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Metamorfose tech
Metamorfose tech| Foto: Unsplash, ThisisEngineering RAEng/Reprodução

Há cerca de um ano, escrevi sobre a curva de aprendizado do mercado financeiro em relação ao assunto tecnologia e quais eram seus desdobramentos. Um ano se passou, e – conforme previ – o tema é ainda mais relevante. Não antecipei, no entanto, o quanto que o ecossistema iria amadurecer nesse ano. Olhando para trás, é impressionante tudo que já aconteceu em tech no ano de 2021. Fico com uma sensação dividida: se por um lado os meses passaram voando, por outro, aconteceu tanta coisa em 2021, que parece que foram sete anos em um – ou como falam popularmente “ano de cachorro”.

Não é de hoje que termos como “transformação digital”, “inteligência artificial” e “machine learning” estão em evidência no Brasil e no mundo. O que antes era classificado como uma moda provisória, ou uma “hype”, hoje é condição sine qua non de sucesso, seja em empresas tradicionais ou nas chamadas startups. Gosto de falar que não existe mais essa divisão “empresas de tecnologia” e “empresas tradicionais”. Atualmente, tudo é tech, e quem não se adaptar e não investir no setor, definitivamente, ficará para trás. Segundo relatório da Atlântico, só no primeiro semestre no ano, foram US$ 9,3 bilhões investidos em startups na América Latina. Nesse ritmo, esse valor será superado no segundo semestre. Isso porque estamos tirando da conta o investimento por parte de empresas tradicionais em suas respectivas iniciativas de inovação. A aposta dessas empresas em parcerias com startups vem crescendo. Entre maio de 2020 e junho de 2021, o número de acordos desse tipo praticamente dobrou, saindo de 13.433 para 26.348. Isso se traduz em um acréscimo de 175% em reais quando comparado ao ano passado: foi de R$ 800 milhões para R$ 2,2 bilhões.

O mercado financeiro foi diretamente afetado por essa transformação que está em curso. Os gestores de renda variável e multimercado tiveram que fazer algumas mudanças para se adaptarem a esse processo de evolução constante – que não se trata mais de um ciclo, mas, sim, um efeito perene. Por exemplo, há alguns anos, não havia um analista dedicado 100% para tecnologia, hoje é difícil ver um fundo de renda variável sem essa figura. Além disso, sócios das gestoras buscam aprender e entender essas empresas para mapearem possíveis efeitos nos respectivos portfólios. E, com isso, estamos vendo cada vez mais fundos que antes investiam apenas em empresas listadas na bolsa, criando veículos para investir em empresas privadas ou em fase pré-IPO – os chamados “crossover funds”.

Elas vieram para ficar

A curva de aprendizado das assets locais seguiu uma sequência muito similar: i) estabelecimento e manutenção de contatos com o setor através dos fundos de venture capital; ii) cursos, leituras e viagens para entender como havia sido o desenvolvimento em outras partes do mundo, como China e Vale do Silício; iii) investimento dos sócios na física em empresas de tecnologia não listadas, e finalmente, (iv) a abertura de veículos ou fundos que possam, do ponto de vista regulatório, investir tanto em empresas listadas na Nasdaq quanto em rounds privados. Em 2021, vimos muitos fundos criando esse tipo de veículo, e essa tendência deve continuar nos próximos anos.

Falando de empresas listadas, o ano de 2021 tem sido impressionante. Podemos dividir elas em dois grupos: criação de produtos (computadores e acessórios) e serviços (softwares). No primeiro grupo, então, temos as produtoras de bens tangíveis, como a Intelbrás (INTB3) e Positivo (POSI3). No segundo, no qual se concentram a grande maioria das empresas do setor, temos as que prestam serviços, como Locaweb (LWSA3), Bemobi (BMOB3), Mosaico (MOSI3) e Méliuz (CASH3).

O aumento de empresas do setor na B3 é bastante expressivo: fomos de 4 para 13 em apenas um ano, considerando a janela de março 2020 até março 2021. Com as demais que ocorreram nos últimos meses, estamos em 17. Não é à toa que os fundos precisam aprender e se adaptar – esse número pode dobrar no ano que vem com o amadurecimento de diversas empresas brasileiras. Vale mencionar que aqui estamos falando apenas de B3. Quando incluímos as brasileiras que se listaram na Nasdaq, como a VTEX, o número aumenta ainda mais. É impossível ignorar que o tech veio para ficar, a despeito de especulações sobre uma possível “bolha”.

Acredite, é só o começo

O fato é que ainda estamos no início da revolução tecnológica no Brasil. Vale lembrar que tivemos apenas em novembro de 2020 o primeiro IPO de uma venture-backed company no Brasil, o Méliuz, empresa mineira de cashback. Por que esse IPO foi importante? Além de dar a oportunidade a investidores e gestores de expressarem suas visões do setor em uma true tech company (vis-à-vis por meio de uma operação originalmente de Varejo, como a MagaLu), ela abre caminho para uma fila de startups virem para a bolsa.

Apesar desse boom, ainda não é claro se o mercado brasileiro está maduro o suficiente. Muitas empresas de tecnologia listadas na B3 estão atualmente com um preço de tela abaixo de seu preço de emissão. Mesmo que seja uma consequência do mau humor atual do mercado, as empresas de tecnologia também estão se ajustando. E, na minha visão, uma certa consolidação está prestes a acontecer. Empresas de software menores serão adquiridas por grandes varejistas ou Bancos, ou irão se fundir. E, após essa correção, preços se ajustarão e a janela de IPOs abrirá novamente.

Quanto ao mundo de Venture Capital, 2021 foi o ano da América Latina. Com a posição dura do governo chinês, muitos fundos de growth que dedicavam a maior parte de seus recursos focados em países emergentes na China, tiveram que mudar um pouco o direcionamento. Estamos vendo diversos fundos gringos investirem por aqui e, concomitantemente, vários fundos locais surgindo. Como consequência, o valuation das startups aumenta – muitas vezes sem uma razão clara. Teremos que ter também um ajuste no mercado privado.

Fato é que – apesar de todos os ajustes – estamos apenas no começo. E, me deixa muito animada acompanhar de perto a evolução desse mercado. Espero daqui a um ano contemplar novamente o tema e verificar um amadurecimento ainda maior, com empresas sólidas que possam ser exemplos mundiais de sucesso.

*Julia De Luca ingressou no Itaú BBA em 2018 para atuar na área de Equity Sales Tech Institucional e, atualmente, é Tech Manager. Em sua trajetória profissional, acumula passagens pela Stone Pagamentos e Gávea Investimentos. É graduada em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

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