cada vez mais juntas.

O futuro do trabalho não pode ser reduzido ao fascínio tecnológico e às inúmeras oportunidades oferecidas pelas tecnologias de informação e comunicação. Mais do que isso, o coração do futuro do trabalho reside nas pessoas. O que as empresas estão fazendo para valorizar e capacitar sua equipe? De que maneira é possível manter as pessoas colaboradoras motivadas e engajadas? Encontrar talentos já é um desafio, mas mais difícil ainda é retê-los.

*Felipe Matos é sócio-fundador da escola digital de tecnologia Sirius Educação, fundador da aceleradora Startup Farm, presidente da Associação Brasileira de Startups e vice-presidente do Grupo Dínamo. Foi diretor do programa Startup Brasil, no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações, e é também autor do livro "10 mil startups – Guia prático para criar e crescer sua startup".

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